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terça-feira, 27 de novembro de 2012

Moreira da Silva

(Rio de Janeiro;RJ, 1 de abril de 1902 — Rio de Janeiro;RJ, 6 de junho de 2000)

O cantor e compositor Antônio Moreira da Silva, também conhecido como Morengueira ou Kid Morengueira, criador do samba-de-breque, nasceu no Rio de Janeiro.

Há alguma controvérsia sobre a data exata de seu nascimento, mas é ele quem informa: "Nasci em 1902, num 1º de abril, na rua Santo Henrique, hoje Carlos Vasconcelos, na Tijuca", disse à revista Fatos e Fotos (11 de dezembro de 1973).

Filho de Dona Poladina e de Bernardino da Silva Paranhos, um trombonista da banda da Polícia Militar do Rio de Janeiro que morreu de cirrose, o sambista nunca bebeu nem fumou, sempre trabalhou, casou-se em 1928 e permaneceu casado por 56 anos com a mesma mulher, Maria de Lurdes Lopes Moreira, a Mariazinha, a quem conheceu fazendo uma serenata no morro de São Cristóvão.

Criado nos morros da cidade - "eu morei no Morro do Salgueiro também" - e formado na zona boêmia do Mangue, Moreira da Silva encarou o batente cedo e com uma assiduidade exemplar. Aos 9 anos, foi para a escola. Mas logo deixou o Colégio Barão de Pilares, na Tijuca, e foi à luta para ajudar a família.

Criança, vendeu doce nas ruas do Rio, entregou marmita e catou papel. Na adolescência, trabalhou numa fábrica de meias, em Botafogo. "Andava oito quilômetros a pé por dia, com uma comidinha muito fraca, que mal dava para enganar o estômago. Eu estava muito longe da minha mãe, que era cozinheira. Minhas irmãs foram morar na casa de umas tias e eu fiquei sozinho no barraco. Meu almoço era geralmente um bolo de milho e bananada", contou Moreira à revista Fatos e Fotos com seu jeito galhofeiro. "Depois, água por cima. Inchava o estômago, e eu passei a sofrer do fígado." Levou a vida nesse sufoco até que, aos 19 anos, arrumou um emprego na fábrica de cigarros Souza Cruz, onde começou a trabalhar como ajudante de motorista. Por essa época, já se apresentava em festas de conhecidos e fazia serestas em que cantava modinhas de Hermes Fontes e Cândido das Neves. "Fiz muitas meninas chorar, dando o meu recado em serestas". Uma dessas meninas foi Jandira, a quem engravidou. A moça e a criança morreram no parto. "O mulatinho ficou triste, mas um pouco aliviado. De alguma forma, tirou uma grande responsabilidade das costas", diria mais tarde, para espanto de muitos. Tempos de vacas magérrimas. Chegou a trabalhar numa barraca na festa da Penha em troca de um prato de comida.

Em 1923, tirou a carteira de motorista e, antes de virar artista consagrado, foi chofer de táxi e, a partir de 1926, motorista de ambulância, acumulando as funções durante algum tempo para sustentar uma irmã e a mãe. "Fui pedir emprego na Assistência Municipal e, com meu modo de falar, modéstia à parte, consegui. Fiz um exame superficial e fui aprovado", conta Moreira. Ficou lá por doze anos. A Revolução de 30 foi encontrá-lo como motorista de Arsênio de Souza Matos, secretário do prefeito Prado Júnior que fora ao palácio solidarizar-se com o presidente Washington Luís.

Como o bom malandro não anda sempre na linha, "que o trem pega", Moreira também tinha os pés bem fincados na orgia. Durante a juventude freqüentou rodas de baralho, botequins e a zona do meretrício. Conviveu com os malandros históricos da Lapa, gente como Brancura, Manoel Carretilha, Waldemar da Babilônia e João Cobra. E com bambas do Estácio, como Marçal, Bide, Baiaco e Ismael Silva. Tornou-se figura conhecida da boemia. Chegou a complementar sua renda com o dinheiro de uma prostituta que se encantou com sua lábia afiada.

Foi dirigindo táxi que encontrou seu caminho: "Nessa época, meu principal passageiro era o compositor Ismael Silva. Foi o Ismael quem botou na minha cabeça a idéia de transformar-me em cantor. Graças a ele gravei meu primeiro disco", declarou Moreira em entrevista à Revista do Rádio, em 1965. "Nesse tempo eu cantava muito nas horas vagas. Era seresteiro, dava o meu recado". Sua primeira incursão em disco foi na Odeon, onde gravou dois pontos de macumba de Getúlio Marinho (Ererê e Rei de Umbanda, de 1931). "O Getúlio me chamou e disse: Moreira, quero usar sua voz para gravar para mim", relembra. Mas gravar música de macumba deixou o mulato cabreiro. "Eu não sou supersticioso, mas me veio um troço assim... Então, sai dessa, malandro, disse para mim mesmo". (Havia motivo para a cisma. "Já vi o sobrenatural", disse, fazendo referência a uma aparição com a qual deparou aos 19 anos, quando chegava em casa, na rua Major Ávila. Uma mulher de preto surgiu à sua frente e desapareceu em seguida.)

O primeiro sucesso veio com Arrasta a Sandália, de Aurélio Gomes e Baiaco (malandro histórico e compositor da Deixa Falar, a primeira escola de samba), em 1932. Em 1934, passou a integrar o casting do Programa Casé, na rádio Philips. No ano seguinte, estourou com Implorar, de Kid Pepe, Germano Augusto e J. Gaspar, pela gravadora Columbia. Moreira afirmava que a primeira parte desse samba era dele e que J. Gaspar "herdou" seus versos. Em 1937, César Ladeira o viu cantar no Cassino Atlântico, que ficava no posto 6, em Copacabana, e levou-o para a rádio Mayrink Veiga. "Todo mundo corria para casa para me ouvir cantar, como hoje corre para ver novela", disse sem modéstia. "Quando anunciavam o nome do Moreira numa boate de lona [circo], aquilo enchia". Um ano depois, retornou à Odeon, onde gravou Acertei no Milhar, de seus amigos Wilson Batista e Geraldo Pereira.

Em 1939, levado pelo cantor português Manuel Monteiro, viajou a Portugal, onde se apresentou no teatro Politeama. Agradou tanto que fez uma participação no filme "A Varanda dos Rouxinóis". A década mudou e ele embarcou numa seqüência de sucessos. Gravou Amigo Urso, em 1941, Fui a Paris (Moreira e Ribeiro Cunha) e Dormi no Molhado (Moreira), em 1942. No ano seguinte, gravou Conversa de Camelô, de T. Silva e S. Valença. Em 1950 foi contratado pela rádio Tupi, do Rio, e lançou seu primeiro long-play, pela gravadora Santa Anita. Em 1958 fez um novo retorno à Odeon, onde gravou o segundo LP, O Último Malandro, em que se destaca o clássico Na Subida do Morro (Moreira e Ribeiro Cunha).

Cantar numa época em que as ondas do rádio eram dominadas por canários como Chico Alves e Sílvio Caldas, intérpretes sutis como Mário Reis e afetados como Carmen Miranda, era um desafio gigantesco para Moreira. Mas encarnando a imagem dos malandros autênticos, terno de linho branco HJ-S 120, sapato bicolor e chapéu panamá, o marido de dona Mariazinha convenceu e cavou seu lugar ao sol. Moreira levou as melodias sincopadas de Geraldo Pereira ao radicalismo do samba-de-breque em clássicos como Na Subida do Morro. Ele mesmo atribuía pouca importância à sua criação. "Eu queria mesmo era ser advogado, ter o dom de falar como o Carlos Lacerda". Dizia que foi por acidente que o breque apareceu, durante um show num cinema do subúrbio carioca do Méier, em 1936. "Foi por acaso, como quase todas as descobertas dos cientistas. Eu estava cantando um samba fraquinho e decidi interromper e improvisar umas falas só para brincar com a platéia", disse. "O Tancredo Silva me deu um samba de quatro linhas (Jogo Proibido) e eu improvisei em cima: ‘Meto a solingen na garganta do otário e ele geme, ai, ai, meu Deus. Não posso mais. Vou me acabar’. Aí nasceu o breque", declarou ao Jornal do Brasil, em 1972. "O público aplaudiu de pé, e eu pensei: é aí que está o petróleo, malandro. Vou meter a sonda".

Foi o ponto de partida para seus sucessos no gênero que fez o inferno na vida de um violonista conhecido como Frazão, numa história que entrou para o folclore musical brasileiro. Depois de acompanhar Moreira num show no Teatro Olímpico, o músico virou-se para o cantor e bronqueou: "Foi a primeira vez que acompanhei conversa". Estava criado o rap caboclo, muitas décadas antes do Public Enemy. "O Luís Barbosa já cantava esse samba fazendo uma espécie de breque corrido", afirmou Moreira em entrevista à revista Ele & Ela (maio de 1982). Moreira teria dado o breque geral, falando de improviso sem acompanhamento de instrumentos. Seu segundo samba-de-breque é o pouco conhecido Fui a São Paulo: "Eu fui a São Paulo/Assistir uma partida/Da famosa Copa Roca/Em companhia da Maroca/Fiquei satisfeito/ De ver nosso time se desenvolver/Traçando o couro pra valer... Depois veio Doutor em Futebol, em que mostrava que para ter nome não era preciso ser doutor: "Basta saber controlar o caroço com inteligência".

Seu último sucesso, já na década de 60, foi o samba O Rei do Gatilho, de Miguel Gustavo, cuja letra falava de um caubói que, como o Zorro americano, tinha por companheiro fiel um índio. Era o Kid Morengueira, que passou a ser o apelido que o acompanhou pelo resto da vida. Miguel Gustavo compôs outros sambas em seqüência à série que falava das aventuras do herói brasileiro: O Último dos Moicanos, Os Intocáveis, Moreira Contra 007 e O Seqüestro de Ringo. Foi um renascimento do sambista, que graças à parceria com Miguel Gustavo reconquistou as ondas do rádio, "já agora junto ao público mais sofisticado da Zona Sul do Rio de Janeiro, graças a letras que exploravam situações engraçadas mais próximas do interesse da chamada classe A", fuzilou o crítico José Ramos Tinhorão, com sua opinião de pedra. Mas, coincidência ou não, é nessa época (1968) que Moreira se apresenta pela primeira vez numa boate da Zona Sul, a Chez Toi.

Mas os tempos já eram outros. No final dos anos 60 ele se queixava da concorrência dos "cantores cabeludos que estão dando sopa e que cantam até de graça para aparecer nos programas", dizia, ressentido com a televisão. Em entrevista a Ilmar Carvalho, do Correio da Manhã, em 9 de abril de 1970, ele dizia-se feliz com a venda de seus dois últimos álbuns (Os Sucessos de Moreira da Silva Continuam, 1968 e Manchete do Dia, 1969, só com sambas inéditos) lançados pelo selo Cantagalo: 30 mil discos. "Isso porque a gravadora não tem um plano de relações públicas (sic) e vendas para o Rio, onde tenho um público bom e fiel", dizia. E explicava seu novo rompimento com a Odeon: "Apareceu gente mais nova, ótimos profissionais, e os mais antigos, como eu, ficaram no come e dorme, sem cobertura da gravadora", resignava-se. "Creio que Vôo Espacial vai fazer o sucesso de Amigo Urso", sonhava o velho malandro, citando uma das faixas do disco Manchete do Dia. "O sucesso corre como água de regato. Às vezes pára um pouco, faz aquele remanso, mas a onda vem de novo", diria em depoimento no Museu da Imagem e do Som, em 1967. Mas o sucesso já era coisa do passado.

Em 1970 a EMI-Odeon relança, pelo selo Imperial, o LP A Volta do Malandro, que abre com sua fantástica interpretação de Gago Apaixonado, de Noel Rosa, compositor a quem sempre foi fiel. Em 1971, gravou Moreira da Silva na Academia, alugou um fardão e dirigiu-se para a Academia Brasileira de Letras. Austregésilo de Athaíde, o presidente da casa, não gostou da piada e barrou sua entrada. Sua briga com a ABL prosseguiu até 1984, quando gravou Clã dos Imortais, do jornalista William Prado, criticando o sistema fechado da entidade, que não aceitava mulheres. Em 1973, Ivan Cardoso rodou o documentário Moreira da Silva. No mesmo ano, Moreira gravou pela CID o disco Consagração de Moreira da Silva, sem qualquer sucesso. Mas garantia que seu burro estava na sombra: "Hoje não sou rico, mas ganho cinco mil cruzeiros por mês com direito a aumento, tenho direitos autorais, fundo no banco e apartamentos, um na rua do Senado e outro onde mora minha filha".

