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domingo, 22 de março de 2015

Inezita Barroso


(São Paulo/SP, 4/3/1925 ******** São Paulo/SP, 8/3/2015)

Inezita Barroso, pseudônimo de Ignez Magdalena Aranha de Lima foi, além de cantora e compositora, atriz, instrumentista, folclorista, professora e apresentadora de rádio e televisão brasileira, atuando também em shows, discos, cinema e teatro.
Nascida numa família aristocrática foi apaixonada pela cultura e, principalmente, pela música brasileira, Inezita começou a cantar e tocar violão e viola desde pequena, com sete anos. Estudiosa, matriculou-se no conservatório e aprendeu piano. Formou-se em biblioteconomia pela USP, antes de se tornar cantora profissional, na década de 50.

Inezita Barroso

Estreou como cantora em 1950, na Rádio Bandeirantes, de São Paulo, a convite de Evaldo Rui. Participou em seguida da transmissão inaugural da TV Tupi, canal 3, e trabalhou como cantora exclusiva da Rádio Nacional, de São Paulo, transferindo-se mais tarde para a Record. Ainda em 1950 participou do filme “Ângela”, dirigido por Tom Payne e Abílio Pereira de Almeida, e realizou recitais no T.B.C., no Teatro de Cultura Artística e no Teatro Colombo. Voltou a atuar em cinema em 1953, nos filmes “Destino em apuros” (direção de Ernesto Remani) e “Mulher de verdade” (direção de Alberto Cavalcanti). No ano seguinte, apareceu em “É proibido beijar”, de Ugo Lombardi, e “O craque”, de José Carlos Burle,

Inezita Barroso - 1926

Em 1953 gravou na Victor “Canto do mar” (Guerra-Peixe), “Marvada pinga” (Laureano), “Benedito pretinho” e “Dança do caboclo” (ambas de Heckel Tavares) e os sambas “Os estatutos da gafieira” (Billy Blanco) e “Isso e papel, João?” (Davi Raw e Cícero Galindo Machado). A partir de 1954 passou a apresentar-se semanalmente em programas folclóricos na TV Record, de São Paulo. Em 1955 atuou no filme Carnaval em lá maior (direção de Ademar Gonzaga) e, como atriz e cantora, representou o Brasil no Festival de Cinema de Punta del Este, Uruguai, viajando em seguida ao Paraguai.

Inezita Barroso - infância

Seu primeiro LP, “Inezita Barroso”, foi lançado pela Copacabana, também em 1955, com um repertório folclórico que incluía, entre outras, “Banzo” (Heckel Tavares e Murilo Araújo), “Funeral dum rei nagô” (Heckel Tavares e Murilo Araújo), “Viola quebrada” (Mário de Andrade) e “Mineiro tá me chamano” (Zé do Norte). Em seguida lançou os LPs “Canta Inezita”, “Coisas do meu Brasil” e “Lá vem o Brasil”. Nessa época, Jean Louis Barrault, Marian Anderson, Vittorio Gassmann e Roberto Ingles, em visita ao Brasil, levaram seus discos para a Europa, onde foram divulgados nas principais emissoras.
Em 1956 publicou seu livro Roteiro de um violão.
No ano de1969 ganhou troféu do I Festival de Folclore Sul-Americano, em Salinas, Uruguai.

Inezita Barroso - jovem

Em 1970 produziu um documentário que representou o Brasil na Expo70, no Japão.
Realizou programas especiais para o Uruguai, Paraguai, EUA, Israel, antiga URSS, França e Itália.
Ultrapassou a marca de cinqüenta anos de carreira e de oitenta discos gravados, entre 78 rpm, vinil e CDs.
Por vinte e seis anos comandou o programa de música caipira “Viola, Minha Viola”, pela TV Cultura de São Paulo.
Apresentou no SBT um programa musical, aos domingos pela manhã que levava seu nome.
A partir de 1990 passou a apresentar e a fazer a direção musical e folclórica do programa Estrela da Manhã, da Rádio Cultura AM, de São Paulo.

Inezita Barroso

Inezita Barroso foi reconhecida também como atriz de teatro e cinema. Por onde atuou, ela ganhou prêmios importantes, como o Troféu Roquette Pinto, como Melhor Cantora' de rádio; o prêmio Guarani, como melhor cantora em disco, além de ganhar também o Prêmio Saci de cinema. Em 2003, foi condecorada pelo governador de São Paulo Geraldo Alckmin com a Medalha Ipiranga, recebendo o título de comendadora da música raiz.
Desde a década de 80, Inezita Barroso ainda arranjava um espaço na agenda para dar aulas de folclore.
Lecionou nas faculdades Unifai e Unicapital, onde recebeu o título de doutora Honoris Causa em Folclore Brasileiro.
Gravou CDs com o violeiro Roberto Corrêa e a Orquestra de Violas de São José dos Campos.

Inezita Barroso

Inezita esteve internada no hospital Sirio-Libanês desde o dia 19 de fevereiro, Completou 90 anos no hospital. A cantora deixou uma filha, Marta Barroso, três netos e cinco bisnetos.
Segundo a família, Inezita morreu em decorrência de uma insuficiência respiratória aguda e seu velóri foi realizado no Assembléia Legislativa de São Paulo. O enterro ocorreu no cemitério Gethsemani, no Morumbi. zona sul da cidade de São Paulo.

Fonte: site Mpbnet.com.br
















terça-feira, 27 de novembro de 2012

João Nogueira

(Rio de Janeiro/RJ, 12 de novembro de 1941 — Rio de Janeiro/RJ, 5 de junho de 2000)

O compositor e cantor João Batista Nogueira Júnior, conhecido como João Nogueira, nasceu no Rio de Janeiro, em 12 de novembro de 1941.

Filho do advogado e músico João Batista Nogueira e irmão da também compositora, Gisa Nogueira, João Nogueira cedo tomou contato com o mundo musical. Logo aprendeu a tocar violão com o pai e a compor em parceria com a irmã.

Com apenas 17 anos, João Nogueira já era diretor de um bloco carnavalesco no bairro carioca do Méier. Naquela época, a gravadora Copacabana gravou sua composição "Espera, Ó Nega", que João cantou acompanhado pelo conjunto depois chamado "Nosso Samba".

Sua estréia profissional foi em 1970, quando Elizeth Cardoso gravou sua música "Corrente de Aço", inserindo João Nogueira definitivamente no meio musical.

Em 1971, João Nogueira teve obras suas gravadas por Clara Nunes ("Meu Lema") e Eliana Pittman ("Das Duzentas pra Lá").

Ainda em 1971, João Nogueira passou a integrar a ala de compositores da Portela, sua escola de coração, onde venceu um concurso interno com o samba "Sonho de Bamba". Mais tarde, fez parte do grupo dissidente que saiu da Portela para fundar a Tradição. Fundou também o bloco "Clube do Samba" que ajudou a revitalizar o carnaval de rua carioca.

Em mais de quatro décadas de atividade, João Nogueira gravou 18 discos. Teve vários parceiros, mas o mais constante foi Paulo César Pinheiro.

Quando morreu, vitimado por um enfarte, em 2000, João Nogueira organizava um espetáculo numa grande casa noturna de São Paulo e que resultaria no lançamento de uma gravação ao vivo.

Presidente do Clube do Samba, fundado, em 1979, por ele e outros sambistas famosos, como Alcione, Martinho da Vila e Beth Carvalho, João Nogueira faleceu aos 58 anos de idade de enfarte em sua casa, no dia 05 de junho de 2000. Portelense e flamenguista, o sambista apresentava debilitado estado de saúde nos últimos tempos: havia sofrido cinco derrames, uma isquemia cerebral e um acidente vascular cerebral. O enterro aconteceu no cemitério São João Batista, no Rio.

Com sua morte, vários colegas se juntaram para apresentar, nas mesmas datas e no mesmo local, um espetáculo em sua homenagem. Participaram Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, Dona Ivone Lara, Arlindo Cruz e Sombrinha, Emílio Santiago, Carlinhos Vergueiro e a família de João: o sobrinho Didu, o filho Diogo e a irmã e parceira Gisa. O show foi gravado para o disco "João Nogueira, Através do Espelho".

Discografia

João de Todos os Sambas (1998)
Chico Buarque, Letra & Música - João Nogueira e Marinho Boffa (1996)
Parceria - João Nogueira e Paulo César Pinheiro - Ao Vivo (1994)
Além do Espelho (1992)
João (1988)
João Nogueira (1986)
De Amor é Bom (1985)
Pelas Terras do Brasil (1984)
Bem Transado (1983)
O Homem dos Quarenta (1982)
Wilson, Geraldo, Noel (1981)
Boca do Povo (1980)
Clube do Samba (1979)
Vida Boêmia (1978)
Espelho (1977)
Vem que Tem (1975)
E Lá Vou Eu (1974)
João Nogueira (1972)


Fontes: Sites Wikipédia; MPBNet; Cliquemusic.

Isaurinha Garcia

(São Paulo/SP, 26.02.1919 ***** São Paulo/SP, 30.08.1993)

Isaura Garcia, mais conhecida como Isaurinha Garcia, era paulistana do bairro do Brás, nasceu na Rua Alegria. Sobrinha do famoso pintor José Pancetti, sua mãe chamava-se Amélia. Ainda menina, ajudava na loja da família, engarrafando vinho. Foi lá que começou a demonstrar o seu talento musical, pois, enquanto enchia as garrafas, ia cantando. A mãe resolveu então levá-la a um programa de calouros, quando ela tinha 13 anos. Era o programa "A Hora da Peneira Rhodine", da Rádio Cultura, onde ela foi eliminada. Fez nova tentativa um ano depois, em 1937, na Rádio Record, no programa de Otávio Gabus Mendes, onde interpretou "Camisa Listrada", obtendo o primeiro lugar.

Iniciou sua carreira profissional, ainda em 1937, depois do concurso na Rádio Record, que lhe valeu o convite para participar de um programa de calouros especiais.

No ano seguinte, foi contratada pela Rádio Record, permanecendo como uma das principais cantoras de seu cast ao longo de toda a sua carreira. No início, formou dupla com o cantor Vassourinha, apresentando-se na Record, em shows e circos. No começo da carreira, inspirou-se em Carmen Miranda e Araci de Almeida, das quais era fã. Estreou na gravação com um "jingle" publicitário do sapólio Radium.


Em 1941, gravou seu primeiro disco, pela Colúmbia, com "Chega de Tanto Amor", de Mário Lago, e "Pode Ser", de Geraldo Pereira e Marino Pinto. Ainda em 1941, gravou "A Baratinha", de Antônio Almeida; "Eu Não Sou Pano de Prato", de Mário Lago, e Roberto Martins; "Aproveita o Beleléu", de Marino Pinto e Murilo Caldas, e "O Telefone Está Chamando", de Benedito Lacerda e Popeye do Pandeiro.

Seu primeiro sucesso aconteceu em 1943, com "Aperto de Mão", de Horondino Silva (Dino), Jaime Florence (Meira) e Augusto Mesquita, gravados pela Victor. No mesmo ano, ainda gravou "Sorriso de Paulinho", de Gastão Viana e Mário Rossi, e "Duas Mulheres e Um Homem", de Ciro de Sousa e Jorge de Castro. Nessa época, participava de vários programas consagrados do rádio e apresentava shows em boates.

Em 1945, gravou o samba "Mensagem", de Aldo Cabral e Cícero Nunes, que se tornou um clássico de seu repertório.


Em 1947, veio novo sucesso com o samba "De Conversa em Conversa", de Lúcio Alves e Haroldo Barbosa, gravado ao lado do grupo "Os Namorados da Lua".

No fim da década de 1940, Isaurinha Garcia já era uma cantora de expressão nacional, que recebia convites para se apresentar na Rádio Nacional do Rio de Janeiro (programa César de Alencar) e na boate do Hotel Copacabana Palace. Nesse período, fez várias excursões pelo país.

No início da década de 50, lançou outros sucessos: "Marrequinha", toada de Denis Brean e Raul Duarte; "Velho Enferrujado", de Gadé e Valfrido Silva, e o baião "Pé de Manacá", de Hervê Cordovil e Marisa Pinto Coelho.

Foi eleita a primeira Rainha do Rádio Paulista em 1953.


Em 1956, transferiu-se da gravadora Victor para a Odeon. Nessa gravadora estreou com "Mocinho Bonito", de Billy Blanco.

No ano seguinte, gravou o primeiro LP (10 polegadas), com o título "A Personalíssima", que teve arranjos de Luís Arruda Pais. Conheceu seu futuro marido, Walter Wanderley, numa excursão a Recife, PE. Depois de casada, lançou com ele alguns LPs: "Sempre Personalíssima" (1959); "Atualíssima" (1963) e "Sambas da Madrugada" (1963). Ainda em 1963, gravou com sucesso "Tem Bobo Pra Tudo", samba de Manuel Brigadeiro e João Correia da Silva.

