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terça-feira, 27 de novembro de 2012

Francisco Egydio

(São Paulo/SP, 17/01/1927 ******* São Paulo/SP, 17/10/2007)

O cantor e compositor Francisco Egídio dos Santos, também grafado Francisco Egídio, nasceu em São Paulo SP em 17 de janeiro de 1927.

Dos 14 aos 24 anos participou de programas de calouros em várias emissoras de rádio, entre os quais o Peneira Rodhine, da Rádio Cultura, de São Paulo, onde cantava sucessos da época, principalmente de Nelson Gonçalves, Francisco Alves e Orlando Silva.

De 1946 a 1950 serviu na polícia militar da Aeronáutica, de onde saiu como cabo. Em 1951, participou do concurso O Cantor dos Bairros, da Rádio Excelsior, de São Paulo, obtendo o primeiro lugar e contrato de experiência por três meses na própria emissora. Nessa época, a Rádio Excelsior passou para as Organizações Vítor Costa e assim ele foi incluído no seu quadro artístico.

Francisco Egydio gravou pela primeira vez como cantor em 1953, na Copacabana, com as músicas Rascunho brasileiro (Polera) e uma versão do tango "Sin Palabras". Fez grande sucesso com a interpretação de "Creio em Ti", versão que lhe deu o troféu Roquete Pinto em 1960, ano em que deixou a Organização Vítor Costa.

Em 1966, Francisco Egydio viajou por Portugal e África, fazendo várias apresentações durante dois anos. De volta ao Brasil, excursionou pela Argentina, Uruguai e Paraguai.

Em 1970, Francisco Egydio gravou sua própria composição "Bamboleando", na Odeon.

Francisco Egydio também participou de filmes, como ator, entre os quais "Bruma Seca" (1960) e "A Marcha", de Osvaldo Sampaio, em 1972.

O cantor era presença constante do lendário programa "Festa baile", da TV Cultura.

Francisco Egydio faleceu em 17 de outubro de 2007, em São Paulo, SP, aos 80 anos de idade, de causa não revelada.

Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora - PubliFolha; CineTV Brasil.

Francisco Petrônio

(São Paulo/SP, 8 de novembro de 1923 — 1São Paulo/SP, 9 de janeiro de 2007)

O cantor Francisco Petrônio, nome artístico de Francisco Petrone, nasceu em São Paulo, em 8 de novembro de 1923.

Desde criança, Francisco Petrônio pensava em ser cantor. Trabalhando como motorista de táxi, conheceu o cantor Nerino Silva que o levou para um teste em um programa na Rádio Tupi.

Aprovado, Francisco Petrônio iniciou carreira profissional na emissora em 1961, ano em que gravou seu primeiro disco, um compacto na Chantecler, com o bolero "Agora" (Augusta de Oliveira e Antônio Soares) e "Não Me Fale Dela" (Cláudio de Barros).

Francisco Petrônio especializou-se em canções da chamada Velha Guarda, como valsas, serestas e baladas de compositores brasileiros que refletiam imagens do passado. Obtendo sucesso no gênero, Francisco Petrônio fez vários shows na capital e interior de São Paulo, ganhando grande popularidade e sendo chamado de "Voz Veludo Brasil".

Gravou os LPs "Um Brasileiro na Itália", volumes I e II, pela Continental.

Em 1965, Francisco Petrônio foi a Portugal, contratado para um show no Cassino Estoril. Retornou ao Brasil e, entrando em contato com o Clube da Saudade, de São Paulo, passou a ser o maior divulgador do Baile da Saudade, percorrendo cidades com sua equipe de músicos para tocar em festas, com repertório de músicas e ritmos do passado.

Gravou, então, o LP de grande sucesso "Baile da Saudade", pela Continental, e, em 1966, foi convidado a apresentar mensalmente o programa do mesmo nome na TV Globo, de São Paulo, obtendo êxito.

Dois anos depois, produziu seu próprio programa "Baile da Saudade", na Rádio Gazeta, passando para a Rádio América, depois para a Nove de Julho e Record.

Formou a "Orquestra da Saudade", com casais dançando, continuando a divulgar o "Baile da Saudade" em clubes e excursões pelo Brasil. Dedicou-se, depois, a regravações de antigos sucessos, como os CDs "Trinta Anos de Saudade", de 1995, e "Lembranças", de 1997, ambos pela RGE.

Francisco Petrônio faleceu em São Paulo em 19 de janeiro de 2007, de infecção generalizada, aos 83 anos de idade.

Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora - PubliFolha.

Francisco Alves

(Rio de Janeiro/RJ, 19 de agosto de 1898 — Pindamonhangaba/SP, 27 de Setembro de 1952)

Francisco de Morais Alves, conhecido como Francisco Alves, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 19 de Agosto de 1898.