Já naquela época o mercado para o samba tradicional era São Paulo: "Aqui urubu está voando baixo. Em São Paulo atuou no Canal 7 e na TV Cultura. Até recebi uma medalha de ouro na boate Jogral, onde só se toca samba tradicional", louvou. Mas a porrada vinha embutida: "Só que gravam tapes pra todo o lado e não nos pagam". A televisão já era a televisão. "Não posso me queixar da vida. Tenho uma rendazinha que dá para enfeitar o babado". Em 1976, o velho malandro começou uma nova fase. Retornou aos palcos ao lado de Jards Macalé ("É meu único aluno"). Apresentaram-se juntos no Projeto Seis e Meia, do Teatro João Caetano. No ano seguinte, inauguraram o Projeto Pixinguinha. Passaram a fazer shows por todos os cantos. Em 1979, participaram de um festival promovido pela extinta TV Tupi, com o samba, única parceria da dupla, Tira os Óculos e Recolhe o Homem, que foi classificado, o que lhes valeu uma vaia da torcida dos novos artistas, que afinal eram o alvo do concurso. A vaia não o abateu, mas ficou indignado: "É a primeira vez que sou vaiado, pô!". Era fichinha para ele. Seu lugar no panteão dos grandes da música brasileira já estava garantido como o criador do samba-de-breque, um gênero que marcou época. Em 1987, voltaram a fazer show juntos, em comemoração aos dez anos do Projeto Pixinguinha - e voltam a excursionar.

Ainda em 1979 lançaria pelo selo Jangada (EMI/Odeon) o LP O Astro, "Talvez o melhor disco da carreira de Moreira", no dizer de Tinhorão. No final do mesmo ano lançou novo disco, O Jovem Moreira, pela Polygram, em que regrava Diplomata, de Henrique Gonçalves, composto em 1939 e Homenagem a Noel, de sua autoria. Seu próximo álbum só apareceria sete anos mais tarde, pela Top Tape: Cheguei e Vou Dar Trabalho (1986), em que inova ao oferecer 18 faixas aos seus fãs, entre elas - surpresa - A Volta do Boêmio (samba-canção de Adelino Moreira, lançado em 1956, grande sucesso na voz de Nelson Gonçalves) e Último Desejo (Noel Rosa, 1937), em que relembra seus dotes de seresteiro. Nesse disco dá nova roupagem a outro samba-canção, As Rosas Não Falam, clássico de Cartola. Aos 84 anos ele já não era o mesmo cantor que encantou multidões pelas ondas do rádio. "Um tanto forçado nas passagens de nota, é verdade, mas ainda eficiente nos graves", analisaria o crítico Tárik de Souza. Mas ele seguiria em frente.

Em 1989 entrou em estúdio com músicos do naipe de Dino Sete Cordas e Mauro Senise, para gravar o LP 50 Anos de Samba de Breque, pela CID/Fama. Nesse disco regrava mais uma vez Na Subida Do Morro, O Rei do Gatilho e Acertei no Milhar. E ainda a crônica do sufoco do Rio às voltas com as enchentes em Cidade Lagoa (Cícero Nunes e Sebastião Ferreira).

Desde que a mulher morreu, em 1983, o sambista não descansou. "Se pudesse, teria um harém, nem que fosse só para olhar", disse ao Globo. "Nunca prestei. E depois que começou a carreira artística, então... Mas sempre amei a minha mulher", confessou. Moreira entrou nos anos 90 ao lado de Denise Conceição, uma morena de apenas 24 anos de idade. "Estamos casados pela lei Divina", babava ao lado da mulher com quem dizia estar tendo um caso havia cinco anos. Ou seja, ele tinha 83 anos quando conheceu Denise com 19. "Já legalizei a situação de Denise no INSS e lhe dei uma pensão de 35 mil cruzeiros, além de uma casa na Saracuruna, subúrbio do Rio, e vou colocá-la também no Iaserj para ter seus direitos garantidos", cuidava ele. Mas continuaram morando separados. "Ela me chama de meu amor olhando nos meus olhos", acreditava o velho malandro. Não permitia que a filha e o genro interferissem na relação. Para quem imaginava que ele estava fazendo papel de tolo, o velho sambista dava o breque: "Eu encaro até hoje, pois sou protegido pelas almas benignas. Meu nome é Antônio Moreira da Silva, noventa e um anos, corpo limpo, sem varizes, afogando o ganso com cara de pavão misterioso", vangloriava-se. "Tomo chá de jurubeba com alcachofra e faço exames periódicos."

Embalado nos braços de Denise, ele fez em maio de 90 uma série de shows na Casa de Cultura Laura Alvim, no Rio. Em junho, estréia temporada curta no Jazzmania. No mês seguinte deu um depoimento ao Museu do Carnaval, no módulo Velha Guarda, entrevistado por Ricardo Cravo Albim, Osmar Frazão, Aidran Galvão, Vani Bayon e Tárik de Souza. O jornal O Globo (30 de julho de 1990) registra algumas frases do depoimento: "Tem um tal de Cabral que aparecia todos os domingos de carnaval lá em casa para comer feijoada. Hoje, ele só me escreve para pedir voto".

Em 1991, Moreira foi escolhido pela prefeitura do Rio de Janeiro, para inaugurar com um show a reurbanização da Lapa, o velho reduto da malandragem, dos bares e cabarés. O então prefeito, Marcello Alencar, fez questão, já que o artista representaria o verdadeiro espírito do bairro. O rei do breque atendeu com naturalidade à convocação: "Sou um símbolo carioca". Mas ele diria mais tarde que nunca foi de freqüentar a Lapa. "Eu freqüentava o mangue. Parava o táxi e namorava as prostitutas. A Lapa era um refúgio de artistas que moravam longe e iam dormir com as prostitutas", dizia. Mesmo assim, ao ser convocado, falou com hilariedade dos bons tempos do bairro: "Os táxis faziam ponto perto do lampadário. Havia os botecos, a leiteria da Rua Visconde de Maranguape, os cabarés. A rapaziada corria atrás das mariposas da Rua Joaquim Silva. Uma vez, quando eu era motorista de táxi, peguei um freguês que me disse precisar de uma mulher. Fui à Joaquim Silva e botei uma mulher no carro. Seguimos para a Vista Chinesa, mas quando chegamos lá o cara tinha dormido. Eu, então, executei a lebre".

Nos anos seguintes comemorou seus 90 anos com um show na boate People, e os 91 no Jazzmania, no Rio. Estava em plena atividade. Em 1993 lançou Moreira da Silva Fotografando a Cidade, o primeiro CD, em que reuniu os sucessos do período 1958-60, pela EMI/Odeon. E novamente grava Na Subida do Morro e Olha o Padilha. Regrava também Conversa de Botequim, de Noel Rosa e Pistom de Gafieira, de Billy Blanco. Em outubro, abriu a série de shows do Projeto Cultural da Caixa, no Teatro Nelson Rodrigues. Em 1995, comemorou seus 93 anos na Ritmo, no Rio, com um show em que cantou vinte de seus sambas mais conhecidos. Durante o espetáculo, foi entrevistado pelo jornalista Sérgio Cabral. O afilhado Jards Macalé subiu ao palco mais uma vez com seu professor, para dele receber o bastão (o chapéu panamá), pois o mestre estava oficialmente abandonando os palcos. "As pernas estão ficando bambas e, se não dá para sambar, não tem mais graça", lamentava-se. "É uma honra ser herdeiro de uma crônica viva do Rio", declarou Macalé. Fazia vinte anosque os dois haviam dividido pela primeira vez um palco, no show do Teatro João Caetano. A triste despedida de Moreira não foi triste nem despedida. Já no ano seguinte ele cantou no pequeno palco do bar Vou Vivendo, de São Paulo, um reduto do melhor samba encravado numa esquina da Avenida Pedroso de Moraes, no bairro de Pinheiros. Embalado pelo sucesso do CD Os Três Malandros, que dividiu com os sambistas Bezerra da Silva e Dicró, seu último disco, lançado no ano anterior, Moreira não perdeu a irreverência e aproveitou para dar um chega-pra-lá no neo-samba da terra da garoa: "Só vale o balanço".

Em 1996, finalmente, sai a primeira biografia de Moreira da Silva, O Último dos Malandros, do jornalista baiano Alexandre Augusto Gonçalves, pela editora Record, baseada em depoimentos do sambista. O jornalista João Máximo chamou a obra de livro de fã. Para ele faltou a análise da música de Moreira. Máximo divide a obra de Moreira em duas fases. A dos grandes sambas com grandes parceiros - Amigo Urso, Acertei no Milhar - e a da saturação, com a repetição de falas já manjadas no momento do breque. Nesta segunda fase a temática empobrece. "O Moreira do 007, do filme americano, do último dos moicanos, já não tinha o mesmo apelo", disse na resenha do livro. "Nos seus últimos tempos em forma, era preferível ouvi-lo reviver Cigano, de Lupicínio, a emparceirar-se com Macalés, Dicrós e Bezerras", escreveu o jornalista. Mais conhecido das novas gerações exatamente pela sua fase Miguel Gustavo, não há como negar que o melhor do Moreira é exatamente o que foi gravado na chamada época de ouro da música brasileira, os anos 30/40.

Seus 96 anos foram comemorados em grande estilo. Pela manhã, tomou café com crianças carentes assistidas pela Legião da Boa Vontade. Queria se lembrar dos tempos difíceis da infância. Depois, Jards Macalé e Ellen de Lima cantaram para ele seus antigos sucessos, no Teatro João Caetano. De lá, caminhou acompanhado por uma banda para um almoço no tradicional Bar Luiz, na Rua da Carioca. Moreira ainda ganhou um par de sapatos brancos de uma loja do centro e uma homenagem da Sociedade Amigos da Rua da Carioca. Dois anos antes de sua morte, o velho Morengueira sonhava figurar no Guiness Book of Records, como o cantor mais velho em atividade. E vivia a expectativa do lançamento na Austrália e em Portugal de alguns dos 26 álbuns que gravou ao longo da vida. Ainda ativo, tinha na gaveta o samba-de-breque Pra Fazer 97, em parceria com Reginaldo Bessa e Ecologia, com Aidran do Grajaú. É com Bessa que ele se apresentou numa temporada no Vinícius Bar, no início de 1997.

Moreira nunca foi de fazer média. Deitou falação sem travas na língua. Para ele "a batida da Bossa Nova é quase a de rumba". Caetano Veloso queria mesmo "é rebolar, um atrevido. Imagine que outro dia ele criticou a Aquarela do Brasil por causa da palavra inzoneiro. Ora, quem é Caetano Veloso para falar de Ary Barroso?", tascou. "Tião Motorista é que é o bom da Bahia". E mais: "Edu Lobo e Tom Jobim são razoáveis", disse à revista O Cruzeiro, em dezembro de 1968. "Gosto mesmo é de serestas e das baladas do Agnaldo Timóteo", feriu o malandro. "Gosto do Roberto Carlos, mas não gosto do seu Jesus Cristo, uma jogada com o nosso Pai para ganhar dinheiro", castigou mais tarde em outra entrevista. "O Chico Buarque é o Noel muito devagar". Paulinho da Viola? "É ainda água-com-açucar. É sofrível". E tome polca: "Outro dia eu vi aquela menina, a Gal Costa, uma porcaria, ela é neutra". Martinho da Vila: "É sempre aquilo que você tá vendo aí. Inclusive o Batuque na Cozinha não é dele não. Isso é mais antigo que Dom Pedro II". Elis Regina: "Eu sou melhor do que ela em qualquer parte do mundo que a gente bater". Donga é que era o tal: "Foi um cara bom. Grande compositor e tocando violão muito bem". Mas ele também levou troco. Rigoroso com os outros, sofreu o rigor do também longevo Carlos Cachaça, o grande mangueirense. "Os sambas dele eram mais comerciais, mais rentáveis. Nem as minhas parcerias com Cartola renderam muito dinheiro", disse Cachaça.

Moreira também deitou falação contra os meios de comunicação. "No rádio é que é o jabaculê. O disc-jóquei leva o dinheiro e diz que está em primeiro lugar. Tudo grupo, entende?", disse ao Pasquim. "Na TV a coisa funcionava diferente. A Tupi combinava 700 cruzeiros (de cachê). Quando chegava lá, um cara dizia: ‘escuta, o rapaz que te telefonou e disse que era 700, mas só pode ser 500’". Desse tempo para cá a coisa piorou bem. O cachê minguado cedeu lugar ao pagamento feito pelo artista ou pela gravadora para divulgar a música. No começo dos anos 70, Moreira soltou as cobras contra o apresentador Abelardo Barbosa, o Chacrinha: "Há 40 anos mandei fazer dois ternos pra ele, cantei com amigos de graça para arranjar-lhe uma nota, que ele estava duro. Hoje, o malandro não paga e até quer que a gente pague para se apresentar no seu programa".

Incisivo com os colegas, ele pegava leve com o poder. Gravou um samba em homenagem a Getúlio Vargas, quando o Brasil declarou guerra ao eixo: "Minha bandeira foi ultrajada, temos um homem de fibra, Getulio Vargas, posso empunhar um fuzil pela honra do meu Brasil", babou no chapéu panamá. Gostou do velhinho até o fim: "Foi o único político que eu vi apertar a mão de um lixeiro", justificava. Para Juscelino Kubitschek gravou Cutuca, Nonô, de Miguel Gustavo. Não gostava de agitação: "passeata não resolve". E chegou a se candidatar a vereador pelo PTB do antigo Distrito Federal, levando apenas 400 votos: "A moçada parece que não acreditou em mim".