Em 1969, gravou dois LPs pela Continental: "Martinho da Vila e Dolores Duran na voz de Isaura Garcia" e "Ary Barroso e Billy Blanco na voz de Isaura Garcia". No mesmo ano, participou do V Festival de MPB na TV Record, de São Paulo, interpretando "Primavera" de Lupicínio Rodrigues e Hamilton Chaves.

Lançou novo LP com músicas de Noel Rosa e Chico Buarque, em 1970. No mesmo ano, aposentou-se na Rádio Record. Nessa época, fez várias apresentações nas boates paulistas Igrejinha, Casa da Badalação e Tédio.

Em 1973, gravou o LP "Isaura Garcia", pela Continental.

Em 1987, A gravadora Eldorado lançou "Isaura Garcia - Documento Inédito", incluindo, entre outras, músicas de Dorival Caymmi e Roberto e Erasmo Carlos.

Gravou mais de 90 discos em 78 rpm e mais de 10 LPs, ao longo da carreira.

Recebeu de Blota Júnior o slogan: "Isaurinha, A Personalíssima", que acabou batizando o seu primeiro LP. Morou por toda a vida na capital paulista, onde faleceu em agosto de 1993, aos 74 anos.

Em 2003, foi montado o musical "Isaurinha Garcia --Personalíssima", estrelado por Rosamaria Murtinho e produzido por Rick Garcia, neto da cantora.

Dirigido por Jaqueline Laurence, o espetáculo conta a história de Isaurinha, considerada a Rainha do Rádio Paulista nas décadas de 40 e 50. No palco, 15 atores, entre eles Rosamaria Murtinho, Taís Araújo e Rick Garcia, contam a história e carreira de Isaurinha, desde a adolescência até sua morte, aos 70 anos. Os atores interpretam 76 personagens.

O espetáculo traz 15 números musicais, tocados ao vivo por uma banda de 4 músicos. Os personagens transitam pelo bairro paulistano do Brás, com riqueza de detalhes, onde Isaurinha viveu, levam o espectador a uma visão geral do universo da época.


Fontes: CollectorsS Studio; Folha Online. 

Itamar Assunção

(Tietê/SP, 13 de setembro de 1949 — São Paulo/SP, 12 de junho de 2003)

Francisco José Itamar de Assumpção , conhecido como Itamar Assumpção, nasceu em 13 de setembro 1949 na cidade de Tietê, interior de São Paulo.

Foi compositor, cantor, instrumentista, arranjador e produtor musical que se destacou na cena independente e alternativa de São Paulo nos anos 1980 e 1990.

Fez parte da chamada Vanguarda Paulista, ao lado de Arrigo Barnabé, Grupo Rumo, Premê (Premeditando o Breque) e outros. Sua obra era tida como difícil por muitos críticos, o que lhe valeu a alcunha de "Artista Maldito", a qual detestava. "Eu sou artista popular!", bradava indignado.

Entre suas canções mais conhecidas estão "Fico Louco", "Parece que Bebe", "Beijo na Boca", "Sutil", "Milágrimas", "Vida de Artista" e "Dor Elegante".

Descendente de escravos angolanos, o cantor ouvia desde pequeno a música dos terreiros de candomblé que vinham do quintal da sua casa.

De 1963 a 1973, Itamar morou no Paraná e lá iniciou sua carreira musical, largando um curso de contabilidade. Na época, conheceu Arrigo Barnabé, um de seus parceiros mais constantes. Em 1973, Itamar mudou-se para São Paulo.

Em 1980, lançou seu primeiro LP: "Beleléu, Leléu, Eu", com a banda Isca de Polícia. Tanto este como os dois lançamentos seguintes (Às Próprias Custas, de 1983, e Sampa Midnight, de 1986) foram feitos de maneira independente. A única grande gravadora a acolher seu trabalho foi a Continental - comprada anos mais tarde pela Warner -, em 1988. O disco tinha o irônico título Intercontinental! Quem diria! Era só o que faltava...

Em 1993, pelo selo Baratos Afins, lançou "Bicho de Sete Cabeças". "Bicho de Sete Cabeças II" foi lançado no ano seguinte. Os dois CDs foram gravados com a banda Orquídeas do Brasil. Em 1995, o CD Ataulfo Alves por "Itamar Assumpção - Para Sempre Agora" deu ao cantor o prêmio de melhor CD do ano pela APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte)

Experimentou a mistura dos sons do rock com o samba e o funk, criando uma linguagem urbana, trazendo ainda na bagagem sua experiência como ogã no terreiro de Candomblé de seu pai. Itamar compunha apoiado na linha do contrabaixo: "componho para o contrabaixo. Não é harmonia, acorde, são só notas", e foi diretamente responsável pela aproximação de Alice Ruiz à Vanguarda Paulista, quando mostrou ao público os sons dos versos da poeta.

Foi o mais assíduo parceiro de Alice Ruiz, Alzira Espíndola e Ná Ozzetti e também parceiro de Tetê Espíndola, até a data de sua morte. Viveu à margem da mídia, recusando-se inclusive a editar suas músicas e a entrar no que chamava de sistema. Negro, foi parar na cadeia com 23 anos de idade, quando esperava um ônibus na Rodoviária de Londrina com sua mala e um toca-fitas. Passou cinco dias preso e incomunicável, num cubículo com mais uns quinze homens lá dentro, todos de cócoras porque não havia espaço para deitar. Itamar afirmou que não usou essa experiência em música, no entanto é interessante notar que a primeira banda que formou chamava-se Isca de Polícia, e até hoje, é difícil alguém pensar em Itamar Assumpção sem chamar pelo Nego Dito.

O último CD, "Pretobrás", foi gravado em 1998 e precedeu um momento delicado na vida do artista. Em 2000, Itamar fez três cirurgias para a retirada de um tumor do intestino. Ainda em recuperação e sob tratamento quimioterápico, continuou fazendo shows.

Discografia

Vasconcelos e Assumpção - isso vai dar repercussão, Elo Music/Boitatá, 2004. Com Naná Vasconcelos.
Pretobrás, Atração, 1998.
Ataulfo Alves por Itamar Assumpção - Pra Sempre Agora, Paradoxx, 1996.
Bicho de Sete Cabeças Vol III, Baratos e Afins, 1993.
Bicho de Sete Cabeças Vol II, Baratos e Afins, 1993.
Bicho de Sete Cabeças Vol I, Baratos e Afins, 1993.
Intercontinental ! Quem Diria! Era Só o Que Faltava !!!, Atração, 1988.
Sampa Midnight - isso não vai ficar assim, independende, 1983.
Às Próprias Custas S/A. Lira Paulistana, 1981.
Beleléu, Leléu, Eu. Lira Paulistana, 1980.


No dia 12 de junho de 2003, Itamar Assumpção faleceu na cidade de São Paulo, vítima de complicações causadas pelo tumor, aos 53 anos


Fontes: Sites Entrecantos, Wikipédia; MPB Net.

João do Vale

(Pedreiras/MA, 11 de outubro de 1934 - São Luís/MA, 6 de dezembro de 1996)

João Batista Vale nasceu em Pedreiras, no Maranhão, em 11/10/1934.

Quinto de oito irmãos ajudava em casa, vendendo balas e doces feitos pela mãe. Freqüentou a escola até o terceiro ano primário quando teve de interromper os estudos – não para trabalhar, mas para ceder lugar ao filho de um coletor recém-nomeado para trabalhar em Pedreiras.

Aos 12 anos, mudou-se com sua família para São Luis e aos 14 tomou a decisão de morar no Sudeste – sonhava com o Rio de Janeiro. Como seus pais não o deixariam partir, fugiu de trem para Teresina e arranjou emprego como ajudante de caminhão. Viajava de Fortaleza a Teresina. Um dia, Joáo do Vale chegou a Salvador, primeira cidade grande que conhecia, e, em seguida, foi para Minas Gerais. Chegou ao Rio de Janeiro, de carona, aos 17 anos e foi ser ajudante de pedreiro.

João do Vale trabalhava e dormia na construção. À noite, percorria as rádios na esperança de se aproximar de algum artista. O primeiro a que teve acesso foi Zé Gonzaga, que, a princípio, não quis ouvir suas músicas, mas, depois, gostou muito delas e gravou Cesário Pinto, que fez sucesso no Nordeste. Luiz Vieira foi o segundo que João procurou. Com ele, fez a música "Estrela Miúda" e Luiz Vieira conseguiu que Marlene gravasse a música.

Embora não tenha sido fácil, o início da carreira de João do Vale foi rápido. Ele chegou no Rio de Janeiro no final de 1950 e, já no ano seguinte, suas músicas começaram a ser gravadas. Em 1952, João do Vale foi pela primeira vez receber os seus direitos autorais e surpreendeu-se com a quantia: 200 cruzeiros. Uma fortuna para quem suava na construção por 5 cruzeiros mensais.

Além de Marlene, Luiz Vieira, Dolores Duran, Luiz Gonzaga e Maria Inês também gravaram músicas de João do Vale e fizeram sucesso.

Em 1954, João do Vale participou com figurante do filme "Mão Sangrenta", dirigido por Carlos Hugo Christansen. Conheceu Roberto Farias – na época assistente de direção, - que, ao se transformar em diretor, convidou o compositor para musicar alguns de seus filmes, como "No Mundo da Luz", de 1958. Em 1969, João do Vale compôes a trilha sonora do filme "Meu Nome é Lampião", de Mozael Silveira.

No Rio de Janeiro, João Vale começou a se apresentar no Zicartola – o bar de Cartola e Zica --, onde compositores se reuniam para cantar. Fez sucesso e foi convidado para ali se apresentar às sextas-feiras.

O show do "Forró Forrado" foi criado especialmente para João do Vale pelo seu proprietário, "seu" Adolfo, seu amigo e admirador.

Sem gravar discos, por causa da censura, e vendendo seus baiões para outros compositores, João do Vale estava com dificuldades financeiras. Preocupado com a situação do amigo, "seu" Adolfo criou o show "Forró Forrado".

No ZiCartola, a carreira de João do Vale tomou novo impulso e ele passou a fazer sucesso novamente.

A partir de 1975, João do Vale começou a apresentar-se, com muito sucesso, em shows em circuitos universitários. Ainda em 1975, João do Vale fez o show Opinião, reapresentado após 10 anos da realização do primeiro. Alguns meses depois do segundo show Opinião, João do Vale foi convidado para apresentar-se nos Estados Unidos por diversas vezes.

Em 1976, João preparou o show "E agora João?" e apresentou-se por todo o país, vendendo seus LPs e ganhando direitos autorais.

Em 1987, quando ia Nova Iguaçu com uma amiga, João do Vale parou em um restaurante para almoçar e sentiu-se mal e, de repente, desabou direto no prato, fulminado por um AVC, mais conhecido como derrame cerebral.

Sua acompanhante ficou apavorada e saiu correndo, abandonando o local. João do Vale foi levado inconsciente para o Hospital da Posse de Nova Iguaçu. Sem documento e dinheiro (sua carteira ficara na bolsa da acompanhante), foi deixado numa maca e negligentemente abandonado à própria sorte.

Após ficar sem atendimento adequado, teve convulsão e caiu da maca, batendo a cabeça no chão. Foi atendido por uma estagiária e, reconhecido, teve socorro.

João do Vale ficou internado por dois anos na ABBR, no bairro Jardim Botânico, para tratar da semi-paralisia do lado direito do seu seu corpo. Nesse período, seus amigos se movimentaram para organizar e promover shows em benefício do artista e sua família.

Em 1989, João do Vale recebeu alta e providenciou sua aposentadoria, passando a viver da pensão de cinco salários mínimos e de direitos autorais.

João do Vale ficou consciente, mas com grande lacunas na memória, cognição afetada e dificuldades na fala. Tinha o corpo semi-paralisado e a perna visivilmente atrofiada.

Em outubro de 1992, João do Vale foi homenageado em sua terra natal, com um show no Teatro da Praia Grande. Na ocasião, João do Vale revelava que sua intenção era se mudar para a cidade de Pedreiras a fim de passar o resto da sua vida na terra onde nascera.

João voltou para Pedreiras, mudança fundamental para sua saúde. Ele não cansava de repetir o quanto se sentia bem em sua cidade natal.

Ao completar 60 anos, em 1993, João do Vale foi homenageado com um show no teatro que levava seu nome, o Espaço Cultural João do Vale, na Praia Grande, em São Luis. Uma semana após o show, ele apareceu, de surpresa, na estréia de Chico Buarque no Canecão, no Rio. Naquele mesmo final de ano, Chico Buarque começou a pensar no projeto de um disco-tributo para João do Vale, com venda a ser revertida para o artista e sua família.

O disco começou a ser gravado, pela BMG – Ariola, em 1994 e teve direção artística de Chico Buarque, Fagner e Sérgio de Carvalho. Vários artistas participaram das gravações com composições de João do Vale.

O disco-tributo "João Batista Vale" recebeu, em 1995, o Prêmio Sharp de melhor disco de música regional.

No ano de 1996, a saúde João do Vale ia oscilando, apresentando melhoras alternadas com algumas crises.Todos os dias, João do Vale jogava dominó em frente ao Sindicato dos Arrumadores, no centro de Pedreiras. Aos poucos, o estado de saúde de João do Vale foi piorando.