Filho de portugueses, nasceu na rua Conselheiro Saraiva, no centro, sendo criado nos bairros da Saúde, Estácio e Vila Isabel. Seu pai tocava alguns instrumentos e era dono de botequim. Cursou apenas a escola primaria e desde cedo interessou-se pela música. Da irmã Nair ganhou uma guitarra e as primeiras lições. Começou sua carreira de cantor em abril de 1918, na Companhia de João de Deus-Martins Chaves. Depois ingressou na Companhia de Teatro São José, do empresário José Segreto.

Em 1919, para o Carnaval de 1920, levado por Sinhô, gravou na etiqueta Popular (recém-fundada por Paulo Lacombe e João Batista Gonzaga, suposto filho de Chiquinha Gonzaga) dois discos com a marcha O pé de anjo e os sambas Fala meu louro e Alivia estes olhos, todas de Sinhô. Ganhava a vida como motorista de praça, apresentando-se como cantor-ator secundário de revistas musicais. Casou-se em 1920 com Perpétua Guerra Tutóia, de quem logo se separou. No mesmo ano conheceu a atriz-cantora Célia Zenatti, sua companheira por 28 anos. Em 1924 gravou para o Carnaval dois discos na Odeon, com o samba Miúdo (Sebastião Santos Neves) e as marchas Não me passo pra você e M.lle. Cinema (ambas de Freire Júnior). Voltou em 1927 a Odeon na qual rapidamente gravou 11 discos com 19 músicas ainda no sistema mecânico, com destaque para Cassino Maxixe (primeira versão de Gosto que me enrosco) e Ora vejam só, sambas de Sinhô. Em julho de 1927, quando a Odeon inaugurou no Brasil o sistema elétrico de gravações, foi o interprete da marcha Albertina e do samba Passarinho do má (ambas de Duque), as duas faces do primeiro disco produzido eletricamente, o Odeon 10.001. Em 1928 passou a gravar concomitantemente na Parlophon, subsidiaria da Odeon, utilizando o apelido de Chico Viola. Em fevereiro de 1929 fez sua estreia no radio, apresentando-se na Rádio Sociedade. Seus discos começaram a sair em profusão e sem tardar alcançou o topo do qual jamais saiu até falecer. Só em 1928 e 1929 gravou quase 300 musicas de reconhecida qualidade. Interpretou todos os gêneros e foi quem mais gravou em toda a historia dos discos de 78 rpm no Brasil: 526 discos com 983 musicas. Como compositor deixou cerca de 132 musicas, sendo seu forte a melodia.

Em 1928 fez na Parlophon o primeiro registro da canção A voz do violão, melodia sua e versos de Horácio Campos, grande sucesso, tanto que a regravou em 1929, 1939 e 1951. Nesse ano também lançou de Sinhô os sambas A favela vai abaixo, Ora vejam só (segunda matriz) e Não quero saber mais dela, em dueto com Rosa Negra, e de Pixinguinha com letras de Cícero de Almeida os sambas Festa de branco e Samba de nego, bem como a modinha Malandrinha, de Freire Júnior, e a canção Lua nova, sua e de Luís Iglesias. Nos anos de 1929 e 1930, de campanha presidencial, foi quem mais gravou canções de conteúdo político, como em 1929, o samba É sim senhor e a marcha Seu doutor (ambos de Eduardo Souto), a marcha Seu Julinho vem (Freire Júnior), e, em dueto com Araci Cortes, o samba É no toco da goiaba (Eduardo Souto e José Jannyni). No Carnaval de 1930 obteve notável êxito com a marcha Dá nela (Ary Barroso). Outro sucesso memorável foi sua gravação do Hino a João Pessoa (Eduardo Souto e Osvaldo Santiago), antes da revolução de outubro desse ano, durante o qual também excursionou pela primeira vez ao exterior, apresentando-se em Buenos Aires, Argentina, com a companhia de revistas musicais de Jardel Jercolis.

Na volta a Odeon reuniu-o a Mário Reis, por sugestão sua, para cantarem em dupla, estreando com os sambas Deixa essa mulher chorar (Brancura) e Qua-qua-quá (Lauro dos Santos), êxitos no Carnaval de 1931. A dupla durou ate o final de 1932 e deixou 12 discos com 24 gravações importantes, entre as quais o samba Se você jurar (1931), com Ismael Silva e Nilton Bastos, Marchinha do amor (1932), de Lamartine Babo, a marcha Formosa (Carnaval de 1933), de Nássara e J. Rui, e Fita amarela (Carnaval de 1933), de Noel Rosa.