Se o povo o tratou mal, o Estado o tratou bem. Aposentou-se em 1959 como encarregado de garagem, mas desde que se tornara um artista consagrado não desempenhava a função. "Os colegas tiravam meu plantão", declarou ao Pasquim. Moreira não era político, não militava, mas suas músicas revelavam em crônica as desigualdades e a injustiça social, sem panfleto. Insurgiu-se de leve contra a invasão da música estrangeira. Ao jornal Opinião exibiu, em 1976, seu nacionalismo corporativo: "Uma estação de rádio não é uma propriedade definitiva, aquilo é um veículo de propaganda (sic) que pode levar até a envenenar a nossa pátria". Em 1984 gravou Moreira Já, de William Prado, um samba pelas eleições diretas, lançado com 1.500 compactos, durante show no Mistura Fina, em Ipanema. Do outro lado do disco, o samba com que espicaçou a Academia Brasileira de Letras. "Afinal de contas, sou pelas eleições diretas", justificou. Moreira confessou ter votado em Lula para presidente: "O FHC eu não gosto, parece que vai descontar dos aposentados".

Cruel crítico dos colegas, louvador de presidentes e amante das eleições livres, Moreira era coluna do meio na questão do direito autoral. Perguntado no Pasquim pelo produtor e crítico Mariozinho Rocha se tinha queixas do órgão arrecadador, foi pelo caminho suave: "Não, não, não. Aí eu sou neutro". Mas insinuava lá seus motivos: "Sabe como é que é...", desconversava. Seu comportamento tinha outra explicação: era conselheiro da SBACEM, órgão responsável pelo recolhimento de direitos autorais.

A autoria da obra de Moreira como compositor era questionada por ele próprio: "A necessidade faz o sapo pular", dizia. "Já vendi e comprei muito samba". No começo da carreira, não: "Naquele tempo eu não era muito esperto para pedir parceria, hoje eu peço", confessou em 1973. Moreira falava com tranqüilidade sobre o comércio de sambas: "O esquema de entrar é o seguinte: o sujeito chega perto e diz: Moreira, eu tenho este samba aqui, pode ter esquema de entrar... Quem me vendeu muita música foi o Zé Com Fome (Zé da Zilda)", declarou ao Pasquim. Ele conta que pagou 150 mil-réis pelo samba Dormi no Molhado, do Zé da Zilda. "O Francisco Alves comprava", entregou na mesma entrevista. Ao jornal Opinião confessou ter recebido de presente a parceria do samba A Carne, de Nelson Cavaquinho. "Ele andava na pior, sem amparo. Ele vendia por qualquer preço a música dele. Ele vendeu para um rapaz, o Roxo", disse. Foi das mãos de Roxo que Moreira ganhou a parceria em troca de gravar o samba. Em depoimento ao Museu do Carnaval, em 1990, ele seria franco e direto: "Paguei um conto e trezentos mil-réis ao Geraldo Pereira por uma música. Era um bom dinheiro. Mas quando ele estava sem nenhum para pagar o quarto, me vendia por 150 mil-réis, confessou. "Comprar música é subjetivo. Desde o começo da música os compositores vendem suas canções", justificava.

Moreira dizia não ser saudosista, mas viveu se queixando das novidades que surgiram no meio musical, às quais atribuía o fim de seu reinado: "Um Ari Barroso, um Noel Rosa, a gente tem que respeitar. Esses meninos de hoje são muito água-com-açucar". No mais, se conformava. Só estranhava a explosão demográfica: "Tá nascendo gente pra danar". Recebeu o ano 2000 sem cerimônias. "Velhice para mim não existe. Parece que cheguei ontem ao planeta", dizia. Aos 97 anos, sua visão da virada do milênio era trivial: "O que vier eu traço. Enquanto São Pedro não manda a ordem de captura, eu vou vivendo com habeas-corpus preventivo", costumava dizer. Da janela do apartamento no Catumbi, onde vivia sozinho desde que Mariazinha morreu, em 1983, ele mirava o cemitério, onde o jazigo número 6 o esperava. "Meus futuros guardiães, que trabalham ali embaixo, me saúdam: não tem aparecido, seu Moreira. Eu fico meio cabreiro e vou saindo de banda. Sai pra lá, mamão", esconjurava. Mas não temia e até desdenhava da perpétua: "O futuro é uma caveira". E cantarolava: "Para fazer 97/Tem que ser malandro/Quem não pode, não se mete/Que o bicho tá pegando". Atribuía sua vitalidade a uma mistura bem brasileira, mas com nome gringo: "black and white". Não o uísque, que como já se viu não era seu forte. "Minha mãe era black e meu pai era white".

Moreira viveu seus últimos dias com o que recebia de pensão como chefe de garagem do antigo Estado da Guanabara, cargo em que se aposentou, e de uma pensão de compositor e cantor pelo INSS. Algo como 1.200 reais. "Dá pro gasto", conformava-se. Além, é claro, dos cachês de shows que fez até o fim. No apartamento do bairro do Catumbi, ele via o tempo passar pela janela sem maior afetação, na manha do gato, mamando e miando: "Passo a maior parte do tempo deitado, só levanto para ver novela e futebol". Não tinha condições de andar pelas ruas do Rio, como gostava. As pernas não se sustentavam mais. Tempos atrás ele se levantava, tomava o café-com-leite e saía para jogar no bicho, conversar com os vizinhos e passear pela região central da cidade. Ia à Cinelândia, tomava uma mineral no Amarelinho, comia um ensopado de quiabo batizado com seu nome no Paisano, como registrou a revista de Domingo do Jornal do Brasil em março de 1992. Agora, quando saía, era de táxi. "Estou com um pouco de dificuldade para andar por causa de uma cucaracha (barata) que matei na banheira e acabei caindo", queixava-se. Apesar disso, Bessa estava produzindo o que seria seu último disco. E a saúde parecia estável. "Há pouco tempo fiz um check-up e estava tudo certo: triglicerídeos, colesterol... Minha pressão é 12 por 8", dizia, atribuindo sua forma ao ginseng para o corpo e ao Advil para a dor-de-cabeça.

Morreu de falência múltipla dos órgãos, no Hospital dos Servidores do Estado, no Rio, no dia 6 de junho de 2000. onde estava internado desde meados de maio. Com sua morte, aos 98 anos de idade, foi-se embora o último malandro. Malandro daqueles cantados por Jorge Ben Jor, que sabem que é bom ser honesto e são honestos só por malandragem. No idioma de Morengueira: "Se um vigarista soubesse quanto é gostoso estar do lado da lei, se tornaria honesto só por vigarismo". Este era o retrato fiel do Moreira. "A malandragem nunca existiu para mim. Sou um bípede mamífero que sempre trabalhou", pontificava. "Hoje estou humildemente, modestamente, na história do samba". Não teve filhos ("Fiz uma vasectomia natural por causa de tanta farra"), mas adotou Marli, que lhe deu dois netos. Paulinho da Viola, Beth Carvalho, Jards Macalé, Elza Soares, Bezerra da Silva e Sandra de Sá, entre outros artistas, prestaram-lhe homenagem póstuma num grande show no Canecão.


Fonte: Site Samba-Choro- Julio Cesar Cardoso de Barros. 

Miriam Batucada

(São Paulo/SP, 1º de janeiro de 1947 — São Paulo/SP, 2 de julho de 1994)

A cantora Miriam Batucada, nome artístico de Miriam Ângela Lavecchia, nasceu no bairro da Móoca, em São Paulo, no dia 28 de dezembro de 1946, mas foi registrada pelo seu pai no dia 1º de janeiro de 1947, ganhando assim um ano, como se dizia antigamente.

Miriam nasceu e morou na mesma casa até os seus 20 anos, na Rua João Antônio de Oliveira 459. Essa casa, já demolida, ficava bem em frente ao portão da entrada da Cia. União. A casa era igual a muitas construções típicas do bairro : duas janelas, entrada lateral sem cobertura e com um simpático portão de ferro com detalhes em arabescos, trabalho artesanal de serralheria; um pé direito bem alto e duas janelinhas com grades em baixo, que tinham a função de servir de respiração para o porão.

Miriam Lavecchia estudou sempre na Mooca : o jardim de infância na Escola Santa Terezinha, da Dona Rosa, na Rua Javari, o grupo escolar no Oswaldo Cruz e o curso técnico no Brasilux. Depois disso, fez um curso de digitadora na IBM e foi trabalhar na Alpargatas e na Arno, onde foi despedida por fazer batucada no teclado.

Como se vê, Miriam Batucada sempre foi muito musical. Com apenas 6 anos de idade já tocava harmônica, uma Scandalli de 120 baixos, maior do que ela. Suas aulas eram ministradas pelo professor Olímpio, na rua Iolanda. Quando menina, sabia a letra de uma grande quantidade de músicas e gostava de todos os gêneros musicais.

Aos 14 anos começou a tocar violão. Seu ritmo era fantástico. Vivia fazendo percussão, no tempo e no ritmo certo, com batidas nos sofás, paredes e móveis.

Pode-se dizer que Miriam começou efetivamente a sua carreira, cantando em festinhas de amigos e nas “peneiras”, tão comuns à época (similar aos atuais concurso de calouros) num clubinho da Cia. União, que ficava do lado da fábrica de meias Ibram, na Rua João Antônio de Oliveira, quase esquina da Rua da Mooca.

Mas, a sua marca registrada era a batucada feita nas mãos. Ela contou em uma entrevista na TV Cultura que tudo começou no salão de cabeleireira da Dona Adelina, na rua da Mooca. Lá, ela conheceu uma menina que morava na Rua Almirante Brasil, que tinha o apelido de Chacareira e foi essa menina quem lhe ensinou essa arte. No começo, o ritmo era lento,mas com dedicação e persistência (Miriam treinou durante uns 3 meses) saiu um ritmo frenético, rápido e no compasso de qualquer samba. Criou assim sua marca registrada.

No ano de 1967, quase todas as sextas feiras, Miriam e seus irmãos Milton e Mirna, iam assistir ao programa do Blota Jr. Esse programa tinha o estilo do atual programa do Jô Soares. Nessa época, a Record era a emissora líder, com uma audiência espetacular e o programa era transmitido ao vivo.

Numa dessas noites, Miriam recebeu um convite feito pelo filho do Blota Jr., para que na semana seguinte viesse mais cedo para fazer um ensaio rápido com o Caçulinha. E assim aconteceu.

Sua apresentação durou quase 2 horas. Blota Jr., o público e os telespectadores acharam fantástica a sua apresentação, com muita originalidade e autenticidade e, de quebra, Miriam ainda tocou todos os instrumentos que se encontravam no palco da Record naquele dia : piano, bateria, harmônica, violão, cuíca, além de batucar na mesa do apresentador e mostrar também a sua batucada nas mãos.

No dia seguinte, já era representada pelo famoso empresário Marcos Lázaro, sendo contratada pela TV Record. Participou do Programa de Sônia Ribeiro e, em seguida, ganhou um programa com Ronie Von nas tardes de sábado.

Foi durante sua apresentação num programa de televisão que Cidinha Campos a intitulou de Miriam da Batucada. Como o "da" na época não estava na moda, Miraim o extraiu e ficou só com o codinome de Miriam Batucada. Mas, com esse nome ela pagou um preço bem alto, pois seu repertório foi canalizado para o samba, quando a sua preferência e suas melhores interpretações eram do estilo romântico, que combinava muito com o seu timbre de voz grave e sensual.

Com esse sucesso, passou a ser constantemente requisitada para shows onde conseguia segurar o público entusiasmado por quase duas horas com diálogos inteligentes, musicas conhecidas e inéditas, críticas com temas políticos e do cotidiano e um resgate dos tempos passados que marcaram gerações. Quando, nos shows, interpretava suas paródias falando sobre política,ela vestia uma máscara de palhaço. Vários desses shows foram apresentados no exterior, em países como Estados Unidos, França, Itália e Portugal.

Todo esse sucesso não foi condizente com o pequeno acervo discográfico, pois Miriam, em toda sua carreira, só gravou 5 compactos e dois LPs sendo um deles, intitulado “Sociedade da Grã Ordem Cavernista” em parceria com Raul Seixas, Edy Star e Sérgio Sampaio.

A Mooca para a Miriam era sua segurança, o conhecido, sua formação e sua paixão. Era sua régua e compasso. Ela dizia também, que a Rua João Antônio de Oliveira era a ONU, porque desde criança compartilhou com todos os vizinhos e amigos descendentes de nacionalidades diferentes: Italianos / espanhóis / japoneses / hungareses / portugueses / judeus e turcos (na época não se falava nem sírio, nem árabe, nem libanês : eram todos turcos mesmo), dando-lhe um diversificado conhecimento cultural que influenciava os seus hábitos e comportamento.