Em 22 de novembro daquele ano, a turma do dominó soube que João não iria para o jogo, pois passara mal e resolvera ficar em casa. No final da tarde foi acometido por um novo acidente vascular cerebral. Apresentando um quadro grave de diabetes, hipertensão arterial e insuficiência renal, no dia 4 de dezembro, sofreu seu terceiro e fatal derrame, o que o levou ao coma. No dia 06 de dezembro de 1996, sexta-feira, às 13h30min, com falência múltipla dos órgãos, morreu João Batista Vale. A seu pedido, foi enterrado, em 8 dezembro, no modesto cemitério São José, de Pedreiras. Mais de 5 mil pessoas acompanharam o cortejo fúnebre, ao som de "Pisa na Fulô" e "Carcará", em arranjo para solo de saxofone de Sávio Araújo.

Fontes: Texto Site Fundação João Vale. Fotos Site Iolanda Hazuk, MPBNet, Sites diversos de música.

Jamelão

(Rio de Janeiro/RJ, 12 de maio de 1913 **** Rio de Janeiro/RJ, 14 de junho de 2008)

José Bispo Clementino dos Santos, conhecido como Jamelão, nasceu no dia 12 de maio de 1913, no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro.

Jamelão mudou-se com os pais para o bairro do Engenho Novo, onde passou a maior parte de sua juventude. Foi lá que começou a trabalhar para ajudar a sustentar a família com sua irmã e mais dois irmãos, pois seu pai havia se separado de sua mãe.

O moleque Saruê primeiro foi engraxate, depois vendedor de jornal, e, finalmente, tocador de tamborim e cavaquinho nos subúrbios cariocas.

Virou Jamelão por invencionice talvez de um apresentador de programas de rádio, ou então de um gerente de gafieira. Isso não se sabe ao certo.

Jamelão trabalhou numa fábrica de borracha também no Engenho Novo, e ali começou a sair na noite com um outro amigo e a conhecer muitas músicas num lugar chamado "Eldorado", onde começou a se envolver com música.

Aos 15 anos, Saruê, cavaquinista e ritmista de certo prestígio em alguns poucos bairros da periferia carioca, conheceu o sambista Lauro Santos, o Gradim, que o levou à Escola Estação Primeira de Mangueira.

Na Mangueira, Jamelão começou na bateria, depois foi se enturmando com o pessoal do samba. Nessa época, ele não tinha quaisquer pretensões artísticas. Ia para a avenida para tocar tamborim e paquerar as meninas. Com o passar do tempo, começou a participar das rodas que ocorriam após o desfile, na Praça Onze.

Segundo ele, lá "paravam os batuqueiros", para fazer um "samba pesado. Samba duro, de roda". Essas rodas de samba, vez por outra, acabavam com a chegada da polícia. A explicação de Jamelão é que nessas rodas sempre aparecia um "Zé Mané querendo fazer o nome. A rapaziada, então, pegava ele na pernada. O sujeito guardava a raiva e voltava no ano seguinte, querendo vingança. Já vinha armado e aconteciam brigas sérias. A polícia sempre intervinha".

Em 1945, Jamelão participou, sem sucesso, de um programa de calouros na Rádio Ipanema. Foi gongado.

Dois anos depois do gongo, Jamelão venceu o concurso de calouros promovido pela Rádio Clube do Brasil e assinou, como prêmio pela vitória, um contrato de um ano com a gravadora Continental.

Em 1948, com o final do contrato com a Continental, Jamelão passou para a Rádio Tupi, onde se apresentava nos "dancings" Brasil e Farolito. No ano seguinte, 1949, Jamelão começou a sua carreira como intérprete da Mangueira. Nesse mesmo ano, substituiu o cantor Francisco Alves em um show no Teatro João Caetano, no Rio.

Em 1952, já gozando de certa fama, Jamelão viajou para a França como "crooner" da Orquestra Tabajara do maestro Severino Araújo, para cantar em uma festa promovida por Assis Chateaubriand e pelo estilista francês Jacques Fath, no castelo de Coberville, nos arredores de Paris. A festa marcou a apresentação do algodão brasileiro para a alta-costura européia, e, segundo reza a lenda, dela participaram celebridades como Orson Wells e Jean-Louis Barrault.

Foi também como "crooner" da Orquestra Tabajara que Jamelão protagonizou o memorável banho na big band americana de Tommy Dorsey, em um duelo ocorrido no auditório da antiga rádio Tupy. Esse duelo, de repercussão internacional, deu à voz de Jamelão e à orquestra de Severino Araújo passaporte para as várias apresentações pela Europa.

Em 1954, ele se transferiu para a gravadora Continental, onde obteve grande êxito com as músicas "Leviana" (Zé Keti e Armando Reis), "Folha Morta" (Ari Barroso) e "Deixa de Moda" (Padeirinho). Dois anos depois, ele fez muito sucesso com a gravação da música "Exaltação à Mangueira" (Enéias Brito e Aluísio Augusto da Costa), feita para o desfile daquele ano. Em 1959, ele gravou "Ela Me Disse Assim" de Lupicínio Rodrigues e fez enorme sucesso.

Nove anos depois, em 1968, Jamelão entrou para a ala de compositores da Mangueira. Em 1972, gravou o LP "Jamelão Interpreta Lupicínio Rodrigues", totalmente dedicado à obra do compositor gaúcho. Nele o cantor é acompanhado pela Orquestra Tabajara. Daí pra frente sua fama correu o país. Tanto que alguns anos mais tarde, a Câmara Municipal de São Paulo deu a Jamelão o título de Cidadão Paulistano.

Em 1979, ele lançou o LP "Jamelão", no qual há faixas repletas de desgraças de amor. Coisas como "Coquetel de Sofrimento", "Castigo e Molambo". Mas a melhor de todas é "Imantação", na qual Jamelão, com sua voz metálica e poderosíssima, interpreta versos como o que se segue:

"O impacto dos corpos sem amor é psicose
Quando a gente não define as pretensões".

Em 1987, Jamelão gravou outro LP dedicado a Lupicínio Rodrigues intitulado "Recantando Mágoas - A Dor e Eu". Esse LP também está recheado de músicas a respeito de amores incompreendidos e lancinantes saudades. Com ele, Jamelão sedimentou sua carreira de cantor de amores sofridos e de infelicidades.

Para muitos críticos, essa faceta de Jamelão o coloca como um dos maiores cantores de músicas de "dor de cotovelo", enquanto que para o próprio Jamelão elas são todas músicas de "cantor romântico".

No carnaval de 1990, Jamelão anunciou o fim da sua carreira de intérprete de escola de samba. Durante o que seria seu último desfile, Jamelão -que havia chegado ao sambódromo com febre alta- passa mal, mas consegue terminar o desfile. Na praça da apoteose, ele anunciou, pelo microfone do carro de som, sua decisão de parar de cantar em desfiles, dizendo: "Queria agradecer a toda a escola, à bateria, maravilhosa. Estou encerrando aqui meu trabalho como intérprete de samba-enredo."

Nessa época, Jamelão começava a enfrentar problemas com a pressão e, segundo sua mulher, Delice, "estava cansado". Mas, no ano seguinte, ele voltou a ativa. Continuou sendo o intérprete dos samba-enredo da verde e rosa. Aliás, Jamelão não é puxador de samba. Segundo ele, "puxador é quem fuma maconha ou rouba carro". Ele é intérprete.

De personalidade forte e sem papas na língua, Jamelão era, também, um homem de muitas manias. Uma delas era o costume de andar com uma caixa cheia de elásticos no bolso e alguns deles nas mãos. Conforme dizia, carregava os elásticos para utilizá-los no dia em que ganhar bastante dinheiro. Porém, sabe-se que ele adquiriu essa mania do elástico depois de trabalhar muitos anos na polícia do Rio, chegando a aposentar-se naquela instituição. A sobriedade de suas interpretações mesclada com sua personalidade e suas já folclóricas manias o tornaram uma das mais importantes figuras da música popular brasileira.

Em 1994, pela primeira vez na história da Mangueira, Jamelão dividiu a interpretação de um samba-enredo, ao gravar com Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil e Maria Bethânia a música de sua Escola no disco com os sambas das escolas do Grupo Especial daquele carnaval. A idéia de juntar Jamelão e os baianos homenageados pela escola foi de Ivo Meirelles, então vice-presidente da Mangueira. O samba gravado é "Atrás da Verde e Rosa Só Não Vai Quem Já Morreu", de Davi Corrêa, Carlinhos Sena, Bira do Ponto e Paulinho Carvalho.

Em 1997, a gravadora Continental lançou a coletânea "Jamelão - A Voz do Samba", em 3 CDs, com a compilação de 33 anos de sua carreira do cantor. Nesse ano Jamelão também participou junto com Alcione, Carlinhos Vergueiro, Chico Buarque, Christina, João Nogueira, Lecy Brandão, Nelson Sargento e Velha Guarda da Mangueira da gravação do CD "Chico Buarque da Mangueira".

No carnaval de 1998, Jamelão conquistou seu sexto estandarte de ouro como intérprete de samba enredo no carnaval carioca. Em 1999, foi eleito o intérprete do século do carnaval carioca por 80 jurados do Rio e de São Paulo, em um prêmio oferecido a profissionais, enredos e sambas. No dia 20 de fevereiro de 2001, foi internado, na Policlínica Geral do Rio de Janeiro, no Centro do Rio, com quadro de patologia vascular nas pernas. Em janeiro do mesmo ano, foi eleito presidente de honra da Mangueira -cargo máximo da escola. Em novembro seguinte, Jamelão recebeu a medalha da Ordem do Mérito Cultural pelas mãos do presidente Fernando Henrique Cardoso e dormiu durante a cerimônia.

Para esse premiado mestre do carnaval carioca, os sambas-enredo não são mais os mesmos. Segundo ele, "hoje é difícil um samba-enredo com melodia inédita, as melodias são sequências umas das outras". Afirmava que, antigamente, se fazia um samba mais cadenciado, hoje, "a bateria sai tuc-tuc-tuc. Parece até uma parada militar. Todo mundo marchando: desfile militar de samba". Essa militarização do samba, para ele, é culpa da televisão, pois hoje o tempo para acabar o desfile é determinado pela televisão. De acordo com o que fala o dono da voz da Mangueira nos carnavais cariocas, "a televisão é que manda e desmanda no samba".

Em junho de 2005, Jamelão causou alvoroço durante a São Paulo Fashion Week. De terno branco, chapéu e bengala, entrou na passarela depois que as modelos saíram de cena. Com passos curtos e andando bem devagar, o cantor fez todos na sala de desfiles se levantarem para o aplaudirem de pé.

Jamelão morreu por volta das 4h30 do dia 14 de junho de 2008, segundo informações da Casa de Saúde Pinheiro Machado, no Rio de Janeiro, onde estava internado desde a madrugada de 12 de junho de 2008.

Seu corpo foi velado na Mangueira na tarde e enterrado no cemitério São João Batista. A escola de samba lamentou a morte de seu presidente de honra.

Jamelão morreu em decorrência de falência múltipla de órgãos. Ele havia sido internado com um quadro de infecção pulmonar e urinária. Segundo a clínica, os problemas de saúde eram decorrentes da idade avançada do cantor --ele já havia sofrido acidentes vasculares cerebrais.

O artista sofria de hipertensão e diabetes e, desde 2006, quando sofreu dois derrames, passou a ter dificuldades para se alimentar. No fim do ano passado, ele foi internado no Rio com um quadro de desidratação e desnutrição.


Fontes: Sites Folha Uol, Ego, Revista Época, O Estado de S. Paulo; Almanaque UOL.

Jackson do Pandeiro

(Alagoa Grande/PB, 31 de agosto de 1919 - Brasília/DF, 10 de julho de 1982)

Paraibano, nasceu em uma família grande de artistas populares. Sua mãe, Flora Mourão, era cantora e folclorista de Pastoril e o batizou como José Gomes Filho. Apelidou-o de Jack pelo sua semelhança física com um ator norte-americano de filmes de western dos anos 30, Jack Perry.

Começou na verdade, tocando zabumba, para acompanhar a mãe, mas fazia sucesso na região com o instrumento que marcaria sua trajetória: o pandeiro. Com ele, viajou em busca do sucesso. Passou por Campina Grande e João Pessoa onde adotou o pseudômino de “Zé Jack”. Sua busca pelo sucesso o leva a capital pernambucana.

Decidiu se tornar músico quando ouviu “A Jardineira” (Benedito Lacerda e Humberto Porto). Trabalhando numa padaria forma uma dupla de brincadeira com José Lacerda, irmão mais velho de Genival Lacerda.

No início da década de 50, ainda em Recife, começa a se apresentar na Rádio Jornal do Comércio onde, por recomendação de um diretor da emissora, adota o nome artístico de Zé do Pandeiro. Tendo chamado a atenção da direção da emissora consegue gravar seu primeiro compacto de 78 rpm. Era o xote “Sebastiana”, que já demonstrava que além de ser o rei do ritmo, Jackson do Pandeiro, iria buscar inovações estéticas dentro da música nordestina. Ele já arriscava nas suas improvisações de vocalizações com tempo variado dentro de uma mesma música.

Torna-se, depois de alguns compactos, um verdadeiro sucesso no Nordeste e Norte do país. Os ecos do seu sucesso já começavam a chegar ao Rio de Janeiro. O xote “Forró no Limoeiro” foi um sucesso estrondoso e Jackson impunha-se cada vez mais como um artista popular que se pautava pela ousadia numa época de poucos improvisos tupiniquins, vindo a se tornar referência para artistas oriundos tanto da classe popular quanto da classe média brasileira.

No Recife, conhece sua futura esposa, Almira Castilho, uma ex-professora que cantava mambo e dançava rumba Nessa época consegue gravar pela gravadora pernambucana Mocambo seu primeiro sucesso: o xaxado “Sebastiana” de autoria do pernambucano Rosil Cavalcanti.

Jackson e Almira formavam a dupla perfeita. Desde o início se preocupavam com o visual e com as performances de palco. Ela, sensual com um belo jogo de cintura e ele, com toda musicalidade explosão de ritmos e uma voz especial. Almira teve um papel fundamental na vida de Jackson, pois o ensinou a escrever seu nome e o estimulou a expandir sua música além das divisas da Paraíba.

Esta paixão avassaladora os uniu e os levou, em 54, ao Rio de Janeiro. A união em casa e no palco durou até o ano de 1967 quando se desfez a dupla e o casamento.

A trajetória de Jackson de Pandeiro não registra números de vendagens significativos, nenhuma aventura pelo exterior e muito menos o charme que cerca os ídolos da música popular brasileira.

Antes de mais nada, Jackson do Pandeiro pode bancar a vinda ao Rio de Janeiro com o dinheiro obtido com o compacto do rojão “Forró no Limoeiro”. Ele queria conhecer os jornalistas que escreviam sobre sua música nos jornais cariocas. Conheceu a maioria deles. Faz ainda algumas apresentações em São Paulo, em boates e em programas de auditório de rádio e tv.

Convidado pelo empresário Vitorio Lattari ele gravou alguns compactos. O público sulista se apaixonou, então, pela embolada “Um a um”. Retornou a João Pessoa e gravou O “Xote de Copacabana” uma homenagem à Cidade-Maravilhosa que o fascinou. Casou-se em outubro de 54, em João Pessoa, com sua parceira.

Devido a aceitação do público e crítica na sua primeira ida ao Rio de Janeiro, decidiu, em 55, se mudar definitivamente com a esposa Almira. Se apresentou nas emissoras de rádio, Tupi e Mayrink Veiga, e foi contrato pela Rádio Nacional. A partir daí, Jackson do pandeiro começou a transformar o rumo da música nordestina, freqüentando assim como Luiz Gonzaga, o eixo central da indústria cultural do país.

A pedido da demanda do mercado musical carioca, Jackson do Pandeiro gravou marchas de carnaval, como “Mão na toca”, “Intenção” e “Boi da cara preta”. Em 62, ele veio a gravar um grande sucesso carnavalesco, a marcha “Me segura que eu vou dar um troço”.

Adaptado aos diversos ritmos brasileiros de raiz, Jackson do Pandeiro demonstrou ser artista com livre trânsito na base musical brasileira, um artista completo. Ele começou então a misturar a malandragem e a malícia do samba carioca com o suingue das emboladas e dos cocos nordestinos.

Durante a década de 50, Jackson e Almira ganharam projeção na mídia nacional e começaram a atuar como artistas em filmes populares, como "Minha sogra é da polícia", "Cala boca Etevilna", "Tira a mão daí" e "Batedor de carteiras". Destaque para a película "Tira mão daí" , de 1956, em que o músico atuou ao lado de Ângela Maria, Virgínia Lane e das irmãs Linda e Dircinha Batista.

Até a dissolução da dupla, o trio "Pau de Arara" - formado pelos irmãos Geraldo "Cícero", João "Tinda" Gomes, pelo sobrinho Severino e Vicente e Pacinho - os acompanhava no formato de típico de "trio" nordestino - zabumba, triângulo, arcodeon, pandeiro e violão. Depois da dissolução, o conjunto foi rebatizado de Borborema.

O primeiro álbum saiu em 54 pela Columbia (mais tarde absorvida pela Continental) reuniu compactos e lançou o primeiro álbum da dupla intitulado "Sua Majestade - O Rei do Ritmo". O trabalho que traz diversas composições de compositores nordestinos pode ser considerado um apanhado dos ritmos que se encobrem o título do forró.

O acelerado ritmo do rojão aparece em quatro músicas: “Forró em Caruaru” (Zé Dantas); “Cabo Tenório” (Rosil Cavalcanti), “1X1”(Edgar Ferreira) e “O crime não compensa” (Genival Macêdo e N. de Paula). O coco tipicamente alagoano aparece em quatro músicas: “Sebastiana” (Rosil Cavalcanti); “Cremilda” (Edgar Ferreira); “A mulher do Aníbal” (Genival Macêdo e N. de Paula) e “Coco Social” (Rosil Cavalcanti). O ritmo sincopado do xote aparece em “Cremilda” (Edgar Ferreira) e “Xote de Copacabana” (Jackson do Pandeiro). O batuque nordestino aparece em “O Canto da Ema” (Alventino Cavalcanti, Ayres Vianna e João Vale). O samba aparece em “Falsa patroa” de autoria do sambista carioca Geraldo Jacques Pereira e de Isaias de Freitas.

Na sequência, vêm os LPs "Jackson do Pandeiro", "Forró de Jackson", "Os Donos do Ritmo", "A tuba de muié" e "O Cabra da Peste" que coroam o sucesso da dupla Jackson - Almira dentro da música popular brasileira. Um dos seus maiores sucesso foi o samba “Chiclete com Banana” que demonstra uma visão cosmopolita da música brasileira, pois a composição de Jackson e Gordurinha tem uma letra de concepção antropofágica em defesa da música nacional: "quero ver o Tio Sam, numa batucada brasileira".

Os sucessos se repetiram nas AMs de todo Brasil: o arrasta-pé “Casaca de Couro”; o xamêgo “Forró na gafieira”; o baião “A cantiga do sapo”; os cocos “O Falso Toureiro” e “Cajueiro”. A parceria com Gordurinha gerou outra pérola do cancioneiro popular: o samba-coco “Meu enxoval”.

Demonstrando que o forró acompanhava a história do país absorvida pelo imaginário popular, Jackson do Pandeiro gravou o forró de Edgar Ferreira “Ele disse”, baseado na carta-testamento do ex-presidente Getúlio Vargas.

A aula de sofisticação da música de raiz nordestina de Jackson do Pandeiro continuou no balanço de “Capoeira mata um”, no forró de autoria da esposa, “Forró Quentinho”, e no baião “Bodocongó” de autoria de Humberto Teixeira e Cícero Nunes.

No final dos anos 60, a dupla foi perdendo espaço na mídia, principalmente, devido ao fenômeno da Jovem Guarda. Em decorrência de desavenças amorosas na relação de Jackson com Almira, a dupla se desfez em 67. Nos anos subsequentes, Jackson caiu numa espécie de ostracismo artístico, fruto do fim do relacionamento e das mudanças no mercado fonográfico nacional.

Em menos de dois anos, se apaixona por Neusa da Silva e passa a viver com ela até o resto de sua vida.

Com o advento da Tropicália e seu resgate da música nordestina Gilberto Gil regravou, em 72, e fez sucesso com “Chiclete com Banana”, gravado no álbum "Expresso 222". Na faixa-título desse álbum fica evidente a influência de Jackson do Pandeiro na construção rítmica e vocal da música. Anos depois, ele regravaria ainda “O Canto da Ema” e “A Cantiga do Sapo”.

Gal Costa regravou “Sebastiana” e o cantor e compositor Alceu Valença o chama em 72 para defender em dupla com o coco-elétrico “Papagaio do Futuro”. Um público jovem de classe média universitária começou a se interessar pela música de Jackson do Pandeiro.

Reestimulado pelo apoio, Jackson do Pandeiro voltou a gravar, em 72, pela CBS e lançou outro álbum primoroso: "Sina de Cigarra". Os destaques para a faixa-título e o primeiro rojão gravado, “Catirina”, do compositor alagoano Jararaca e “O Puxa Saco”, de Zé Catacra. Também, a malemolência do samba carioca na divisão de voz de Jackson em “Chico Chora”, de autoria de Bezerra da Silva -Ataylor de Souza e Paulo Filho.

Dois anos depois, ele gravou o álbum "Se tem mulher to lá" da gravadora Chantecler. que conseguiu alcançar projeção nas rádios AMs.

Nos anos seguintes, continuou a fazer shows pelo Brasil afora, mas tem seu nome artístico ligado mais à sazonalidade das festas juninas do que ao mercado de MPB, apesar do reconhecimento da crítica especializada. Lançou ainda nos anos 70, os LPs "Um nordestino alegre" e "Nossas raízes", mas já sem a mesma projeção nacional dos anos 50.

Em 81, gravou pela Polygram seu último trabalho: "Isso é que é forró" que trouxe um Jackson do Pandeiro exibindo música forrozeira em “Quem tem um não tem nenhum “e sambas sincopados, como o “Competente demais”, de sua autoria. O último disco contou com a presença do conjunto Borborema e com a produção de Armando Pittigliani , que respeitou os arranjos concebidos por Jackson do Pandeiro.

No ano seguinte, durante excursão empreendida pelo país, Jackson do Pandeiro, que era diabético desde os anos 60, morreu, aos 62 anos, em Brasília, em decorrência de complicações de embolia pulmonar e cerebral. Ele tinha participado de um show na cidade uma semana antes e no dia seguinte passou mal no aeroporto antes de embarcar para o Rio de Janeiro. Ele ficou internado na Casa de Saúde Santa Lúcia. Foi enterrado em 11/07 no cemitério do Cajú no Rio de Janeiro com a presença de músicos e compositores populares, sem a presença de nenhum medalhão da MPB.

O futuro da carreira parecia se reabrir, pois a Ariola queria fazer um disco dele com participações com nomes da MPB, como Alceu Valença, Moraes Moreira e Elba Ramalho. Não houve tempo para o reencontro de Jackson do Pandeiro com o sucesso e com uma outra geração de fãs.

Um ano após a morte de Jackson, foi realizada em São Paulo a Mostra "30 anos de Rojão" que reuniu fotos, filmes e shows em homenagem a Jackson do Pandeiro. O evento contou com a participação de Zé Keti, Mineirinho, Odair Cabeça de Poeta, Paulinho Boca de Cantor, Edgar Ferreira.

O paraibano Jackson do Pandeiro foi escolhido para ser o artista homenageado na Décima-Primeira edição do Prêmio Sharp que foi realizado em 13 de maio de 97. A nata da MPB prestou tributo a Jackson do Pandeiro em interpretações ou em regravações. A lista de nomes é grande e não pára a cada ano de crescer: Alceu Valença, Gilberto Gil, Gal Costa, Lenine, João Bosco, Paralamas do Sucesso, Geraldo Azevedo, Genival Lacerda, Zé ramalho, Tom Zé, Cascabulho, Chico César, Leila Pinheiro e Chico Buarque.

Jacob do Bandolim

(Rio de Janeiro/RJ, 14 de fevereiro de 1918 — Rio de Janeiro/RJ, 13 de agosto de 1969)

Jacob Pick Bittencourt era filho único, do capixaba Francisco Gomes Bittencourt e da polonesa Raquel Pick, morava na casa de n° 97, da Rua Joaquim Silva, na Lapa, onde, sem ter muitos amigos e com restrições para ir brincar na rua, costumava ouvir um vizinho francês cego tocar um violino.

E esse foi o seu primeiro instrumento. Ganhou-o da mãe aos 12 anos, mas, por não se adaptar ao arco do instrumento, passou a usar grampos de cabelo para tocar as cordas. Depois de várias cordas arrebentadas, uma amiga da família disse; "..o que esse menino quer é tocar bandolim..". Dias depois, Jacob ganhou um bandolim, comprado na Guitarra de Prata. Era um modelo "cuia", estilo napolitano, e que segundo o próprio Jacob: " ...aquilo me arrebentou os dedos todos, mas eu comecei...".

Não teve professor, sempre foi autodidata. Tentava repetir no bandolim trechos de melodias cantaroladas por sua mãe ou por pessoas que passavam na rua. Aos 13 anos, da janela de sua casa, escutou o primeiro choro, É DO QUE HÁ, composto e gravado por Luiz Americano. Era tocado no prédio em frente, onde morava uma diretora da gravadora RCA. "Nunca mais esqueci a impressão que me causou", afirmaria Jacob, anos mais tarde.

Raramente saia à rua. Seu negócio era ir a escola e tocar o bandolim. Freqüentava, após a volta das aulas, a loja de instrumentos musicais Casa Silva, na rua do Senado, n° 17, onde ficava palhetando os bandolins.