Mas Miriam Batucada guardava uma mágoa da Mooca, pois dizia que o seu querido bairro não valorizava o seu talento.

Miriam Batucada faleceu precocemente, no dia 2 de julho de 1994, sendo encontrada morta em seu apartamento onde morava sozinha no Bairro de Pinheiros, por sua irmã Mirna, que residia em Maringá, 21 dias após ter sofrido um infarto fulminante.

A Moóca só a homenageou, após a sua morte, atribuindo o seu nome a uma travessa da Rua Bixira – Travessa Miriam Batucada.

Fonte: Site Portal da Moóca. 

Mamonas Assassinas

"Mamonas Assassinas" foi uma banda brasileira de rock satírico, com influências de gêneros populares como forró, sertanejo, pagode além de hard rock e música portuguesa.

Tornaram-se um grande sucesso com seu humor em meados da década de 1990, vendendo mais de 2,5 milhões de cópias de seu álbum de estréia.

No auge de suas carreiras, os integrantes da banda foram vítimas de um acidente aéreo fatal.

A morte dos integrantes de "Mamonas Assassinas", em 1996, chocou o Brasil. Os músicos voltavam de um show quando o avião em que estavam chocou-se contra a Serra da Cantareira, em São Paulo.

Grande parte do sucesso dos Mamonas deveu-se ao vocalista Dinho, o mais palhaço dos cinco, que ainda arrancava suspiros das meninas. Bento (guitarra), um japonês que se apresentava usando uma peruca rastafári, era o responsável pela mistura de estilos musicais da banda, que ia do sertanejo ao rock, passando pelo vira, tradicional música portuguesa. Julio Rasec (teclados) – o sobrenome artístico era, na verdade, seu segundo nome, César, escrito ao contrário – ficou conhecido pela performance de Maria, na música "Vira-Vira". Os irmãos Reoli, Samuel (baixo) e Sérgio (bateria), usavam uma corruptela do verdadeiro nome da família, Reis de Oliveira, como nome artístico.

Em 1989 os irmãos Samuel e Sérgio Reoli, junto com Júlio Rasec e Bento Hinoto, formaram uma banda de rock chamada "Utopia", especializada em covers de grupos como "Legião Urbana" e "Rush". Em um show, o público pediu para tocarem uma música dos "Guns N' Roses", e como não sabiam a letra, pediram a um espectador para ajudá-los. Dinho voluntariou-se para cantar, e com sua performance escrachada fez o público rir, sendo aceito no grupo.

O "Utopia" passou a apresentar-se na periferia de São Paulo e lançou um disco que vendeu menos de 100 cópias. Aos poucos, os integrantes começaram a perceber que as palhaçadas e músicas de paródia eram mais bem recebidas pelo público do que os covers e as músicas sérias. Decidiram, então, mudar o perfil da banda, a começar pelo nome, escolhido por ser o mais engraçado, e que cita mamona como sinônimo de seio (tanto que o grupo criou a tradução para inglês "The Big Killer Breasts", peitões assassinos).

Mandaram uma fita demo com as músicas "Pelados em Santos" e "Robocop Gay" para diversas gravadoras, e Rafael, filho do diretor artístico da EMI, João Augusto Soares e baterista da banda Baba Cósmica, insistiu na contratação.

Após assistir uma apresentação do grupo em 28 de Abril de 1995, João Augusto resolveu assinar contrato com os "Mamonas Assassinas".

Após gravar um disco produzido por Rick Bonadio (apelidado pela banda de Creuzebek), os Mamonas saíram em imensa turnê, apresentando-se em programas como Jô Soares Onze e Meia e tocando mais de cinco vezes por semana, com apresentações em 25 dos 27 estados brasileiros e ocasionais dois shows por dia. O cachê dos "Mamonas Assassinas"tornou-se um dos mais caros do país, R$50 mil.

Os "Mamonas Assassinas" preparavam uma carreira internacional, com partida para Portugal preparada para 3 de Março de 1996. Porém, em 2 de Março, enquanto voltavam de um show em Brasília, o Learjet em que viajavam chocou-se contra a Serra da Cantareira, numa tentativa de arremetida, matando todos que estavam no avião.

O enterro no dia 4 de Março fora acompanhado por mais de 65 mil fãs.

Foi anunciado um filme da história da banda, baseado em "Blá, Blá, Blá - A Biografia Autorizada dos Mamonas Assassinas, de Eduardo Bueno, e a ser dirigido por Maurício Eça.

Integrantes:

Alecssander Aves ( Dinho ): Nasceu em Irecê, na Bahia, em 5 de março de 1971. Mudou-se para Guarulhos com 1 ano e meio de idade.Compositor e vocalista, comprou um Kart, corria de moto e amava pilotar seu Jet Ski. Namorava a modelo Valéria Zappello.

Sérgio Reis de Oliveira ( Reoli ) Foi o verdadeiro criador do conjunto. Nasceu em SP em 30 de setembro de 1969 e era o irmão mais velho de Samuel Reoli. Sempre sonhou em ser músico profissional e tocava bateria. Com seus cachês ajudou a reformar a casa onde morava com toda a família: construiu um enorme salão de jogos, além de uma piscina.

Samuel Reis de Oliveira ( Reoli ): Nasceu em 11 de março de 1973, em SP. Começou a tocar baixo por influência de Sérgio. Foi office-boy, auxiliar de cobrança e tinha uma video locadora em casa. Era o caçulinha do conjunto.

Júlio César Barbosa (Júlio Rasec): O tecladista dos Mamonas e dono da voz da Maria no hit "Vira-Vir"a. Nasceu em 8 de Janeiro de 1968 em Guarulhos. Foi técnico em eletrônica, estagiário da Philco e professor de Inglês. Apesar de cabelos pintados de vermelho. era o mais reservado e estudioso do grupo.

Alberto Hinoto ( Bento): Era o único nissei dos Mamonas. Apesar do look maluco, com cabelos rastafaris, era o mais certinho dos cinco. Nasceu em 7 de agosto de 1970 em Guarulhos. Tinha uma empresa de materiais para escritórios estudava Administração de Empresas na Faculdade Farias Brito. Namorava Aninha Almeida e tocava guitarra.

Discografia

Álbuns de estúdio

Mamonas Assassinas (1995)


Coletâneas

Atenção, Creuzebek: A Baixaria Continua (1998) - coletânea de versões alternativas e ao vivo. Possui três músicas inéditas: "Joelho", "Onon Onon" e "Desnudos en Cancún".

Álbuns ao vivo

Mamonas ao Vivo (2006) - lançado para lembrar os 10 anos da morte. Inclui "Não Peide Aqui, Baby" (paródia de "Twist and Shout" dos Beatles). e uma versão do tema da Pantera Cor-de-Rosa.

Videografia

DVD
MTV Na Estrada (2004) - DVD lançado pela MTV Brasil.

Fontes: Wikipédia, Cliquemusic Uol, Blogs "Mamonas Assassinas"

Marcelo Frommer

(São Paulo/SP, 3 de dezembro de 1961 — São Paulo/SP, 13 de junho de 2001)

O guitarrista e compositor Marcelo Frommer nasceu em São Paulo, em 3 de dezembro de 1961.

Descendente de judeus, Marcelo Frommer começou na música aos 15 anos. Influenciado pela Tropicália - movimento musical liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil - e pelos Beatles, Marcelo fez sua primeira apresentação como guitarrista em 1982, no Sesc Pompéia, incorporado aos "Titãs do Iê- Iê -Iê". Era um grupo formado pela junção do Trio Mamão (de Branco Melo, Belloto e Frommer) e pela Banda Performática (de Arnaldo Antunes, André Jung, Ciro Pessoa, Nando Reis, Paulo Miklos e Sérgio Britto).

Em 1984, depois de terem tocado pelo circuito underground de todo país, Tony Belloto, Sérgio Britto, Branco Melo, Paulo Miklos, Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Charles Gavin gravam seu primeiro disco chamado Titãs. Daí pra frente o grupo seria um dos mais cultuados no país.

Marcelo Fromer foi peça fundamental na construção do som da banda, mesmo não tendo tanto destaque quanto os vocalistas. Marcelo Frommer ajudou no processo de composição de sucessos como "Aa Uu", "Homem Primata", "Comida", "Lugar Nenhum", "Desordem", "O Pulso" e "Jesus Não Tem Dentes". Junto com Tony Belloto, Marcelo Frommer compôs grande parte do repertório do disco "A Maior Banda de Todos os Tempos da Última Semana", lançado logo após sua morte.

Desenvolveu outras atividades paralelas, além de música, principalmente nas áreas da culinária e do futebol.

Lançou, em 1999, o livro de receitas "Você Tem Fome de Quê?", cujo título se refere à canção "Comida", dos Titãs. Manteve ainda uma coluna no site gastronômico "Basílico".

Marcelo Frommer atuou, também, como comentarista esportivo no canal de TV fechada "Sport TV" e participou do site oficial do Corínthians com uma coluna.

Morreu aos 39 anos, dois dias após ser atropelado por uma motocicleta na noite do dia 11 de junho de 2001. Foi atingido quando atravessava a Avenida Europa, na capital paulista. O motociclista não prestou socorro, fugindo.

O coração de Marcelo Frommer foi doado para o metalúrgico Mário Oliveira, de 51 anos, que poderia morrer caso não recebesse o transplante. A decisão foi tomada pela família do músico, que em vida sempre manifestou a opção por doar seus órgãos quando viesse a falecer - apesar de sua religião, o judaísmo, proibir esse tipo de prática.

Deixou três filhos: Susy, Max e Alice.

No ano da morte de Marcelo Frommer, o grupo Titãs lançou mais um disco, em homenagem ao companheiro falecido, com várias composições de sua autoria.

Em 2002 foi lançado o livro "A Vida Até Parece Uma Festa", biografia escrita pelos jornalistas Hérica Marmo e Luiz André Alzer. Naquele mesmo ano, foi lançado o livro de Ricardo Alexandre "Dias de luta: O rock e o Brasil dos anos 80", também com várias referências ao compositor.

Fontes: Sites Wikipédia, Folha Uol, Dicionário da MPB; Jovem Pan.

Marisa Gata Mansa

(Rio de Janeiro/RJ , 27/04/1933 ***** Rio de Janeiro/RJ, 09/01/2003)

Batizada como Marisa Vértulo Brandão, o apelido originou-se de sua fala mansa. O apelido foi dado pelo jornalista Djalma Sampaio.
Seu início de carreira foi marcado pela forte influência do jazz, ritmo que interpretava como crooner de orquestra. Nos anos 50 teve uma aproximação com a bossa nova, graças à amizade com Dolores Duran e a um breve romance com João Gilberto.

Sua carreira não ficou limitada à música. Nos anos 60 chegou a fazer teatro em São Paulo. Nessa fase teatral participou de um musical com Lennie Dale e de um espetáculo com Caetano Veloso e Taiguara, no Teatro de Arena. Voltando ao Rio de Janeiro, trabalhou em boates e casas noturnas. Foi crooner do Golden Room do Copacabana Palace e, posteriormente, substituiu Dolores Duran no Bacará. Cantava no “Beco das Garrafas”, ao lado de outros nomes da bossa nova.

Flavio Cavalcanti levou-a para a TV Tupi onde, ao lado de Moacir Silva apresentou o programa “Convite à Música”.

Homenageou Dolores Duran em três espetáculos: "Dolores, 20 anos depois"(1979), "A noite de meu bem" e "Tributo a Dolores Duran."

Foi casada com o compositor e pianista César Camargo Mariano, que compôs em sua homenagem a música “Marisa”, usada na cerimônia religiosa de seu casamento com o compositor. Dessa união nasceu o filho da cantora, Marcelo Mariano.

Seu primeiro disco (em 78 rotações) foi lançado em 1953 e o último em 1997, o CD “Encontro com Antonio Maria”. Em 1959 gravou seu primeiro LP “Suave Marisa”, onde incluiu a música “A Noite do Meu Bem”,de Dolores Duran. Gravou 12 álbuns. Entre seus maiores sucessos estão "Viagem" (João de Aquino/ P.C. Pinheiro), "Leva-me Contigo" (Dolores Duran), "Tudo Acabado" (J. Piedade/ Oswaldo Martins), "Leopardo" (Vital Lima) e "Caçador de Mim" (Luiz Carlos Sá/ Sérgio Magrão).

A cantora faleceu no Rio de Janeiro no Hospital Miguel Couto, onde estava internada por conta de uma isquemia cardíaca, que acabou provocando a sua morte devido a uma insuficiência respiratória. Neste ano de seu falecimento, aos 69 anos de idade, a cantora completaria 50 anos de carreira.

Marinês

(São Vicente Ferrer/PE, 16/11/1935 ******** Recife, 14/11/2007)

Filha do ex-cangaceiro do bando de Lampião Manoel Caetano de Oliveira e da dona de casa Josefa Maria de Oliveira, dona Donzinha, a menina Maria Inês Caetano de Oliveira nasceu em 1935, em São Vicente Ferrer , Pernambuco. Seria a Paraíba que acolheria no lombo da Borborema, em Campina Grande, a família que se mudou em 1940. Ali viveu a infância, a mocidade, o começo da carreira e a união com o sanfoneiro Abdias.

Da primeira vez que se apresentou num programa de calouros, na extinta Voz da Democracia, em Campina Grande, na Paraíba, Marinês ganhou o prêmio de primeiro lugar . Eleita pelas palmas do público, que se concentrava na frente da rádio, levou pra casa um sabonete eucalol. Era o início de uma carreira que comemora meio século divulgando os ritmos nordestinos genericamente chamados de forró.

Fosse o baião simbolizado pelo triângulo e , sem dúvida, Marinês seria o vértice, tendo Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga na base. Coroada pelo velho Lua Rainha do Xaxado, Marinês é o ''último mito vivo da música nordestina", como gosta de frizar, sua voz possante e cristalina, como água limpa de serra abaixo ainda se preserva e supreende como no último CD "50 anos de forró" em que emparelha o gogó com mais treze discípulos. divididos.

As músicas que mais atraiam a sua atenção eram os sucessos do Rei do Baião, divulgadas pelo altos falantes em postes das difusoras de Campina Grande. Qui nem Jiló, Respeita Januário, Xanduzinha, No Ceará não Tem disso não e Asa Branca, eram apenas algumas músicas que ela já sabia de cor por lhe tocarem a alma de sertaneja.

A primeira vez que viu seu Luiz, influência capital no desenvolvimento de seu estilo foi em 1950 , comício para escolha do Governador da Paraíba. Luiz Gonzaga estava animando o comício do candidato Argemiro de Figueiredo e do candidato a senador pela UDN Pereira Lyra, que encomendaram a ele e a Humberto Teixeira a música da campanha, chamada "Paraíba", hoje considerado uma espécie de segundo hino do estado.

Nesta mesma época, Maria Inês ingressa no ginásio no Colégio das Damas, frequentado pela classe média local. Sua estada por lá não iria durar muito. Ainda no primeiro ano largaria os estudos. Motivo: a velha falta de dinheiro. Não tirou por menos, sabedora do seu potencial vocal, se engajou na Voz da Democracia, no bairro da Liberdade.

e logo estava no papel de locutora. Passou depois para a difusora A Voz de Campina Grande. Só ia entretanto adentrar o mundo da música profissional em 1951, quando pelas mãos do compositor Rosil Cavalcanti (Sebastiana) , e do Diretor da Rádio Cariri, Arnaldo Leão, assinou contrato se integrando ao time da rádio. Debutou com o bolero Dez anos, número integrante do seu repertório romântico.

Sempre chamando atenção pelo seu canto afinado e pujante, atraiu a atenção dos diretores da Rádio Borborema, que a contrata para os seus programas de auditório em 1952. No mesmo ano contratariam o sanfoneiro paraibano Abdias Farias. Começam a namorar e após pedir permissão aos pais da moça , o talento da consertina se casa com a Maria Bonita do Forró ,dois anos depois. Cerimônia simples, só parentes e mais uns chegados.

Rescindem contrato com a Rádio Borborema e recebem em seguida convite para integrar o cast da Rádio Difusora de Alagoas- RDA- antigo lar artístico de Abdias. Foi preparada toda uma festança para a estréia do casal. Desde o programa de estréia Marinês roubou as atenções, castigando seu triângulo, xaxando que nem uma carrapeta. A apresentadora os batizaria como o "Casal da Alegria".

Começaram a fazer alguns shows pelo interior do estado e a fama do casal começou a reverberar por outras praças nordestinas.

De Fortaleza surgiu um convite para trabalhar na Rádio Iracema, onde as condições empregatícias eram melhores. Lá encontraram o terceiro elemento, que iria fechar um formato pronto a ganhar o país.

O zabumbeiro Cacau, que tinha tocado com Luiz Gonzaga no começo dos anos 50, estava em Fortaleza "por acaso", procurando emprego onde pudesse martelar sua zabumba.

Abdias vislumbrou logo a possibilidade de montar um trio de forró, tocando repertório de Jackson do Pandeiro e de Luiz Gonzaga. Ele afunfando o fole, Marinês tilintando seu triângulo e Cacau castigando a zabumba .

Com repertório afiado, zarparam na lapa do mundo, tocavam em bibocas, cinemas , circos, alugavam armazéns e iam disseminando o novo ritmo criado por Gonzaga. Este, por sua vez, ia tendo notícia aqui e alí de um trio que tocava suas músicas: "a moça é uma Gonzaga de Saias", diziam.

"O primeiro encontro, acontecido em 1955, é narrado por Marinês: " Foi quando eu fiz um show em Propriá (Sergipe) e Pedro Chaves, o prefeito na ocasião, apaixonado por Luiz Gonzaga , ofereceu um busto na praça. Eu e meu marido dissemos que tínhamos muita vontade de conhecê-lo pessoalmente. Ele, então, nos contrata para fazer um show justamente no dia que Gonzaga ia inaugurar a Praça. Ele nos botou num apartamento junto do apartamento do Gonzaga, porta com porta. Quando chegamnos lá, Luiz Gonzaga já estava sabendo que tinha essa cangaceirinha, como ele me chamava, cantando as músicas dele. Quando o Pedro Chaves disse: a Marinês está aí. Ele bateu em nossa porta e disse: -Vocês são meus convidados para comer comigo na mesa. Eu tremia, nem comi direito, nervosa com o impacto da presença, uma coisa que eu sonhava. Almoçamos e ele disse: eu vou lhe ensinar a dançar xaxado porque eu estou precisando de uma rainha do xaxado. Tenho a princesinha do baião, que era Claudete. Aí ele foi dançar comigo", recorda.

Após a apresentação Gonzaga prometeu dar uma força à Patrulha de Choque, acenando com canais abertos em rádios e gravadoras. no Rio , onde morava. Em março de 1956 a trupe chegou no Rio e se hospedou na casa de Helena Gonzaga, madame baião, e do rei. Apadrinhados desde o encontro em Sergipe, Gonzaga saiu a apresentá-los nos programas na Rádio Mayrink Veiga - onde coroou em terras do Sul oficialmente a Rainha do Xaxado. Tocaram também nas rádios Nacional e Tupi.

Depois de divulgá-los, o cantor de Asa Branca destitue a Tropa e os incorpora à sua nova produção: "Luiz Gonzaga e Seus Cabras da Peste". Abdias ia pro agogô - só tocava sanfonaquando luiz dançava - Zito Borbortema no pandeiro, Marinês no triângulo e Miudinho na zabumba.

Neste ano Marinês registrava em disco sua voz pela priemira vez, na faixa Mané e Zabé, de Gonzaga. O novo grupo partiria para uma excursão à capital meneira para celebrar o aniversário de uma emissora associada. Na volta, ogrupo teve que enfrentar o ciúme de Helena Gonzaga que exigiu ao rei a dissolução do grupo.

No começo de 1957 Marinês se apresentou no programa Rancho Alegre , da rádio Tupi. Antes de entrarem em cena o apresentador Chacrinha apontou para cacau e Abdias e perguntou a cantora :
- Quem são esses aí ?
- É minha gente, explicou.
De bate-pronto o velho guerreiro anunciou: Marinês e sua gente. A partir de hoje você vai ser Marinês e sua gente. No ano seguinte sua grande chance...

Em 1999 o CD comemorativo dos 50 anos de carreira da cantora, "Marinês e Sua Gente", foi produzido por Elba Ramalho e contou com a participação de Lenine, Dominguinhos, Genival Lacerda, Chico César, Geraldo Azevedo, Antônio Barros (e Cecéu), Moraes Moreira, Alceu Valença, Zé Ramalho, Marco Farias, Margareth Menezes e Ney Matogrosso interpretando sucessos de forró como "Forró do Beliscão", "Coco da Mãe do Mar", "Meu Cariri", "Lamento Sertanejo", "A Noite Toda", "Forró das Comadre" e outros.

Sua discografia contabiliza cerca de trinta discos.

Marinês sofreu um acidente vascular cerebral no dia 5/11/2007 e morreu às 9:45 h do dia 14. O primeiro derrame aconteceu no sábado, dia 5, e provocou paralisia do lado esquerdo do corpo. Ela também teve dificuldades para falar. A artista passou por fisioterapia e tratamento com remédios. Para os médicos, a morte de Marinês foi inesperada. Ela havia apresentado melhoras nas condições de saúde. No domingo (13), recebeu visita de vários familiares e amigos, inclusive do cantor Genival Lacerda. Ela sofreu o segundo AVC durante a madrugada do dia 14 e entrou em coma profundo. A artista de 71 anos estava internada no Hospital Português, em Recife, onde se recuperava após sofrer o AVC em Caruaru.

Mestre Salu

(Aliança/PE, 12/11/1945 ******* Recife/PE, 31/08/2008)

Manoel Sebastiano Soares, o Mestre Salu, nasceu em Aliança, Zona da Mata Pernambucana. Foi um grande dançarino de cavalo-marinho da região, interpretando diversos personagens. Ele gravou quatro discos: "Sonho da rabeca", "As Três Gerações", "Cavalo-marinho" e "Mestre Salu e a sua Rabeca Encantada".

Considerado um dos precursores do Manguebeat - movimento que ficou ampkamente conhecido na década de 1990 por meio do músico Chico Science - Mestre Salu foi um dos maiores responsáveis pela preservação de manifestações culturais da Zona da Mata, como ciranda, coco, maracatu e caboclinho, além de ter sido tutor de nomes como Siba, Antonio Nóbrega, Gilberto Gil e o próprio Science.

Ele foi o criador do Maracatu Piaba de Ouro, um dos mais premiados do carnaval pernambucano. O pai, João Salustiano, o ensinou a fazer e a tocar a rabeca. Além dos instrumentos, mestre Salu também confeccionava os bichos do bumba-meu-boi, além de máscaras do cavalo-marinho e mamulengos. Salustiano levou sua arte à maioria dos estados brasileiros, álém de países como Cuba, França e Estados Unidos. Recebeu, em 2001, o título de comendador da Ordem do Mérito Cultural do então presidente Fernando Henrique Cardoso.

Ele morreu na manhã do dia 31/08/2008, aos 62 anos, em conseqüência de uma arritmia cardíaca provocada pela Doença de Chagas. Foi enterrado no Cemitério Morada da Paz, em Paulista.

Maurício Reis

(Santa Rita/PB, ********* Bonito/PE, 22/07/2000)

Ídolo da música popular, representante mor do estilo musical chamado “brega”, Maurício Reis morreu no dia 22 de julho de 2000 quando o carro que o conduzia, um Fiat Tempra, afundou nas águas da Barragem do Prata, que haviam inundado a pista da PE-109 por causa das fortes chuvas que caíam na região.

Nascido na cidade de Santa Rita, na Paraíba, João Maurício da Costa adotou o nome artístico de Maurício Reis e teve uma carreira de 29 anos.

O acidente aconteceu no distrito de Alto Bonito, em Bonito, no Agreste. Maurício Reis havia saído de Gravatá, onde morava há sete anos, para fazer um show em Xexéu, na Zona da Mata Sul. O carro estava sendo guiado pelo filho do cantor, o tecladista Maurício Inácio Costa, que sobreviveu ao acidente.

Conhecido no Nordeste como o “Cantor das Rosas”, ele gravou 27 álbuns, entre LPs e CDs. Seus maiores sucessos são "Verônica" e "Mercedão Vermelho".

O LP "Fim de Noivado", lançado pela Phonogram em 1973, disco que contém o clássico "Verônica" (C. Blanco – versão de Fernado Adour), teve a direção de produção assinada por Luis Paulo e Hyldon Souza. Hyldon é o mesmo que em 1975 estourou no país inteiro com as músicas "As Dores do Mundo" e "Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda", ambas de autoria do cantor. Ironicamente, no mesmo disco a música Lenço Manchado (Isaias Souza), narra a história de um acidente automobilístico. Um homem apaixonada recebe a notícia de que sua mulher havia morrido num acidente na estrada. Os demais ocupantes saíram vivos, somente seu amor havia morrido. O único bem que ficou do amor, foi um lenço manchado de sangue. Dramático!

A família do cantor Maurício Reis está processando o Departamento Estadual de Estradas de Rodagem (DER). Marlete Inácio da Costa, viúva do cantor, afirma que o marido morreu porque não havia placas sinalizando as condições da estrada. Ela deu entrada em uma ação na Segunda Vara de Justiça de Gravatá, pedindo indenização por perdas e danos. "Não estipulamos o valor da indenização, deixamos isso para o juiz”, diz Marlete Inácio. “Maurício está fazendo muita falta, tanto para a família quanto para os fãs”, declara Marlete.

O poeta do "Cravo Branco ou Poeta das Rosas",como era conhecido, lançou 27 álbuns em quase 30 anos de carreira. 