Um dia, um senhor, que tinha ido levar o violão para consertar, ouviu Jacob tocar e se interessou. Deu-lhe um cartão para que se apresentasse na Radio Phillips. Quando leu o cartão, Jacob ficou surpreso. O convite fora feito pelo famoso clarinetista Luiz Americano, compositor e intérprete do primeiro choro que tinha ouvido. Jacob chegou a ir com um amigo violonista a porta da emissora mas, talvez por não se considerar ainda preparado, desistiu e rasgou o cartão.

Em 20.12.33, se apresentou pela primeira vez, ainda como amador, na Rádio Guanabara, com um grupo formado por amigos, o Conjunto SERENO. Apresentou o choro "Aguenta Calunga", de autoria de Atilio Grany, flautista paulista, gravado pelo autor naquele mesmo ano. Jacob não gostou do seu desempenho e resolveu praticar mais. Nessa época, ainda tocava de ouvido.

Certa vez, na mesma Casa Silva, um conhecido intérprete de guitarra portuguesa, Antonio Rodrigues ouviu Jacob tocando violão. Provavelmente, os baixos acentuados da levada "chorona" do jovem violonista impressionaram o fadista, que o convidou para acompanhá-lo ao violão em suas apresentações.

Em 05.05.34, Jacob se apresentou no Programa Horas Luzo-Brasileiras, na Rádio Educadora e no mesmo dia à noite, no Clube Ginástico Português, ao lado do guitarrista Antonio Rodrigues e dos cantores de fado Ramiro D' Oliveira e Esmeralda Ferreira. Jacob ficou surpreso com o interesse dos fadistas por seu violão. Além disso comparecia a saborosas bacalhoadas e conheceu famosos artistas portugueses como a cantora Severa e o guitarrista Armandinho. Boa comida, reconhecimento, experiência, mas nada de cachê. A fase fadista durou pouco. O bandolim chamava por Jacob.

Ao tomar a decisão que o bandolim "era o seu negócio" e nele se concentrar, Jacob, nesse momento, iniciava a sua carreira radiofônica. Segundo ele, sem pretensões profissionais, se inscreveu e venceu, em 27.05.34, o Programa dos Novos, na Rádio GUANABARA, organizado pelo Jornal O Radical, derrotando 28 concorrentes e recebendo nota máxima de um júri composto, dentre outros, por Orestes Barbosa, Francisco Alves e Benedito Lacerda.

O sucesso foi tanto que Jacob foi contratado pela Rádio, passando a se revezar com o já famoso grupo de Benedito Lacerda, o Gente do Morro, no acompanhamento dos principais artistas da época, dentre eles, Noel Rosa, Augusto Calheiros, Ataulfo Alves, Carlos Galhardo, Lamartine Babo. Em conseqüência, seu grupo, que era formado por Osmar Menezes e Valério Farias "Roxinho" nos violões, Carlos Gil no cavaquinho, Manoel Gil no pandeiro e Natalino Gil no ritmo, passou a se chamar “Jacob e sua gente”.

A partir dai, tornou-se "habitue" das ondas radiofônicas, ganhando cachês e se apresentando em praticamente todas as estações de Rádio; Cajuti, Fluminense, Transmissora (atual Rádio Globo), Mayrink Veiga, onde atuava no famoso Programa do Casé e Rádio Ipanema, que posteriormente se tornou Radio Mauá e onde Jacob ganhou um programa só seu.

Sua atividade era tal que chegou a tocar varias vezes, num mesmo dia, nas Rádios Educadora (nas 3 sedes, nas ruas 1º de Março, Senador Dantas e Marques de Valença), Rádio Clube do Brasil e Rádio Sociedade, que ficavam próximas, no Centro do Rio.

De 1955 a 1959, foi contratado pela Rádio Nacional onde se apresentava com o Regional de César Moreno, composto por Arthur Duarte (violão sete cordas), César Moreno (violão de seis cordas), Índio (cavaquinho) e Luna (pandeiro). Retornou anos depois, quando marcou época com o programa Jacob do Bandolim e seus Discos de Ouro, que ficou em cartaz até o seu falecimento, sendo que o último programa, gravado na véspera, não chegou a ir ao ar.

Em 11.05.1940, Jacob se casou com Adylia Freitas, sua grande companheira para toda a vida. Em 03.02.1941, nasceu Sergio Freitas Bittencourt, que se tornaria compositor e jornalista, tendo atuado como jurado, por vários anos, no Programa Flávio Cavalcante,e em 08.04.1942, chegou Elena Freitas Bittencourt, que Jacob adorava, sendo um verdadeiro pai-coruja e que se tornou cirurgiã - dentista.

Os primeiros anos foram difíceis, pois os cachês de rádio não eram suficientes para o sustento do casal. Foi quando se revelou a profunda amizade e o apoio do violonista e histórico compositor Ernesto dos Santos - o Donga - e de sua esposa a cantora Zaira de Oliveira pelo casal Bittencourt. Apoio pessoal e material que veio em boa hora, pois, segundo Elena, sua mãe costumava comentar que "...eles mataram nossa fome algumas vezes...".

Mais experiente e conhecedor das dificuldades da profissão, Donga convenceu Jacob a prestar concurso público, idéia que o bandolinista abraçou, pois sempre pretendeu alcançar uma estabilidade que lhe permitisse realizar seus saraus e desenvolver sua arte sem ser obrigado a acompanhar cantores e calouros eternamente, isso somado ao temor de perder sua independência em virtude das pressões das gravadoras e dessa forma, por não querer fazer concessões à industria fonográfica, Jacob prestou concurso, sendo nomeado Escrevente Juramentado da Justiça do Rio de Janeiro, mas continuou tocando bandolim, cada vez mais.

Na década de 40, o Regional de Benedito Lacerda ocupava o posto de conjunto de maior popularidade e Jacob dividia o tempo entre o Tribunal e a música, onde sua atividade principal era tocar em rádios, principalmente acompanhando calouros. Porém, em 1941, a convite de Ataulfo Alves, participou das gravações, Leva Meu Samba (Ataulfo Alves) e a famosa Ai, que Saudades da Amélia (Ataulfo Alves e Mário Lago).

Em 1947, Jacob lança pela gravadora Continental, seu primeiro disco como solista, um 78 rpm, com um choro de sua autoria, TREME-TREME e a valsa GLÓRIA, de Bonfiglio de Oliveira, fazendo grande sucesso. Foi acompanhado por um grupo de músicos que com ele tocavam nas rádios e que ficou registrado no rótulo do disco como sendo CÉSAR E SEU CONJUNTO, integrado por César Faria e Fernando Ribeiro, violões; Pingüim, cavaquinho e Luna, pandeiro.

Nesses quatro primeiros discos em 78 rpm gravados pela Continental, Jacob é acompanhado pelo grupo liderado por César Faria, sendo que com a saída de alguns integrantes originais, também participaram dessa série de gravações, Jessé (violão); Canhoto, Elias (cavaquinho) e Alberto (pandeiro).

Em 1949, é contratado pela RCA VICTOR, onde permaneceu até o final se sua carreira. Gravou cinqüenta e dois discos em 78 rpm, 12 LP`s, sendo dois ao vivo, e diversas participações em discos de outros artistas e coletâneas. Gravou ainda um LP pela CBS. De 1949 a 1951 gravou com os músicos da Rádio Ipanema, sempre com a presença de César Faria. A partir de março de 1951 até março de 1960, foi acompanhado pelo Regional do Canhoto. Nesse período, em algumas gravações, Jacob foi acompanhado por orquestras.

Entre o final de 1956 e 1958, Radamés Gnatalli escreveu RETRATOS, uma suíte para bandolim, orquestra e conjunto regional, onde homenageou, em cada movimento, um dos quatro compositores que considerava geniais e fundamentais na formação da nossa música instrumental: Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros e Chiquinha Gonzaga.

Como se revelasse uma fotografia musical extraída da alma de cada um dos quatro homenageados, Radamés traz no primeiro movimento um Choro baseado em Carinhoso, no segundo, uma Valsa a partir de Expansiva, no terceiro, um Schottisch lembrando Três Estrelinhas e no quarto movimento, um Maxixe "a la" Corta Jaca. Uma obra de rara beleza e que exigia um solista sensível e com conhecimento musical. Radamés dedicou RETRATOS a Jacob que para executá-la foi obrigado a aprofundar seus estudos de teoria musical, que havia iniciado em 1949, e para isso contou com a ajuda de Chiquinho do Acordeon (Romeu Seibel) e com a sua própria obstinação.

Jacob registrou em seu gravador a estréia radiofônica de Retratos interpretada por Chiquinho, na Rádio Nacional, no final dos anos 50 e a partir daí estudou a obra continuamente para enfim gravá-la em fevereiro de 1964. Em maio do mesmo ano, Jacob escreve uma carta a Radamés para confessar que "...valeu estudar e ficar dentro de casa o Carnaval de 64, devorando e autopsiando os mínimos detalhes da obra...", .Jacob que começou tocando "de ouvido" e era fanático por ensaios, revelava agora uma nova face, o de musico estudioso. Em agosto de 64, Jacob fez a primeira audição pública de Retratos, acompanhado pela Orquestra da CBS, no saguão do Museu de Belas Artes, no Rio de Janeiro.

Retratos foi um salto de qualidade na carreira de Jacob e na música brasileira. Com a fusão perfeita entre a linguagem camerística e a popular, Radamés inaugurou uma nova dimensão no Choro que, entretanto, só amadureceria cerca de 20 anos depois.

Em 1955, Jacob foi convidado pela TV-Record/ SP para organizar um "especial de Tv" , um programa de Choro que se chamaria Noite dos choristas. Tal foi o destaque que a TV Record escalou o principal apresentador da casa, Blota Junior, como mestre de cerimônia, tendo o programa ido ao ar, em 12.05.1955.

Jacob percebendo a importância de ter um programa ao vivo num dos principais canais de TV do país, convidou grandes chorões, encabeçados pelo mestre Pixinguinha, com quem tocou ao vivo no programa, acompanhados pelo regional da Tv. Record, mas guardou um trunfo para o encerramento. Colocou no palco aquele que seria o maior regional de todos os tempos, com cerca de 70 de músicos amadores.

O sucesso foi tanto que em 1956 a TV-Record realizou a 2ª Noite dos choristas. Empolgado com a repercussão do mega regional do primeiro programa, elogiado pelos maestros Pixinguinha e Guerra Peixe, Jacob se superou e colocou no palco um regional ainda maior, com 133 integrantes, assim distribuídos: 17 bandolins, 14 acordeons, uma flauta, um pífano, um saxofone alto, um trombone, 4 violinos, 4 violões tenores, 18 cavaquinhos, um serrote, 40 violões, 5 ritmistas e 3 baterias. O grande bandolinista Isaias Bueno, então com 19 anos, foi um dos destaques nas duas noites.

Infelizmente, segundo informações da TV Record, o vídeo tape dessas duas noites foi destruído. Não sabemos se pelo fogo do incêndio ou pela ignorância de certos executivos que constantemente reutilizavam fitas de programas passados para novas gravações. O único registro que restou, além de algumas fotos, foi o áudio gravado pelo próprio Jacob numa fita de rolo, hoje parte integrante do Arquivo do Jacob.

A importância e o respeito por Jacob no meio musical o levou a se apresentar em todas as grandes emissoras de TV da época: Record, Rio, Excelsior, Tupi e Globo.

No final dos anos 50, Jacob ainda gravava com o Regional do Canhoto, mas tinham dificuldades de se reunir para ensaiar em função da agenda lotada do grupo que era disputado por todos os grandes cantores. A última participação do Regional do Canhoto com Jacob foi no LP "NA RODA DE CHORO", gravado em março de 1960. Na sua concepção, Jacob necessitava de um grupo de músicos que o acompanhasse e que com ele se reunisse quando necessário. O novo grupo de músicos, criado ao seu feitio e com o caráter de grupo exclusivo, participava regularmente dos saraus realizados aos sábados em Jacarepaguá é era formado por DINO 7 CORDAS, CÉSAR FARIA e CARLOS LEITE (violões), JONAS SILVA (cavaquinho) e GILBERTO D’ÁVILA (pandeiro).

Com eles, Jacob gravou dois LP`s, “CHORINHOS e CHORÕES” (1961) e “PRIMAS e BORDÕES” (1962), com os nomes de Jacob e seu Regional e Jacob e seus Chorões, respectivamente. Em 1966, Jacob, que afirmava já ter ultrapassado a fase "regional" batizou esse grupo com o nome de CONJUNTO ÉPOCA DE OURO, gravando com eles o LP “VIBRAÇÕES (1967), com a participação de JORGE JOSE DA SILVA, o “Jorginho do Pandeiro" e o lendário show com ELIZETH CARDOSO e o ZIMBO TRIO, no Teatro JOÃO CAETANO (1968)”.