Margarida Max

(São Paulo, 1890 **** 1960)

Atriz e cantora, Margarida Max atuou com sucesso no Rio de Janeiro no teatro de revistas ao longo das décadas de 1920 e 1930. Criou a Companha Margarida Max de teatro de revistas que contou em seus quadros com instrumentistas como o paulista Nicolino Cópia, o Copinha.

Filha de italianos, nascida em São Paulo e criada em Franca, onde era conhecida como a Margarida do Max, nome de um eterno noivo, rompeu com a cidade e o noivado ao se tornar atriz de uma companhia itinerante que por lá passou. 

No Rio de Janeiro, adere ao teatro de revista, no qual se torna uma de suas principais vedetes, estrela de grandes montagens, cercada de nomes que ficariam célebres. Sílvio Caldas, Joraci Camargo, Luiz Iglésias, Luiz Peixoto, Olegário Mariano, Vicente Celestino, Otília Amorim, Viriato Correia, Mesquitinha, OduvaldoViana, Palmeirim e tantos outros. 

Em 1925, estreou com grande êxito a revista "Me leva, meu bem", escrita para a Companhia Margarida Max por Joracy Camargo em colaboração com Pacheco Filho.

Em 1927, foi a criadora, juntamente com o cômico Henrique Chaves, da marcha "Dondoca", de José Francisco de Freitas, que lhe dedicou a partitura. Essa composição foi lançada na revista "Sol nascente", de Carlos Bittencourt, Cardoso de Meneses e Alfredo Pujol. 

Em 1929, gravou pela Odeon, com acompanhamento da Orquestra Pan American o samba-canção "Por que foi?", de Pedro de Sá Pereira e Luiz Iglesias, e a marcha "Olha a pomba", de Vantuil de Carvalho. Nesse ano, em uma revista encenada por sua companhia, "Brasil do amor", musicada por Ary Barroso, o então iniciante cantor Sílvio Caldas obteve estrondoso sucesso ao lançar o samba "Faceira", de Ary Barroso, tendo que voltar por cinco vezes à cena por insistência do público. Segundo depoimento do cantor, "E a Margarida Max, a grande atriz, a grande estrela do teatro de revistas, ela que me empurrava, e eu com muito nervoso, né? Com aquela estréia, com aquele sucesso todo". Também nesse ano, gravou pela Brunswick as marchas "Bocas", de Martinez Garu, e "Dona Boia", de Lamartine Babo. 

Em 1935, atuou na revista "Mariúsa", com libreto de Cláudio de Souza, versos de Olegário Mariano e música de Joubert de Carvalho.

Como as demais prima-donas do teatro de revista, Margarida Max lançava músicas, ficando famosa sua interpretação do samba Braço de Cera, de Nestor Brandão. Mas seu grande êxito foi na revista Brasil do Amor, de 1931, quando lança a versão definitiva de No Rancho Fundo, de Ary Barroso e Lamartine Babo. Um sucesso nacional, que saltou do palco da revista para ser cantado pelo Brasil inteiro. 

Embora de curta carreira fonográfica, teve importante papel no teatro de revistas lançando e interpretando composições de reconhecidos compositores brasileiros.

Margarida não teve carreira longa, morreu aos 54 anos, já retirada. Mas antes viveu anos de glória, como uma das mulheres mais cobiçadas da época. 

Fonte: História do Samba - Editora Globo e Dicionario Ricardo Cravo Albin de Musica Popular Brasileira

Mário Lago

(Rio de Janeiro, 26 de novembro de 1911 — Rio de Janeiro, 30 de maio de 2002)

O compositor, letrista, poeta, radialista e ator Mário Lago nasceu no Rio de Janeiro, em 26 de novembro de 1911.

Filho do maestro Antônio Lago e de Maria Vicencia Lago, descendente de italianos.

Aos 7 anos de idade, em 1918, foi internado na Santa Casa vítima de gripe espanhola. No mesmo ano começou a estudar piano com Lucília Villa-Lobos, mulher do maestro Heitor Villa-Lobos

Em 1923, entrou para o Colégio Pedro II, tradicional colégio carioca. Na instituição, liderou uma greve de estudantes contra o uso obrigatório de canetas. Foi o começo de sua militância política

Em 1924, Mário Lago desistiu do piano piano, pois o estudo lhe exige muita disciplina. Entretanto, continuava a ouvir da casa do seu vizinho, o maestro Villa-Lobos, o som da flauta, do saxofone e do violão de Cartola e Pixinguinha que costumvam visitar a casa do músico

Aos 15 anos de idade, Mário Lago publicou seu primeiro poema, "Revelação", na revista "Fon-Fon"e começou a trabalhar no jornal "O Radical".

Formou-se advogado, mas só exerceu a profissão por três meses.

Em 1932, Mário Lago foi preso pela primeira vez. Após um comício na porta da fábrica de tecidos Mavilis, da América Fabril, foi surpreendido pela polícia próximo a uma bandeira do PCB. Ficou dois dias na cadeia. Nessa época passou a ser conhecido no partido pelo nome de "companheiro Pádua"

Em 1933, Mário Lago passou a escrever textos para o teatro de revista e, a partir de 1944, trabalhou durante cerca de 20 anos no rádio. Em 1954, entrou para a televisão, no programa Câmera 1, da TV Rio. Em 1964, o "Compañero Pádua", seu codinome no PCB, teve cassado o seu emprego na rádio Nacional.

Mário Lago manteve o engajamento político por toda a vida e participou de várias campanhas eleitorais após a democratização do país, em 1985. Teve presença também nas campanhas pelas eleições diretas, em 1984, e pela anistia, no final dos anos 70.

Sua estréia como letrista de música popular foi com "Menina, Eu Sei de uma Coisa", parceria com Custódio Mesquita, gravada em 1935 por Mário Reis. Três anos depois, Orlando Silva gravou "Nada Além", da mesma dupla de autores.

Em 1936, Mário Lago e Custódio Mesquita escrevem a peça "Sambista da Cinelândia" que alcançou 200 apresentações. No ano seguinte, tornou-se membro do Cordão do Bola Preta, um dos clubes carnavalescos mais populares do Rio. Em fevereiro, entrou em cartaz a peça "Mamãe Eu Quero", resultado de mais uma parceria com Custódio Mesquita. A peça "Rumo ao Catete" foi encenada em julho do mesmo ano.

Também fez as canções "É Tão Gostoso, Seu Moço", com Chocolate, "Número Um", com Benedito Lacerda, o samba "Fracasso" e a marcha carnavalesca "Aurora", em parceria com Roberto Roberti, que ficou consagrada na interpretação de Carmen Miranda.

As românticas composições de Mário Lago, assinadas com Custódio Mesquita e Sadi Cabral, ganharam o país principalmente na voz de Orlando Silva.

Em 1942, o diretor teatral Joracy Camargo convidou Mário Lago para substituir o galã principal da peça "O Sábio", que não estava satisfazendo o diretor. Assim, por acaso, Mário Lago tornou-se ator. Compõs, no mesmo ano e em parceria com Ataulfo Alves, o samba "Ai, que Saudade da Amélia". Segundo Mário Lago, a 'Amélia' da música seria Amélia dos Santos Ferreira, lavadeira que trabalhava na casa de Aracy de Almeida e de seu irmão, o baterista Almeidinha, e que era capaz de fazer qualquer sacrifício por sua família ou por qualquer pessoa que a ela recorresse.

Os versos "Amélia não tinha a menor vaidade/ Amélia é que era mulher de verdade", ficaram tão populares que se tornaram sinônimo de mulher submissa, dedicada aos trabalhos domésticos, entre outras adjetivações.

Em 1944, Mário Lago começou a trabalhar na Rádio Pan-Americana, de São Paulo, a convite de Oduvaldo Vianna. Na rádio, fez os programas de auditório "Roda Gigante" e "Enigmas Musicais". No mesmo ano, a música "Atire a Primeira Pedra", parceria com Ataulfo Alves, foi gravada e fez enorme sucesso

Em 1945, Mário Lago passou a trabalhar na Rádio Nacional.

Em março de 1947, Mário Lago conheceu Zeli Cordeiro, filha do dirigente comunista Henrique Cordeiro, em um comício do Partido Comunista no Largo da Carioca. Em novembro do mesmo ano, os dois se casaram.

Demitido da Rádio Nacional, em 1948, Mário Lago começou a trabalhar na rádio Mayrink Veiga, onde escreveu a novela radiofônica "Pertinho do Céu".

No ano seguinte, Mário Lago foi preso na redação do jornal clandestino "A Classe Operária". Após ser libertado, deixou a rádio Mayrink Veiga. Em julho do mesmo ano, começou a trabalhar na rádio Bandeirantes, em São Paulo, após convite de Dias Gomes.

Com o PCB na ilegalidade, em 1950, Mári Lago foi candidato a deputado estadual pelo PST (Partido Social Trabalhista) paulista. Durante a campanha, fez um discurso inflamado onde chamou o governador de São Paulo, Ademar de Barros, de calhorda. Mário Lago foi demitido porque Ademar era o dono da rádio Bandeirantes. No mesmo ano, voltou a trabalhar na Rádio Nacional.

Em 1951, produziu o programa "Dr. Infezulino". Ao lado de Paulo Gracindo, foi um dos narradores da famosa novela cubana "O Direito de Nascer". Começou a escrever o seriado "Presídio de Mulheres" que ia ao ar diariamente, durante cinco anos.

Compôs, em 1953, com Chocolate, a música "É Tão Gostoso, Seu Moço", gravada por Nora Ney. Participou do filme "Balança, Mas Não Cai", de Paulo Vanderlei.

Em 1954, Mário Lago estreou na TV no no programa "Câmera Um", na TV Rio. No mesmo ano, compôs, em parceria com Lúcio Alves, o samba "Só Errando o Português".

Em 1955, Mário Lago passou a produzir o programa de variedades "Vitrine Walita" que ia ao ar três vezes por semana. Também atuava no programa "Teatro Moinho de Ouro", da TV Rio.

Viajou, em 1957, para a então União Soviética em companhia de seu cunhado, o jornalista Henrique João Cordeiro.

Em abril 1964, Mário Lago foi preso em sua casa, em Copacabana, no Rio, pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops) e levado para a ilha das Flores. Foi transferido para o presídio Fernandes Viana, na Frei Caneca, e ficou preso por 58 dias. Foi demitido da Rádio Nacional por ter sido da diretoria do Sindicato dos Radialistas. Passou por situação financeira difícil. Para sustentar a família, começou a trabalhar em fotonovelas.

Em março de 1966, Mário Lago foi contratado como ator pela TV Globo. Seu primeiro papel na emissora foi o de Otto Von Lucher, um poderoso coronel nazista, na novela "Sheik de Agadir". Trabalhou no filme "O Padre e a Moça", de Joaquim Pedro.

No ano seguinte, fez o papel de um oficial do Exército no filme "Terra em Transe", de Glauber Rocha

Em 1968, adaptou para a TV Tupi de São Paulo o seriado "Presídio de Mulheres" e atuou no filme "Bravo Guerreiro", de Gustavo Dahl, além de atuar na peça "Os Inconfidentes" que teve direção de Flávio Rangel, poesia de Cecília Meireles e música de Chico Buarque. No dia 14 de dezembro, um dia após a edição do AI-5, Mário Lago foi preso antes de entrar em cena na peça "Inspetor, Venha Comigo". Foi libertado no dia 31 de dezembro do mesmo ano.

Voltou a ser preso em 25 de fevereiro de 1969, por ter feito a tradução de um livro sobre o Vietnã. Voltou à prisão na época da visita do senador norte-americano Nelson Rockfeller ao Brasil.

Em 1979, Mário Lago lançou o livro "Manuscrito do Heróico Empregadinho de Bordel" e também "Reminiscências do Sol Quadrado", em que relata seus meses de prisão nos primeiros dias do regime militar

Em 1980, Mário Lago e outras 35 pessoas foram anistiados e reintegrados à Rádio Nacional.

Sempre atuando na televisão e no cinema, em 1989, Mário Lago participou da campanha eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência da República.

Em comemoração aos seus 80 anos, em 1991, criou um show com músicas e histórias de sua autoria intitulado "Causos e Canções de Mário Lago". No mesmo ano, foi lançado o disco "Nada Além". Recebeu, também, o título de Cidadão Benemérito do Rio de Janeiro e lançou o livro "Segredos de Família", que reúne poesias, crônicas e fotografias dele e dos filhos

Em 1992, Mário Lago estreou o show "Mário Lago - Suas Histórias, Suas Músicas". Em 1996, fez o show "Mário Lago - Histórias e Músicas".

Em 26 de novembro de 2001, a rua Júlio de Castilho, em Copacabana, pára para homenagear o seu morador mais ilustre nos seus 90 anos. Lago participou da festa, ouviu o "Parabéns pra Você" e disse estar "torcendo para chegar aos 100 anos"

Em 16 de janeiro de 2002, recebeu em sua casa, das mãos do presidente da Câmara dos Deputados, Aécio Neves, a medalha do Mérito Legislativo, homenagem aos seus 90 anos.