Uma curiosidade é que três dos cinco integrantes ÉPOCA DE OURO, à exemplo de Jacob, além de excelentes músicos, eram também funcionários públicos: César tornou-se Oficial de Justiça; Carlinhos era Agente Fiscal e Jonas, funcionário público em Niterói, o que certamente lhes permitia um maior contato com Jacob.

Em 1949, já residindo em Jacarepaguá, na Rua Comandante Rubens Silva, 62, Freguesia, Jacob passou a realizar grandes saraus que contatavam na platéia com a presença de grandes nomes da política, artes e jornalistas que lá iam ouvir nomes como Dorival Caymmi, Elizeth Cardoso, Serguei Dorenski, Ataulfo Alves, Paulinho da Viola, Hermínio Bello de Carvalho, Canhoto da Paraíba, Maestro Gaya, Darci Villa-Verde, Turíbio Santos e Oscar Cáceres (violonista uruguaio).

Segundo Hermínio Bello de Carvalho, assíduo participante dessas reuniões musicais :

"..... quem participou de seus célebres saraus, tornou-se não apenas um ouvinte privilegiado das noites mais cariocas que esta cidade já conheceu, mas um discípulo sem carteira de um Mestre que não sonegava lições, que fazia questão de repassá-las nas inúmeras atividades que exercia - inclusive como radialista.

Proclamava não ser professor e, por isso, não ter formado alunos. Ignorava que, ao morrer, deixaria não apenas uma escola, mas uma universidade aberta a todos que um dia iriam estudar o gênero a que se dedicou com rara e profícua eficiência. Sua casa em Jacarepaguá era uma permanente oficina musical, onde reunia a nata dos chorões cariocas, proporcionando a eles o convívio com músicos de outros Estados, de quem fazia questão de registrar as obras para posterior divulgação. Canhoto da Paraíba, Rossini Ferreira, Zé do Carmo, Dona Ceça e outros autores-instrumentistas eram recepcionados e hospedados em sua casa, num gesto de ampla generosidade por quase todos, reconhecido.

Recebia também artistas internacionais do porte de Maria Luisa Anido, Sergei Dorenski e Oscar Cáceres em saraus memoráveis...."

Além de ser um instrumentista próximo a perfeição, Jacob também era um incansável pesquisador, responsável pelo resgate e preservação da obra de vários mestres, tais como ERNESTO NAZARETH, CANDINHO do TROMBONE e JOÃO PERNAMBUCO.

Tal era a sua preocupação por preservar tudo que se relacionasse com a música brasileira, particularmente, o Choro, que Jacob, que era fotógrafo premiado e dominava a fundo a técnica de revelação fotográfica, chegou a microfilmar milhares de partituras para ganhar espaço e qualidade de preservação.

Com milhares de peças, incluindo discos, partituras, fotos e matérias jornalísticas ficou conhecido como “O ARQUIVO DO JACOB”, e foi incorporado em 1974 ao acervo do MUSEU DA IMAGEM E DO SOM/RJ.

Além desse acervo, foram também incorporados dezenas de microfilmes de partituras feitos por Jacob. Esses filmes, que ficaram guardados de forma inadequada, por mais de 30 anos, foram reencontrados em agosto/2002, no fundo de uma gaveta de um arquivo no MIS, quando da visita de diretores do Instituto Jacob do Bandolim. A maioria estava em estado irrecuperável.

Além de seu zelo e obstinação, Jacob contou sempre com o apoio e a organização de sua esposa Adylia, grande companheira e responsável pela manutenção do arquivo, quando estava ainda em seu poder.

Em 19.03.67, foi concedida a Jacob, pelo Clube de Jazz e Bossa, a Comenda da Ordem da Bossa. Jacob ao chegar ao Teatro Casa Grande, na Zona Sul do Rio de Janeiro, para receber a medalha, se espantou ao ver um público de jovens, diferente daquele que estava acostumado a ter em seus saraus em Jacarepaguá, chegando a pensar em não se apresentar. Convencido por amigos mudou de idéia e fez uma apresentação antológica, mas tomado pela emoção dos aplausos após interpretar Lamentos, de Pixinguinha, e enquanto iniciava os primeiros acordes de Murmurando, de Fon Fon, sofreu seu primeiro enfarte.

Sobre o episodio, Jacob afirmou "... para mim foi uma grande felicidade ter sido aplaudido pelos cabeludos, que compreenderam naquele instante a minha arte...".

No início de agosto de 1969, Jacob interrompeu uma estadia em Brasília onde estava se tratando com Dr. Veloso e retornou ao Rio de Janeiro para reassumir suas funções no Conselho de Música Popular do Museu da Imagem e do Som do RJ, onde ocupava a cadeira n° 22 e para retomar as gravações de seu programa de rádio na Rádio Nacional - Jacob e seus Discos de Ouro - um dos poucos programas especializados em choro e samba no rádio brasileiro, sempre transmitido as 23:30 hs.

O formato do programa fora idealizado pelo próprio Jacob. Com sua voz potente de locutor, Jacob antes de apresentar a música, sempre fazia comentários sobre fatos ligados ao interprete, compositor ou sobre a situação porque passava a música popular brasileira.

Nesse período, após os dois enfartes, por precaução, Adylia não permitia que Jacob saísse sozinho. Mas, no dia 13.08.69, uma quarta-feira, Jacob, que desde que havia retornado de Brasília insistia em ir ver Pixinguinha pois soubera que o amigo estava com problemas, resolveu ir a Ramos de qualquer jeito. Adylia que estava adoentada e não podia acompanhá-lo, relutou mas acabou concordando. Dentre outras coisas, Jacob queria acertar com Pixinga a realização de um velho sonho. A gravação de um disco só com músicas do velho mestre e com a renda revertida para ele.

Jacob passou a tarde com Pixinguinha e ao retornar para sua residência em Jacarepaguá, ainda dentro do carro sofreu o terceiro infarte, falecendo na varanda de sua casa, nos braços de Adylia, por volta das 19 hs.

Naquela semana, Jacob havia gravado na Rádio Nacional três programas que não chegaram a ir ao ar. No último, o de n° 244, que iria ao ar no dia 15, sexta feira, a fala de abertura foi dedicada ao relançamento pela gravadora Som de uma coletânea "É Bossa Mesmo" com músicas de Ataulfo Alves, então recentemente falecido.

Na oportunidade, Jacob saudou o lançamento, mas fez sérias críticas as gravadoras por não darem destaque aos artistas quando em vida e quererem faturar após a sua morte com coletâneas. Como se vê, tratou-se de um documento de incrível premonição, pois poucos dias depois, Jacob faleceria.

Aquilo que denunciou sobre Ataulfo, em seu último programa viria a acontecer com ele mesmo. Nos seus últimos cinco anos de vida, de 1965 até seu falecimento, em 1969, no auge de sua carreira, Jacob gravou em estúdio apenas um LP - Vibrações - , considerado por unanimidade o seu principal disco e um dos melhores discos instrumentais de todos os tempos. Após seu falecimento, até hoje, foram lançados cerca de 10 Lp's e 15 Cd's com o mestre do bandolim.

A obra de Jacob do Bandolim transcendeu em muito os limites da Rádio Guanabara, onde começou em 1934, com o conjunto Jacob e Sua Gente.

Anos se passaram, seus discos foram lançados, viajaram e foram sendo relançados no Japão, nos EUA. Músicos mundo afora veneram e interpretam seu repertório, seja na França, Venezuela, Egito, Rússia e Portugal, redesenhando as reais fronteiras da obra do nosso primo das cordas.

O pianista concertista russo Serguei Dorenski, que esteve em Jacarepaguá, na casa de Jacob, na década de 60, assistindo aos saraus que lá eram realizados, ao retornar a Moscou, ainda desconcertado, encontrou-se com Arthur Moreira Lima que por lá estudava piano e relatou o que vivera naquelas horas no reduto de Jacarepaguá. Arthur se comprometeu, então, em fazer chegar às mãos de Dorenski, os discos de Jacob.

Meses depois, em plena Moscou, um chorão carioca, o arquiteto e promotor cultural Alfredo Britto entrega ao pianista russo uma coleção de LP's de Jacob. Em poucos dias, a Rádio Moscou transmitia programas sobre um gênero desconhecido e distante, o Choro, apresentando um virtuoso interprete, que tirava sons incríveis de um instrumento que lembrava a balalaika, espécie de bandolim russo, de nome complicado de se pronunciar - Jacob do Bandolim. Assim, é obra de Jacob, sem fronteiras.

Em 2001, o MIS/RJ lançou, um CD multimídia, Com Jacob, Sem Jacob, pioneira experiência de registrar para os amantes da boa música, particularmente, para os distantes fãs que não podem freqüentar o Arquivo do Jacob, um pouco da sua obra doméstica, sons e curiosidades do seu cotidiano, seus requintados saraus e imagens do seu dia a dia, itens indispensáveis ao necessário e insubstituível culto que um fã devota ao seu ídolo, ou que um estudioso dedica a sua tese.

Uma pesquisa em um sitio de busca na Internet revelou 7.511 resultados a partir do nome Jacob do Bandolim, em todo o mundo.

A demanda por informações de Jacob transcende hoje em muito, aqui e no exterior, a oferta de dados sobre sua obra. Apesar de falecer em 1969, não foram localizados até hoje, registros seus em filme. Nenhuma imagem em movimento, restou de seus programas na TV, seja tocando o bandolim, ou simplesmente falando, com exceção de uma película de sete segundos, sem som, registrada na porta do MIS.

Jacob sempre perseguiu a perfeição da execução e a excelência na preservação da nossa música, sem, contudo ser um conservador. Municiava-se de recursos tecnológicos de ponta à época (anos 50), para obter resultados inovadores, na busca de novas sonoridades, ou para melhorar o registro de seus arquivos. Foi assim ao inventar instrumentos musicais, como o vibraplex (violão tenor ligado a um órgão Hammond), onde obteve um som parecido com os atuais sintetizados.

Da mesma forma, quando estudou, à fundo, a arte fotográfica, para poder microfilmar suas partituras, pois arquivos físicos não lhe bastavam, em se tratando de milhares de partituras a serem preservadas.

Hoje, são raras as rodas de choro onde não se ouvem as cordas de um bandolim, são raros os bandolinistas que não tem em Jacob sua referência musical e, principalmente, é raro o país que teve o privilégio de ter tido um Jacob do Bandolim.

"FILHO QUE RETRATA O PAI"


No dia em que Jacob estaria completando 60 anos (vivo fosse), o jornalista Jésus Rocha, de Última Hora, à época editor do “Segundo Caderno”, pediu ao filho, Sérgio, um depoimento sobre o pai. Ao correr da máquina, Sérgio Bittencourt, jornalista e compositor, escreveu comovente texto acerca da pessoa de Jacob do Bandolim. Eis o retrato que o filho hipersensível traçou do pai idem:

“Sou avesso a biografias, cronologias, datas, números, quando se trata de querer saber quem é quem, quem foi quem. Muito mais hoje, 14 de fevereiro de 1978, dia em que, se vivo estivesse, o cidadão Jacob Pick Bittencourt completaria, ao lado de poucos, porém, enquanto vivos, fiéis amigos — nada mais do que 60 anos de idade.

Filho de uma polonesa da cidade de Lodz, refugiada da Primeira Grande Guerra e de um pacato, quieto, injustiçado — até pelo filho — farmacêutico vindo de Cachoeiro do Itapemirim, o Sr. Francisco Gomes Bittencourt (lá ia eu esquecendo de registrar o nome “duvidoso” de minha avó paterna; a colônia de judeus a chamava de “Regina”. No registro estava Sra. Raquel Pick).

A bem da verdade, “Regina” era o chamado “nome de guerra”.

Jacob nasceu na maternidade de Laranjeiras, fruto de um descuido da polaca e do tranqüilo dono da farmácia Bittencourt, na Rua Uruguaiana, ao lado da “Casa Garson”. Nasceu e ficou nascido! Cresceu na Rua Joaquim Silva e na Avenida Gomes Freire.

Estudou no “Anglo-Americano”, depois de conhecer de perto e ser protegido em menino, por Miguelzinho, Edgar, Camisa Preta. Do “Anglo-Americano”, onde jogou basquete e não cantou o hino em homenagem ao Príncipe de Gales, preferindo, pela vez primeira, “bater gazeta”, o que lhe resultou fratura na perna em três partes, foi para o CPOR e trabalhou no arquivo do Ministério da Guerra.

Já tocava bandolim. Donga, mestre Donga, foi quem o convenceu a prestar concurso para a Justiça — cargo: “Escrevente Juramentado”. Passou em 13º lugar. Na ordem de classificação, vindo de fora, obteve a 1ª colocação. Afinal estava na hora, mulher, dois filhos, sendo um deles, o mais velho, portador de hemofilia, o jeito foi meter a cara nos livros e ir para a grama da Quinta da Boa Vista, onde minha mãe lhe tomava os pontos e com muito amor, ternura e subserviência, lhe preparava lautos sanduíches de pão com pão!...