Na sua última entrevista ao Jornal do Brasil, Mário revelou que estava escrevendo sua própria biografia. Convincente nas palavras, estava certo de que chegaria aos 100 anos. "Fiz um acordo com o tempo. Nem ele me persegue, nem eu fujo dele".

Mário Lago era contratado da Rede Globo e sua última atuação foi a participação na novela "O Clone", em que repetiu o personagem Dr. Molina, médico que combatia a clonagem e a inseminação artificial, já interpretado na novela "Barriga de Aluguel", também de Glória Perez.

Morreu no dia 2 de setembro de 2002, de enfisema pulmonar, aos 90 anos de idade, em sua casa, na Zona Sul do Rio de Janeiro.

Viúvo desde 1997, deixou cinco filhos e nove netos.

Fontes: Sites Wikipedia; MPBNet; Cliquemusic; Folha On Line UOL.

Meire Pavão

(Taubaté - SP - 2 de junho de 1948 **** Santos - SP- 31/12/2008)

A cantora Antônia Maria Pavão, conhecida como Meire Pavão, irmã do também cantor Albert Pavão, foi um dos nomes mais importantes da primeira fase do rock nacional.

Uma das personagens citadas em 'Festa de Arromba', clássico da Jovem Guarda, com Erasmo Carlos, a cantora Meire Pavão é mistério ainda por ser desvendado na história do rock brasileiro. Talvez pelo fato de ter desenvolvido a carreira em um período de transição entre o rock and roll (Celly Campello) e a Jovem Guarda (Wanderléa), ela não teve ainda a devida valorização.

Nascida em Taubaté, filha do maestro Teothônio Pavão e irmã de Albert Pavão, intérprete do clássico 'Vigésimo andar', Meire iniciou a carreira ainda adolescente com o Conjunto Alvorada. Com o grupo vocal, teve programas exclusivos em TVs e deixou algumas pérolas gravadas, em especial 'Lição de Twist', resgatada na coletânea 'Censurar Ninguém se Atreve'.

Em 1964, aos 17 anos, ela assinou com a Chantecler, emplacando imediatamente o sucesso 'O que eu faço do meu latim?', versão do pai para uma música italiana. Puxado pelo hit, lançou em 1965 o seu primeiro disco, o LP 'A Rainha da Juventude' contendo outro de seus grandes sucessos, 'Bem bom', versão para 'Downtown', originalmente gravada por Petula Clark.

Um ano depois, pela nova gravadora, a RCA Victor, saiu o segundo LP, batizado 'Meire', com o maior sucesso de sua carreira, o hit 'Família Buscapé', de autoria do irmão e do pai, pagando tributo aos quadrinhos da infância.

No mesmo disco, entre originais dos Pavão, outras versões destacam-se pela sua originalidade, ou estranheza, como 'Chame um Táxi' (Taxman, dos Beatles).

Maior herança para as futuras gerações, seus dois discos ainda inéditos em CD (exceto por uma edição limitada em cdr da série 'Classic Collection'), são fundamentais para compreender um pouco mais da história do rock brasileiro. Sua versão para "Taxman" também integra a coletânea "Letra e Música de George Harrison".

Neles, ouve-se uma cantora dona de um jeito limpo e quase lírico de cantar e um repertório de originais e versões extremamente particular, além dos padrões da época. Na verdade, Meire Pavão aproximava-se mais do estilo de cantoras como Cilla Black, Sandie Shaw, Mary Hopkins ou Lulu, do que das novas estrelas da Jovem Guarda.

Até 1969, quando afastou-se da música para fazer vestibular, Meire ainda emplacou mais um hit, a música 'Monteiro Lobato'.

Meire Pavão atuou na televisão, em programas humorísticos ("O Riso Mora ao Lado), de auditório ('A Grande Parada', com Wanderley Cardoso) e novelas ('Sozinho no Mundo').

Sua última apresentação, segundo conta o irmão Albert Pavão, no livro 'Rock Brasileiro, 1955-65', foi em São Paulo, na cervejaria Urso Branco, ao lado do grupo vocal Os Vikings.

Em 1974, ao lado de Albert, do pai, dos Vikings e de Thomas Roth, Meire Pavão retornou ao mundo musical para gravar discos infantis, produzindo alguns clássicos do gênero sob os nomes de Quarteto Peralta e Trio Patinhas.

Meire Pavão faleceu, aos 60 anos de idade, de insufiência respiratória provocada por um câncer, no dia 31 de dezembro de 2008.

Fontes: Sites Jovem Guarda; Senhor F

Mauro Celso

(São José do Rio Pardo, 10/11/1951 ***** Iguape/SP, 15/41989)

O cantor ficou famoso em 1975 após participar da segunda eliminatória do festival Abertura, da TV Globo. Enquanto cantava "Farofa-fá", o público do festival delirava com o ritmo alegre e cantava simultaneamente a música despretensiosa de Mauro Celso. Os jurados não gostaram da letra de Mauro, preferiram Carlinhos Vergueiro, com "Como Um Ladrão" e a música "Muito Tudo", de Walter Franco. O público que naquela noite de janeiro de 75, lotou o Teatro Municipal de São Paulo, não sentiu nas músicas dos outros participantes, a mesma empolgação clara e vibrante de "Farofa-fá".

Mauro Celso foi lançado pela RCA no mercado fonográfico cantando duas músicas de sua autoria em compacto simples. De um lado do disco a comestível "Farofa-fá", acompanhada por "Coceira" do lado B, ambas com arranjos do maestro Daniel Salinas.

Com a música "Farofa-fá", o cantor conquistou posição privilegiada dentre as dez músicas mais tocadas do Brasil, público de todas as idades e principalmente o público infantil. Ganhou as paradas do rádio e tornou-se famoso nacionalmente da noite para o dia, com uma letra que ele mesmo considerava simples e portanto popular.

A gravadora RCA, que já havia engordado com tanta farofa, lançou no mesmo ano, o LP de Mauro Celso. A nova música faria tanto sucesso quanto a primeira. As poucas pessoas que não gostaram de "Farofa-fá", se renderam ao sucesso contagiante de "Bilu-Tetéia", dançando alegremente nos bailes de carnaval.

"Bilu-Tetéia" foi lançada no segundo compacto (duplo) de Mauro Celso, contendo além de "Bilu-Tetéia", "Coisa Com Coisa" (Mauro Celso e João Barata), "Fumaçá" e "Coceira", que tentava pela segunda vez entrar no gosto do povo, mas foi rejeitada por se parecer tanto com a original "Farofa-fá".

O LP "Mauro Celso Para Crianças Até 80 Anos", veio envolto em alegria com 12 letras criativas e músicas contagiantes. Com direção artística de Osmar Zan e regências de Daniel Salinas, o LP trouxe ainda outros compositores além de Mauro, que assinou a maioria. Gabino Correa (pai da cantora Júlia Graciela) assina Mikitila e o compositor Joca de Castro participa como autor da música Olhar de Jacaré. O disco foi bem sucedido em vendagens e execução. Além de "Bilu-Tetéia", a música "Coró-Cocó", narrando a história do galo carijó, caiu no gosto da criançada e conquistou as rádios do país.

Pelo sucesso que fazia com suas músicas, recebia convites de todos os estados do Brasil para fazer apresentações.

O autor de músicas alegres e que conquistou todos os públicos, em especial o público infantil da década de 70, morreu em abril de 1989 amassado dentro dos destroços do carro que lhe conduzia ao encontro da mulher e do filho René.

Mauro Celso estava em São Paulo fazendo shows e trabalhando muito, quando interrompeu as atividades para matar a saudade da família em Iguape, cidade do litoral paulista. Não estava voltando para casa pois morava com a família em Osasco. Na companhia de um amigo, ele dirigia seu carro quando perdeu a direção na velha rodovia de Iguape. O carro de Mauro Celso capotou diversas vezes e ele teve morte instantânea. Segundo sua sobrinha ele morreu na verdade, afogado nesse acidente.

Assim, aos 39 anos de idade, morria o cantor e autor de hit’s como "Farofa-fá" e "Bilu-tetéia", músicas que ganharam as paradas do sucesso e estão cristalizadas na memória do povo brasileiro.

Fonte: musicapopulardobrasil.blogspot

Mário Reis

(Rio de Janeiro/RJ, 31/12/1907 ****** Rio de Janeiro/RJ, 4/10/1981)

Conhecido como o “Bacharel do Samba”, Mário da Silveira Meireles Reis, foi um dos mais populares cantores da era do rádio.

Filho de um próspero comerciante, passou sua infância no bairro da Tijuca. Cursou o primário e secundário no Instituto Lafayette.

Aos 15 anos de idade jogou como meia esquerda na equipe juvenil do América Futebol Clube.

Nascido em uma família carioca abastada, começou a ter aulas de violão com Carlos Lentine na mesma época em que ingressou na faculdade de Direito, por volta de 1926. O segundo professor foi Sinhô (que conheceu na loja A Guitarra de Prata), conhecido como Rei da Samba, que, impressionado com o aluno, resolveu levá-lo para uma gravadora.

Mário Reis inaugurou em estilo de cantar diferente do que havia no Brasil até então. Ao contrário dos vozeirões do rádio, cantava coloquial, com outro timbre e uma divisão rítmica mais ágil, dando uma interpretação diferente às canções.

Seus primeiros sucessos foram gravações de músicas de Sinhô, como "Que Vale a Nota sem o Carinho da Mulher" "Jura" e "Gosto que Me Enrosco", essas duas últimas do compacto que foi seu primeiro grande êxito.

Foi colega de Ary Barroso na Escola de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, e foi o primeiro intérprete a gravar uma música do então desconhecido pianista e compositor: o samba "Vou à Penha", em 1929. No ano seguinte começou a gravar uma série de discos em dupla com o vozeirão de Francisco Alves, fórmula que mostrou-se extremamente bem-sucedida, e imitada, entre outras, pela dupla Jonjoca e Castro Barbosa. Apesar de ter-se formado em 1930, não chegou a advogar.

Apresentou-se cantando nas Rádios Sociedade, Clube, Philips (programa Casé) e Mayrink Veiga.

Na década de 30 firmou-se como um dos maiores intérpretes de Noel Rosa, que também foi seu parceiro. Entre essas gravações estão a de "Filosofia" (Noel/ André Filho) e "Meu Barracão".

Por ser contratado exclusivo da Odeon, em 1931, visitando São Paulo, gravou na Columbia um disco com o pseudônimo de C. Mendonça. As faixas: Não me perguntes, de Joubert de Carvalho e Quem ama não esquece, do próprio Mario Reis.

Ainda em 1931, excursionou com Francisco Alves, Carmen Miranda, Luperce Miranda, entre outros, por Buenos Aires, Argentina.

Gravou, em 1933, dois grandes sucessos de Lamartine Babo, "Linda Morena" e "A Tua Vida É um Segredo", e no ano seguinte "Alô Alô" (André Filho) em dueto com Carmen Miranda.

Em sua carreira fez parte do elenco dos filmes Alô, alô, Brasil, cantando Rasguei a minha fantasia, Estudantes, cantando Linda Mimi e Linda Ninon (ambos os filmes de Wallace Downey de 1935) e Alô, alô, Carnaval, cantando Cadê Mimi e Teatro da vida (filme de Ademar Gonzaga de 1936).

Outro grande êxito foi com "Agora É Cinza", de Bide e Marçal, que nos anos 80 voltaria a ser sucesso com Mestre Marçal, filho do compositor.

Afastou-se da vida artística somente voltando em 1939, a pedido da 1ª dama Dona Darcy Vargas, no espetáculo “Joujoux e Balangandãs” realizado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Nele interpretou “Voltei a cantar” e, em dueto com Maria Clara Correia, “Joujoux e Balangandãs”, ambas de autoria de Lamartine Babo. Por esta ocasião gravou ainda três discos, dentre as músicas “Voltei a cantar”.

Mário Reis se apresentou vestido de casaca e na entrevista que concedeu à Rádio Jornal do Brasil ele diz que esta foi a primeira vez que o samba entrou no Municipal e de casaca. A festa ocorreu nos dias 28 e 30 de julho de 1939 e tratava-se de uma seqüência de cenas costuradas por um texto de Henrique Pongfetti, Lea Azevedo da Silveira e Ilda Boavista transformando-se no show de elite mais comentado da época. Depois de gravar essas músicas, e mais dois discos na Columbia, afastou-se novamente da vida artística.

Não era de dar entrevistas, não gostava de ser fotografado ou aparecer em público, daí talvez a razão de seu declínio na vida artística. Trabalhou então como oficial do gabinete da prefeitura do então Distrito Federal.

Em sua carreira gravou ao todo de 163 músicas, quase que exclusivamente sambas e marchinhas.

Em 1957, passa a residir no Copacabana Pálace Hotel e em 1960 aceita o convite de Aluísio de Oliveira para gravar o LP “Mário Reis canta suas criações em Hi-Fi”. Em 1967, ao lado de Billy Blanco, Aracy de Almeida e Ciro Monteiro grava o LP “O melhor do samba”. Em 1971, lançou novo LP gravando novamente antigos sucessos e um novo, “A Banda” de Chico Buarque. Este LP foi lançado com apenas 11 músicas pois uma foi censurada, “Bolsa de amores”, de Chico Buarque.

A forma inovadora de Mário Reis cantar, adiantando ou atrasando a melodia nos compassos, influenciou pelo menos dois dos maiores cantores brasileiros, Orlando Silva e João Gilberto.

Mário Reis morreu aos 74 anos, mas deixou o legado de se ser o primeiro inovador na música popular brasileira e ao contrário do que ele poderia pensar, os seus sucessos em discos de 78 rpm não desapareceram e estão sendo catalogados, restaurados e digitalizados agora pelo Collector´s Studios, para deleite de seus fãs e das novas gerações. 

Monsueto

(Rio de Janeiro/RJ, 4 de novembro de 1924 — Rio de Janeiro/RJ, 17 de março de 1973)

Monsueto Campos de Menezes foi um sambista, cantor, compositor, instrumentista, pintor e ator.

Criado na Favela do Pinto, Monsueto perdeu os pais muito cedo, tendo sido criado por uma avó.

Sambista que transitava por todas as escolas de samba sem ser diretamente vinculado a nenhuma, é o autor de sambas clássicos como "Mora na Filosofia" e "Me Deixa em Paz".

Tocou como baterista em alguns conjuntos, inclusive no Copacabana Palace. Seu primeiro grande sucesso foi "Me Deixa em Paz" (com Airton Amorim), gravado em 1952 por Marília Batista. Em seguida outros intérpretes gravaram outras composições de sua autoria.

Além de compositor, Monsueto brilhou como ator cômico em filmes, shows de variedades e na televisão. Atuou no cinema trabalhando em 14 filmes – onze brasileiros, três argentinos e um italiano. Entre os nacionais, participou de "Treze Cadeiras" (de Franz Eichhorn), "Na Corda Bamba" (de Eurides Ramos), "O Cantor Milionário" e "Quem Roubou meu Samba" (ambos de José Carlos Burle), mas não chegou ao final das filmagens de "O Forte", em 1973, vindo a falecer.

Integrou espetáculos produzidos por Herivelto Martins, com o qual viajou para Europa, África e América, e até montar seu próprio grupo, sempre cercado de cabrochas e outros cantores.

No palco, entre os anos 50 e 60, no auge de sua carreira como showman na TV, participou de diversos programas como Noites Cariocas, na TV Rio, ganhando o apelido de Comandante por causa de um dos esquetes que criou.

A cantora Beth Carvalho também riu muito com seus esquetes em programas de TV. "Ele era cômico, fazia umas blagues, tipo Mussum. Era o Mussum da época".

Quem também lembra muito bem dessa sua faceta humorística é o compositor João Roberto Kelly. "Ele trabalhou na TV Rio na década de 60 e tive o prazer de tê-lo em quadros musicados por mim, em programas como Praça Onze e O Riso É o Limite", conta. "Monsueto era histriônico. Não era de chegar e fazer um monólogo como ator, ele fazia um tipo com muita graça. Era um crioulo de 1,80m, gordo, grandão com um sorriso maior que o tamanho dele, além de um compositor inspiradíssimo", elogia. Beth também riu muito com seus esquetes em programas de TV. "Ele era cômico, fazia umas blagues, tipo Mussum. Era o Mussum da época".

Quem também lembra muito bem dessa sua faceta humorística é o compositor João Roberto Kelly. "Ele trabalhou na TV Rio na década de 60 e tive o prazer de tê-lo em quadros musicados por mim, em programas como Praça Onze e O Riso É o Limite", conta. "Monsueto era histriônico. Não era de chegar e fazer um monólogo como ator, ele fazia um tipo com muita graça. Era um crioulo de 1,80m, gordo, grandão com um sorriso maior que o tamanho dele, além de um compositor inspiradíssimo", elogia. Além disso, Kelly diz que era excelente ritmista e baterista. "Ele tocava pandeiro, surdo, reco-reco, chegou a participar de várias gravações como músico de estúdio."

O auge da popularidade de Monsueto, como compositor, se deu por volta do fatídico ano de 1964, quando Helena de Lima, experimentadíssima cantora de boate, gravou, ao vivo, o vinil 'Uma Noite no Cangaceiro' (boate da moda na época), incluindo num eletrizante 'pout-pourri' de sambas, duas músicas dele: 'Mora na Filosofia' e 'A Fonte Secou'.

No fim da década de 60, Monsueto passou a dedicar-se mais à pintura primitivista, participando de exposições e recebendo prêmios.

Em 1970, Monsueto participou da gravação de "Tonga da Mironga do Kabuletê", que marcou o início do êxito da dupla Toquinho/ Vinicius de Moraes.

Depois de sua morte outros cantores e compositores regravaram suas músicas, dando a Monsueto o merecido destaque. Alaíde Costa gravou "Me Deixa em Paz" no disco "Clube da Esquina", de Milton Nascimento, Caetano Veloso gravou "Mora na Filosofia" no disco "Transa", e muitos outros.


Gravações de Monsueto

Todas compostas pelo próprio, exceto onde notado.

A fonte secou (com Tufi Lauar e Marcléo)
Eu quero essa mulher assim mesmo (c/ José Batista)
Me deixa em paz (com Aírton Amorim)
Mora na filosofia (com Arnaldo Passos)
Couro do falecido (com Jorge de Castro)
Tá pra acontecer (com José Batista e Ivan Campos)
Levou fermento (com José Batista)
Me empresta teu lenço (com Elano de Paula e Nicolau Durso)
Rua Dom Manuel (com Jorge de Castro)
Senhor Juiz (com Jorge de Castro)
Prova Real (de Oderlandes Rodrigues, Edson Santana e Amado Régis)
Bola Branca (de Antônio Guedes, Otávio Lima e Estanislau Silva)
Chica da Silva (de Anescar e Noel Rosa)
Maria Baiana
Sambamba
Copacabana de tal
Este samba tem parada
Água e azeite (com Estanislau Silva)
Na menina dos meus olhos (com Flora Mattos)
Lamento da lavadeira (com João Vieira Filho e Nilo Chagas)
Na casa de Antônio Jób (com Venâncio)
Nó molhado (com José Batista e Ivan Campos)
Morfeu (com Luiz Reis)
Segunda Lua-de-Mel (com Flora Mattos)
Fogo no morro (com José Batista)
Aula de samba francês
Mané João (com José Batista e Ivan Campos)
Retrato de Cabral (com Raul Marques)

Monsueto morreu no dia 17 de março de 1973.


Fontes: Sites Dicionário Cravo Albin de MPB; Wikipédia 

Marília Batista

(Rio de Janeiro/RJ, 13-4-1918 ******** Rio de Janeiro, 9-7-1990)

Marília Monteiro de Barros Batista era filha do médico do Exército Renato Hugo Batista e da pianista Edith Monteiro de Barros Batista, tinha dois irmãos Renato e Henrique, também compositores. Herdeira de tradicional família da sociedade carioca, neta do poeta e Barão Luís Monteiro de Barros, mostrou, desde menina, seu interesse pela música.

Aos seis anos, "ganhou" o primeiro violão por acaso. O barbeiro da família, numa ida à sua casa para cortar os cabelos do pai e do irmão, esqueceu lá o seu instrumento. A menina não largou nunca mais o violão, que seria uma de suas eternas paixões. Aos oito anos, já compunha. Estudou no Instituto Nacional de Música (atual Escola de Música da UFRJ), onde formou-se em teoria, solfejo e harmonia, apesar de abandonar o curso de piano no 4º ano.

A 29 de agosto de 1930, com 12 anos, levada pelo jornalista Lauro Sarno Nunes (pai de Max Nunes), deu seu primeiro recital de violão no Cassino Beira-Mar, cantando entre canções sertanejas, sambas e cateretês, suas primeiras composições. Começou a estudar violão com Josué de Barros aos 12 anos, por iniciativa do próprio violonista, que depois de ficar encantado com o recital da menina fez questão de ministrar-lhe aulas de graça. Estudou com Josué durante seis meses, mas depois, como pretendia ser concertista passou a estudar violão clássico com o virtuose José Rebelo. Porém seu interesse pela música popular sempre foi mais forte.

Em 1931, com apenas 14 anos, foi convidada para cantar no espetáculo "Uma Hora de Arte", no Grêmio Esportivo Onze de Junho, onde conheceu Noel Rosa. Tornaram-se grandes amigos e até hoje Marília é considerada pelos historiadores da MPB como a intérprete favorita de Noel, ao lado de Aracy de Almeida. Ainda em 1931, em festa realizada na casa da cantora Elisinha Coelho conheceu grandes nomes da música popular da época como Maestro Heckel Tavares, o compositor Luís Peixoto, Almirante e o Bando dos Tangarás.

Em 1932, gravou seu primeiro disco, com composições suas em parceria com seu irmão Henrique Batista: o samba "Pedi, implorei" e a marcha "Me larga".

Em 1933, é convidada por Almirante para fazer parte do oitavo "Broadway Cocktail" (show que precedia o filme no Cine Broadway), ao lado de grandes nomes da música popular de então como Sílvio Caldas, Jorge Fernandes e Rogério Guimarães. O sucesso foi tanto que a jovem cantora recebeu convite de Ademar Casé para integrar o famoso "Programa Casé", na Rádio Phillips, com um contrato altíssimo para a época (45 mil-réis). No Programa Casé, em dupla com Noel Rosa, ficaram famosos os improvisos com o samba "De babado" ( Noel e João da Mina) e dos versinhos das propagandas de anunciantes do programa. Os improvisos, às vezes, chegavam a durar 10 minutos sem repetição de versos criados na hora por Marília e o parceiro Noel. Marília chegou a criar um prefixo para sua participação no programa: "Fala o Programa Casé!/ Veja se adivinha quem é.../ Faço a pergunta por troça/ pois todo mundo já conhece/ A garota da voz grossa.". Foi no programa que a cantora lançou o samba de Noel "Pela décima vez", em 1935. Neste ano, gravou com Noel Rosa o disco com o famoso samba "De babado" e com o samba "Cem mil-réis", de Noel e Vadico.

Um de seus passatempos favoritos era tricotar, atividade que exercia nos intervalos dos programas de rádio de que participava. Ainda em 1935, gravou novos discos com Noel, o primeiro, com "Provei", de Noel e Vadico e "Você vai se quiser", de Noel, pela Odeon (acompanhados pelo conjunto de Benedito Lacerda) e o segundo e último disco gravado por Noel, com "Quem ri melhor", samba de Noel e "Quantos beijos", de Noel e Vadico, pela RCA Victor. Nessa época, recebeu o título de "Princezinha do samba". Integrou o elenco da Rádio Nacional, desde a sua inauguração, em 12 de setembro de 1936.

Para a rádio, passou a fazer parte do grupo vocal As Três Marias, com o qual acompanhava cantores da emissora e que gravou alguns discos. Depois da morte de Noel Rosa, foi à Marília que D. Martha, a mãe do compositor, deu os manuscritos do filho. Marília entregou-os às mãos de Almirante, que os conservou cuidadosamente.

Em 1940, gravou pela RCA Victor o samba "Silêncio de um minuto", de Noel.

Em 1943, participou como integrante d´As Três Marias do filme "É proibido sonhar", do diretor Moacir Fenelon, cantando "São João", samba de José Carlos Burle.

Participou do programa de apresentação do novo programa de Almirante, em seu retorno à Rádio Nacional, em 14 de março de 1944.

No ano de 1945 casou-se e interrompeu por alguns anos suas atividades musicais, retornando à vida artística cinco anos depois, quando lançou pela Musidisc o LP " Samba e outras coisas", que reuniu as composições que fez com o irmão Henrique Batista - " Nunca mais", " Você não é feliz porque não quer", "Imitação", " Vai, eu te dou liberdade", " Praia da Gávea", " Vila dos meus amores" e mais duas composições de Noel Rosa.

Na década de 1950, algumas de suas músicas passaram a ser difundidas, entre elas "Praça Sete", gravada com sucesso por Elizeth Cardoso.

Em 1954, gravou um LP só com músicas de Noel Rosa, nele incluindo o samba Tipo zero.

No ano de 1963, Marília Batista gravou o LP duplo "História musical de Noel Rosa", pela Nilser, de Nilo Sérgio. Chegou a musicar dois versos de Noel Rosa, póstumamente, "Balão apagado"e "João Teimoso".

Em 1967 voltou a gravar sambas desse compositor. Ainda na década de 60, resolveu voltar a estudar e formou-se em Direito.

Em 1988, quando participou do projeto "Corcerto ao meio dia", no Teatro João Teotônio, entrevista musical conduzida por Ricardo Cravo Albin, chegou a ir às lágrimas com o tributo de aplausos que recebeu da platéia que superlotava o teatro. Deixou cerca de 30 registros gravados em 78 rpm e vários LPs.

Fonte: Cantoras do Brasil.