Nem para uma rapinhada de manteiga, dinheiro havia. Havia, sim: garra. De ambos. Dois filhos, uma vontade de responder ao mundo mais ou menos nestes termos:
– Nasci de uma aventura, cresci no meio do lixo, conheci o lixo, não vivi dele, meu velho pai era quem pagava tudo e eu não sabia, ou tocador de bandolim, artista de rádio ou marginal, como querem, mas, um dia vou ser a lei. E foi.

Embora filho da velha polonesa resmunguenta, que amava mais o papagaio de estimação do que o próprio chamado "fruto do seu pecado" — no caso ele — Jacob só fez lutar, na vida. Eu seria mais franco se dissesse — e vou dizer: Jacob só fez brigar na e pela vida. Minha avó paterna, doce criatura para os netos e o marido, massacrou-o bastante. Ele resistia por amor. Adília Freitas Bittencourt, sua mulher, era tudo para ele — menos na música. Ele era a criatividade. Ela, o artesanato. Sabia de todas as suas preferências: arroz, muito arroz, bife e batatas fritas. Doces, todos os doces.
Pegou-o pelos beiços e soube segurá-lo até o dia 13 de agosto (sempre insano agosto!), de 1969, quando dirigindo sozinho seu carro, Jacob chegava à sua casa, em Jacarepaguá, vindo da residência de um de seus poucos ídolos, Pixinguinha, já ofegante, avisando que estava morrendo, sendo recostado pela mulher e o sogro no chão da grande varanda — onde morreria.

Eram 6 horas da tarde. Diagnóstico: infarto e edema pulmonar.

Já estava fumando seis maços de cigarros por dia. Fez de tudo para largar o único vício, de tratamentos psiquiátricos, até solenes sessões de macumba e hipnose. Nada adiantou. Não jogava, não bebia, em futebol seu time chamava-se “Zizinho Futebol Clube”. Fumava. Apenas.

Um temperamento puramente emocional. Chorava e xingava, numa fração de segundo. Quando ouvia um “acorde” bem feito ao violão, não se continha e gritava: – Bonito!!!

Amava, com a mesma força e sinceridade, seus dois pólos opostos: a Justiça onde chegou a Escrivão-Chefe da 11ª Vara Criminal e a Música; o estudo, a busca, a análise da genuína música popular brasileira.


Jacob do Bandolim Sempre nos amamos, com o amor sério e fiel de dois guerreiros, muitas vezes em trincheiras opostas.

O que fiz por ele, fiz e não digo. O que fez por e de mim, foi um tudo. Me lembro: jamais me mentiu. Era capaz de esbofetear um mentiroso, apenas pela mentira. Fosse de que gravidade.

Me lembro: Papai, vai doer? A perna toda roxa, a enfermeira da Santa Casa, ele: – Vai!

No dentista: – Muito, papai? Ele: – Bastante.

Repito e gosto de repetir: jamais me mentiu. Mas, nos momentos em que estive “cara a cara” com a morte, ele também não me mentiu. E, como nas outras ocasiões, não me mentiu, mas soube, sempre, me estender a mão. Quando eu agarrava, mordia, deixando naquelas mãos santas de datilógrafo e músico, as marcas incuráveis da minha dor.

De tudo que me ensinou, certo ou errado, hoje, dentro dos meus já então parcos e paupérrimos preconceitos, retiro, inapelavelmente, uma solução, uma saída, uma parada para pensar, um pouco de coragem para enfrentar, muita coragem para não “aderir” — na última das hipóteses, um sofisma, uma frase feita — estamos conversados!

Seus ídolos: Almirante, Orestes Barbosa, Noel Rosa, Nonô (pianista, tio de Cyro Monteiro e parente de Cauby), Bonfiglio de Oliveira, Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Sinhô e Frei Fabiano, que passou a viver promiscuamente, com alguns “orixás”, dos mais respeitáveis que surgiam lá em casa para tentar dar um jeito nas três úlceras duodenais, na vesícula (que acabou extirpada), na hipertensão, que Dr. Manoel sempre agüentava, no “bico de papagaio”, da eterna suspeita de câncer, na doença incurável do filho.

Meu pai, em momento algum admitiu morrer. (Observem: seu ídolo, Pixinguinha, morreu dentro de uma igreja. Ele, na hora santa da “Ave Maria”. Não sei, não, mas a vida às vezes, nos mostra algum sentido.)

Estudou Ernesto Nazareth tanto, que agindo policialescamente, uma espécie de “Holmes Jacarepaguense”, provou, pericialmente, que o grande pianista e compositor suicidou-se, quando passeava pelas matas do sanatório da Taquara, num rápido e fatal estado de lucidez. Percebendo-se louco, deixou-se morrer afogado. Desta tese, meu pai não admitia nenhuma contrapartida.

Um dia apaixonou-se pela fotografia. Comprou todo o equipamento, ingressou na ABAF e concorreu com uma foto de uma máscara de ráfia com fumaça em 1º plano. Venceu. Era o que queria.

Não foi homem de botequins. Gostava do “ajantarado” dos sábados e domingos. Sempre naquela mesa. Regime: absolutamente patriarcal. Depois do almoço, ia dormir. O silêncio se fazia, debaixo de todos os medos.

E ensaiava. Ensaiava sempre, com seu conjunto, que, de repente, ele chamou de “Época de Ouro”. Além da sua genialidade, só deu à MPB Elizeth Cardoso — e precisava mais? — e esse menino, Déo Rian.

Sentia-se um pouco “guru” de pessoas como Sérgio Cabral, Hermínio Bello de Carvalho, Ricardo Cravo Albin, a quem respeitava muito, embora, como secretário do tal Conselho Superior de Música Popular Brasileira, discutissem sempre. Ricardo, verdade seja dita, “perdeu” a discussão com ele, apenas por uma simples, porém fatal, questão de tom de voz. Meu pai a tinha linda. Ele próprio, era lindo. Exatamente: um homem lindo. E sabia disto. O que lhe faltasse, talvez, em cultura, sobrava-lhe em inteligência e tirocínio e emoção. Algumas vezes esteve para morrer... diante do belo!

Era homem de saraus, que amanheciam. Incrível: “Escrivão Criminal”, respeitadíssimo na Justiça conseguia ser também, ladrão. Sim: ladrão! Ele sabia que você guardava um disco velho, daqueles da “Casa Edson do Rio de Janeiro”. Aí ele pedia para ele. Você não dava. Então, cismava que você deveria emprestar o disco para ele passar para a fita magnética. Você dizia “não”. Ele simplesmente, furtava. Em casa, no seu Arquivo, muito mais do que um santuário, passava pro gravador, para partitura, pro microfilme e devolvia. Quando devolvia, sejamos sinceros.

Ah, sim outros ídolos: — Radamés Gnattali, Paulo Tapajós, João Pernambuco, Capiba, Luiz Vieira. Detestava o Carnaval: não perdia um desfile de frevos! Vibrava. Chegou a compor e gravar alguns. Dormia cedo, para acordar de madrugada e se enfurnar no seu Arquivo. Ali, era a “Toca do Leão”. Lá conviviam, em perfeita harmonia, seus sonhos e realidades; suas buscas e certezas; seus mortos e vivos.

Suas duas manoplas, tanto serviam para batucar, numa ligeireza fantástica, a máquina de escrever durante o interrogatório (odiava ladrão), como para criar um som que nunca foi de bandolim. Foi dele.

O que Luperce Miranda fazia com estrondosa agilidade, ele fazia com humildade e sentida emoção. Tocava de olhos fechados, apertando o minúsculo e pobre instrumento contra o peito. Muitas vezes, chorou tocando. Ou melhor: sempre tocou chorando.

Admirava a cultura musical de Lúcio Rangel e de Tinhorão. Era um radical. Sempre foi, um radical que se anunciava “tradicionalista”. Mas, que, numa certa noite de 1969, no Teatro João Caetano, ao lado de Elizeth e do Zimbo Trio, tocou de tudo — e quando resolveu executar o “Chega de Saudade”, ficou estabelecido que, realmente, ninguém mais poderá tocar alguma obra de Tom e Vinícius! Uma noite! Uma loucura!

Hoje, sinto pena de seus amigos, da sua mulher e de minha irmã. Todos viram-no morto. Eu, não. Cumpri sua ordem.

Toda vez que ele me vem à mente — e me vem sempre — ou é discutindo com um cassetete na mão e um “32” na outra, ou é interrogando, com a carranca fechada, um punguista da Central, ou é me ensinando naquela mesa, o que, para ele, significava “viver melhor” — ou tirando do seu bandolim, o som liberto e puro do coração. Do coração

. Aos 37 anos de idade, descrente e exausto, sem Deus nem diabo, é que posso afirmar: Jacob Pick Bittencourt foi mais do que um pai. Do que um amigo. Do que um Ídolo. Foi e é, para mim, um homem.

Com todas as virtudes, fraquezas, defeitos e rastros de luz que certos homens, que ainda escrevemos com “agá” maiúsculo, souberam ou sabem ser. E homem com H maiúsculo, para mim é Gênio.

Tenho certeza e assumo: não sou nada, porque, de fato, não preciso ser. Me basta ter a certeza inabalável de que nasci do Amor, da Loucura, da Irrealidade e da Lucidez de um Gênio.

Sérgio Bittencourt

"CURIOSIDADES"

1- O carinho que o povo brasileiro tem por Jacob do Bandolim pode ser avaliado pela existência de diversas ruas, em vários Estados, que levam o seu nome.
Seja em bairros populares ou sofisticados, seja "Jacob ou Jacó", acompanhado do sobrenome "do Bandolim ou Bittencourt", a obra de Jacob continua mais viva do que nunca.
E uma linda coincidência: Em Americana(SP) e em Fortaleza (CE), a Rua Jacó do Bandolim fica ao lado da Rua Elizeth Cardoso.

2- Jacob psicografado - A valsa PELO TEU JEITO DE SER, que a médium Marisa Cajado afirma ter recebido espiritualmente e que teria sido composta por Jacob, com letra de seu filho, Sergio Bittencourt.

Há momentos de tristeza a ser vencida
Há momentos de indecisão
Há momentos de beleza a ser vivida
Há momentos de ternura e gratidão
Momento a ser plasmado
Enfim, no dia a dia em teu viver
A ser elaborado
Pelo teu jeito próprio de ser
Veja bem: Assim em tua estrada
Semente a ser plantada
Dependerá de ti e mais ninguém
Então amigo, ouça o que te digo
Joga fora a mágoa e a ingratidão
Vive a alegria, o bem e a harmonia
Abre o teu caminho, abre o coração
E sinta o dia, a despontar da noite
Clareando a treva a iluminar
E aguarda a paz, que já está
Em tempo e hora de chegar.


Extraída do site “Cancioneiros do Infinito”, em 19/03/05:
http://cantigadeamor.sites.uol.com.br

3- Hoje, existem apenas 35 seg. em video de Jacob do Bandolim. O IJB(Instituto Jacob do Bandolim) oferece uma recompensa de R$ 2.000,00 por uma imagem sua em movimento.

Todo o material extraído de http://www.jacobdobandolim.com.br/jacob/jacob.html

Jorge Veiga

(Rio de Janeiro/RJ, 14/04/1910 ******** Rio de Janeiro/RJ, 29/06/1979)

O cantor e compositor Jorge de Oliveira Veiga, descendente de espanhóis, nasceu no bairro do Engenho de Dentro, subúrbio do Rio de Janeiro.

Sua infância foi bastante pobre. Trabalhou como engraxate, vendedor de frutas e pirulitos. Ao tornar-se adulto exerceu a função de pintor de paredes. Um dia quando cantava durante a execução de um serviço em uma casa comercial, o proprietário do estabelecimento reconheceu em Jorge Veiga um grande talento. O patrão conseguiu então que ele cantasse em um programa da Rádio Educadora do Brasil (PRB-7). Esta oportunidade deu início à sua carreira.

Em 1934, iniciou a carreira artística em circos e pavilhões no Rio de Janeiro. No mesmo ano, começou a se apresentar imitando Sílvio Caldas no programa Metrópolis na Rádio Educadora. Pouco depois, excursionou ao norte do país com uma companhia mambeme.

Em 1939 faz sua estréia em discos, com a gravação de "Adeus João", acompanhado ao acordeom por Antenógenes Silva.

Por sugestão do violonista Rogério Guimarães e do compositor Heitor Catumbi, mudou seu repertório e estilo de cantar, passando a interpretar primordialmente sambas malandros e anedóticos, além de sambas de breque. Fernando Lobo, então diretor artístico da Rádio Tamoio, ouviu a sugestão de Aracy de Almeida e o encaminhou para o programa de Manuel Barcelos e Paulo Gracindo.

Em 1942 faz amizade com Paulo Gracindo. O encontro entre os dois deu-se na Rádio Guanabara. Paulo teve grande importância na carreira do cantor. Este fato é reconhecido por Jorge Veiga no seguinte depoimento: "Paulo Gracindo foi a luz que apareceu na minha vida. Me ensinou a cantar sempre sorrindo, para dar mais leveza à interpretação e divertir mais os ouvintes".

Em 1944, voltou a aparecer, pela Odeon, com o samba "Iracema", de Raul Marques e Otolindo Lopes, que foi sucesso nacional. No mesmo ano, foi contratado pela Continental e lançou os sambas "Morena linda", de João Martins e Otolindo Lopes e "Minha patroa é boa", de Valdemar Silva e Estanistau Silva. Em seguida, gravou com Dircinha Batista o maxixe "Baianinha", de Castro Barbosa. No ano seguinte, gravou os sambas "Maria", de Raul Marques e Carlos de Souza e "Rosalina", de Haroldo Lobo e Wilson Batista e as marchas "O que é que eu tenho com isso", de Amado Régis, Almanir Grego e Gadé e "Marinheiro Popeye", de Buci Moreira, Raul Marques e Arnô Canegal. Ainda em 1945, fez sucesso com os sambas "O coração também esquece", de Príncipe Pretinho e Raul Marques e "Cabo Laurindo", de Haroldo Lobo e Wilson Batista.

Em 1946, gravou da dupla Alberto Ribeiro e Antônio Almeida com acompanhamento de Benedito Lacerda e seu conjunto a marcha "A sopa vai se acabar" e o samba "Isabel". No mesmo ano, gravou com Ari Cordovil o samba "Fui um louco", de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira e a marcha "O expresso não parou", de Ari Cordovil e Isidoro de Freitas. No ano seguinte, gravou a marcha "Pode ser que não seja", de João de Barro e Antônio Almeida, os sambas "Cinzas", de Osvaldo Silva e Haroldo Lobo e "O que é que há", de João de Barro e "O que é que eu dou?", de Dorival Caymmi e Antônio Almeida e o samba jongo "Mana Diodé", de Gastão Viana e João da Baiana. No Carnaval de 1947, fez sucesso com o samba "Eu quero é rosetar !", de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira, amplamente executado pelas rádios.

Em 1948, gravou os sambas "Testamento de sambista", de Raul Marques e Alberto Maia, "O doutor quer falar com você", de Wilson Batista e Alberto Maia e "Boa noite, como passou?", de Gil Lima e José Batista. Em 1949, gravou com o acompanhamento de Geraldo Medeiros e seu conjunto, os sambas "Eu não sou marinheiro", de Osvaldo dos Santos e Djalma Mafra, "Deixa eu viver minha vida", de Ary Monteiro e "Carne de gato", de Ari dos Santos e Gentil Leal e o choro "Confusionista", de José Leocádio. Em 1950, lançou o samba "Cala a boca Etelvina", de Antônio Almeida e Wilson Batista, também com acompanhamento de Geraldo Medeiros e seu conjunto. No mesmo ano, gravou os sambas "Me deu um breve", de Raimundo Olavo e Oldemar Magalhães, "Copacabana", de João de Barro e Alberto Ribeiro e "Medalha dourada", de Otolindo Lopes e Arnô Provenzano. No mesmo período, gravou em dueto com Paulo Gracindo o samba "Fizeram moamba", de Amado Alves e em dueto com Ademilde Fonseca, o samba "Carne seca com tutu", de Ary Barroso e Vilma Azevedo, que fez bastante sucesso naquele ano.

Em 1951, gravou com acompanhamento da Orquestra Tabajara de Severino Araújo os sambas "Tem mulher no samba", de Raimundo Olavo e Caboclo e "A vaca Vitória", de Wilson Batista e Jorge Murad. No mesmo ano, fugiu ao seu perfil de sambista e gravou o maracatu "Pitiguari", de José Leocádio e José Pacheco e o baião, gênero da moda na época, "Balança na rede", de Fernando Lobo e Paulo Soledade. A partir de 1951, na Rádio Nacional, ficou famoso pelo bordão criado por Floriano Faissal, com o qual iniciava seus programas: " Alô, alô, senhores aviadores que cruzam os céus do Brasil, aqui fala Jorge Veiga, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Estações do interior, queiram dar os seus prefixos para guia de nossas aeronaves". No ano seguinte, gravou o samba "Emilinha", de Fernando Lobo e Manezinho Araújo. Ainda em 1952, voltou ao baião e gravou "Bota água na canjica", de Milton de Oliveira e Haroldo Lobo e "Umbigada do Sabino", de Fernando Lobo e Manezinho Araújo e "Primo, você que é feliz", de Rutinaldo e Norival Reis, com acompanhamento de Astor e seu conjunto. Em 1953, gravou da dupla Haroldo Lobo e Milton de Oliveira a marcha "Na China" e o samba "Reza por nosso amor", também com acompanhamento de Astor e seu conjunto. No mesmo ano, fez sucesso com a autobiográfica "Marcha do pintor", de Bruno Gomes, Ivo Santos e Airton Amorim. Gravou ainda, no mesmo ano, sua primeira composição, o samba "Boêmia", parceria com Zé Violão com o qual estreou na Copacabana.

Em 1954, gravou os sambas "Para esquecer", de Ivo Santos e Ai Cordovil, "Não posso mais", de Haroldo Lobo, Milton de Oliveira e Claudionor Santos e "Eu sou o samba", de Arnô Canegal e Orlando Soares, a marcha "Eu tenho uma nêga", de Gomes Cardim, Manezinho Araújo e David Raw, o choro "Sou Flamengo", de Carlos Renato e Pedro Caetano e o baião "Quero me casar", de Gordurinha. Em 1955, lançou duas composições da dupla Haroldo Lobo e Milton de Oliveira: o samba "Não vou morrer" e a marcha "Tira essa mulher da minha frente", sendo que essa última, além de sucesso no carnaval, foi escolhida por um júri reunido no Teatro João Caetano como um das dez mais populares marchas do carnaval daquele ano. No mesmo ano, gravou os sambas "Quando o divórcio chegar", de Gordurinha e "Que culpa tenho eu", de Arnô Canegal, Albertina da Rocha e Antônio Guedes e o "Hino da torcida do Flamengo", de Getúlio Macedo e Lourival Faissal. Também no mesmo ano, gravou o samba "Café soçaite", de Miguel Gustavo, uma bem-humorada sátira ao "café soçaite" e ao colunismo social carioca dos anos 1950. Em seus versos, Miguel Gustavo registrava personagens e expressões freqüentes nas colunas dos jornalistas Ibrahim Sued e Jacinto Thormes (também citados), sendo esta gravação considerada a melhor interpretação de "Café soçaite". O grande sucesso desse samba gerou um LP apenas com músicas de Miguel Gustavo, todas de sátiras ao "Café soçaite" da época. Resolveu adotar com enorme sucesso, no rádio e na televisão, a imagem do malandro grã-fino, apresentando-se sempre de smoking. Por essa época, ficou consagrado como "O caricaturista do samba", termo cunhado por Paulo Gracindo.

Em 1956, gravou os sambas "Solução", de Raul Sampaio e Ivo santos e "Fora da jogada", de sua parceria com Haroldo Lobo. No mesmo ano, gravou em dueto com Carmen Costa o samba "Obsessão", de Mirabeau e Milton de Oliveira. No ano seguinte, gravou de sua parceria com Zé Violão o samba-jongo "Em boi morto até eu bato", a "Marcha da feira", de Paquito, Romeu Gentil e Rubens Machado e os sambas "Palhaço", de Fernando Lobo e Ari Cordovil e "Samba de Itaguaí", de sua parceria com Raul Marques. Ainda em 1957, fez sucesso com o samba "Estatuto da gafieira", de Billy Blanco. Em 1958, lançou para o carnaval a marcha "Vamos pra Brasília", de Átila Bezerra, Sebastião Gomes e Valdir Ribeiro e o samba "Falador passa mal", de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira. No mesmo ano, gravou mais uma música alusiva ao futebol, o samba "Torcida organizada", de Gordurinha e Francisco Soares. Lançou, também no mesmo ano, o LP "Caricaturista do samba", com "Recado que a Maria mandou", de Haroldo Lobo e Wilson Batista, "Rei do samba", de Arino Nunes e Miguel Lima, "Faustina", de Gadé e "Sambista no céu", de sua autoria.

Em 1959, conheceu novo grande sucesso com a regravação do samba "Acertei no milhar", de Wilson batista e Geraldo Pereira, que virou um marco na sua carreira. Também no mesmo ano, fez sucesso com o samba "Orora analfabeta", de Gordurinha e Nascimento Gomes. Em 1960, lançou os sambas "Assunto do dia", de Zé Violão e "Água no leite", de Cyro Monteiro e Nascimento Gomes e a marcha "Brigitte Bardot", de Miguel Gustavo, alusiva a famosa atriz francesa em pleno sucesso na época e que, no Brasil, passou uma temporada morando em Búzios, praia do norte fluminense. No ano seguinte, fez sucesso com o samba "Obrigado doutor", de sua autoria e Gabilan. No mesmo ano, transferiu-se para a RCA Victor e lançou os sambas "O pugilista da fama", de Claudionor Martins e Moreira da Silva e "Imaginação de pobre", de Claudionor Martins e Nelson Maia. Em 1961, lançou o LP "A volta do sambista (Obrigado doutor), que apresentava entre outras, a "Aluga-se uma casa", de Sebastião Gomes e René Bittencourt, "Dinorah", de Heitor Catumbi e Benedito Lacerda, "Aguenta o velho galho", de Heitor Catumbi e "A baleia", de José Batista. Em 1962, fez sucesso com a marcha "Garota de Saint-tropez", de João de Barro e Jota Jr. Gravou também os sambas "Carta à Brigitte Bardot", de Miguel Gustavo, em outra alusão à atriz francesa, "Caixa alta em Paris" e "O marido da vedete", os dois de Gordurinha e "Na cadência do samba", de Ataulfo Alves e Paulo Gesta. Em 1964, fez grande sucesso no carnaval com o samba-coco "Bigorrilho", de Paquito, Romeu Gentil e Sebastião Gomes, que se tornou depois obrigatório em seus shows.

Em 1971, gravou com Ciro Monteiro o LP "De leve", pelo selo RCA ViK interpretando entre outros sucessos, os sambas "Pra seu governo", de Haroldo Lobo e M. de Oliveira, "Falso amor", de J. B. de Carvalho, "Não tenho lágrimas", de M. Bulhões e M. de Oliveira e "Café soçaite", de Miguel Gustavo. Em 1974, gravou com Roberto Paiva o LP "Noel Rosa x Wilson Batista", dentro da série "Temas e figuras da MPB", retrtndo a famosa polêmica entre os dois compositores. Nesse LP, interpretou as composições de Wilson Batista "Lenço no pescoço", "Mocinho da Vila", "Conversa fiada", "Frankenstein", "Terra de cego" e "Meu mundo é hoje", enquanto Roberto Paiva cantou os sambas de Noel Rosa. Em 1975, saiu pela Copacabana o LP "O melhor de Jorge Veiga". Em 1978, a convite do produtor R. C. Albin foi um dos astros, ao lado de Clementina de Jesus, Cauby Peixoto, Fafá de Belém e Marlene do LP "O dinheiro na música popular", produzido pelo Banco do Brasil, como brinde de Natal, com larga distribuição em todo o país. Em 1979, ano de seu falecimento, a CBS lançou o LP "O eterno Jorge Veiga", com um apanhado de seus sucessos, incluindo composições suas como "Boi com abóbora", parceria com Marinho da Muda, "Festrival de bolachadas", com Gordurinha e "Casa que tem cachorro", com Blacaute e Newton Teixeira.

Foi um dos grandes astros do samba de breque (ao lado de Moreira da Silva), do samba de gafieira e da música de carnaval, Jorge Veiga era conhecido pelo balanço malandro da voz nos sambas anedóticos que respondiam por boa parte do seu repertório. Foi dez vezes vencedor do carnaval carioca.

Zelador de intrincadas divisões rítmicas que despertou ouvidos como o do
paraibano Jackson do Pandeiro e que ressoam nos do jovem Pedro Miranda,
Jorge Veiga é o personagem-supremo de seus sambas. O paulistano Germano
Mathias – também partidário do samba-de-breque - contou a Folha de S. Paulo
em matéria publicada em 30 de junho de 1979, um dia após a morte do
Caricaturista, uma história que poderia ser interpretada por qualquer de
seus protagonistas.

“Um bom sujeito, mas do tipo que não levava desaforo para casa. Inclusive,
cohecia capoeira. Curiosamente, foi uma briga nossa, no Rio, que nos tornou
grandes amigos. Foi lá por 1965 [n.e. Um ano depois do último sucesso de
Jorge Veiga, “Bigorrilho”], num estúdio de televisão. Eu cheguei primeiro e
queria ensaiar primeiro. Aí, apareceu o Jorge Veiga e quis passar na minha
frente porque estava com pressa. Gritou comigo: ‘Você está ainda cheirando
leite e já quer ensaiar primeiro que os mais velhos’. E pegou uma cadeira
para me jogar. Peguei uma também e a coisa ia ficando preta, quando Moreira
da Silva entrou no meio e nos separou. Notei, naquele dia que Jorge Veiga
tinha um grande respeito – além de uma grande admiração - por Moreira da
Silva.”


Fonte: Dicionário Cravo Albin de Música Popular Brasileira.