Em 1931 gravou entre outros sucessos a versão da valsa Dançando com lagrimas nos olhos (Joe Burke e Lamartine Babo), a modinha Deusa (Freire Júnior) e o samba Mulher de malandro (Heitor dos Prazeres), no Carnaval de 1932, primeiro prêmio no primeiro concurso oficial de musicas carnavalescas. Ainda nesse ano lançou o samba Gandaia (seu com Ismael Silva) e Para me livrar do mal (Ismael e Noel Rosa) e começou sua parceria com Orestes Barbosa, apenas letrista, com a canção Meu companheiro, que produziu 14 composições ate 1934. Em 1933 gravou de Noel Rosa os sambas Fita amarela, já referido, Pra esquecer, Feitio de oração (com Vadico) em dueto com Castro Barbosa, Não tem tradução, entre outros, bem como a marcha junina Cai, cai balão (Assis Valente), com Aurora Miranda em sua estreia no disco, a rumba Garimpeiro do Rio das Garças (João de Barro), a canção Pálida morena (Freire Júnior). Nesse ano, o locutor César Ladeira deu-lhe o slogan de Rei da Voz. Em 1934 transferiu-se para a RCA Victor, na qual ficou ate 1937. Passou a dirigir um programa na Radio Cajuti, nele 1ançando o cantor Orlando Silva, que se tornaria seu grande rival junto ao publico. Ainda em 1934 gravou a valsa A mulher que ficou na taça (sua com Orestes) e fez aquele que seria seu único disco com Carmen Miranda, com a marcha Retiro da saudade (Noel Rosa e Nássara). Tinha se iniciado de certa forma no cinema em Voz do Carnaval (1933), de Ademar Gonzaga, no qual foi aproveitada apenas sua voz tirada de discos. Em 1935 estreia de fato na tela em Alô, alô Brasil, de Wallace Downey, João de Barro e Alberto Ribeiro, a que se seguiriam os filmes Alo, alo Carnaval, de Ademar Gonzaga (1936), Laranja da China (1940), de J. Rui, e Samba em Berlim (1943), Berlim na batucada (1944), Pif-paf (1945), Caídos do céu (1946) e Esta e fina (1948), todos de Luís de Barros.

No Carnaval de 1935 lançou o samba Foi ela (Ary Barroso) e a marcha Grau dez (Ary e Lamartine) e depois o samba Na virada da montanha (mesma parceria). Depois de vários anos, e pela ultima vez, atuou no teatro musicado na bem sucedida burleta Da favela ao Catête, de Freire Júnior. No Carnaval de 1936 lançou as marchas Manhas de sol (João de Barro e Alberto Ribeiro), Uma porta e uma janela (Nássara e Roberto Martins), A.M.E.I. (Nássara e Frazão), os sambas É bom parar (Rubens Soares) e Me queimei (Nássara e Valfrido Silva) e no meio do ano o samba Favela (Roberto Martins e Valdemar Silva). Nas festas juninas foi muito cantada a marcha Pula a fogueira (Getúlio Marinho e João Bastos Filho). Nesse ano apresentou-se na Radio El Mundo, de Buenos Aires, por dois meses, tendo levado Alzirinha Camargo e Benedito Lacerda, e também publicou sua autobiografia Minha vida, minha vida. Em 1937 gravou o samba-canção Serra da Boa Esperança (Lamartine Babo). Em 1938, no Carnaval pernambucano, marcou sucesso com as gravações dos frevos Ui, que medo eu tive! (Anibal Portela e José Mariano) e Júlia (Capiba) e, no Carnaval carioca, com os sambas Ando sofrendo (Roberto Martins e Alcebíades Barcelos) e Vão pro Scala de Milão (Ary Barroso). Nos gêneros sentimentais, lançou o samba-canção A única lembrança (Ary Barroso) e a canção Meu romance (Saint-Clair Senna).

Em 1939 registrou as valsas Diga-me e Minha adoração (ambas de Nelson Ferreira) e Valsa dos namorados (Silvino Neto) e o gênero a que se chamou "samba-exaltação" com Aquarela do Brasil (Ary Barroso), designado no selo do disco "cena brasileira". Transferiu-se para a Columbia e gravou nesse gênero Brasil! (Benedito Lacerda e Aldo Cabral), em dueto com Dalva de Oliveira, 1939; Onde o céu azul e mais azul (João de Barro, Alberto Ribeiro e Alcir Pires Vermelho), 1940; Canta Brasil! (Alcir e Davi Nasser), 1941; Bahia com H (Denis Brean), 1947; São Paulo, coração do Brasil (com Davi Nasser), 1951, e outros. Em 1940 lançou no Carnaval a marcha Dama das Camélias (Alcir e João de Barro) e os sambas Solteiro e melhor (Rubens Soares e Felisberto Silva) e Despedida de Mangueira (Benedito Lacerda e Aldo Cabral). Em 1941 lançou os sambas carnavalescos Poleiro de pato e no chão (Rubens Soares) e Eu não posso ver mulher (Osvaldo Santiago e Roberto Roberti) e a valsa Eu sonhei que tu estavas tão linda (Francisco Matoso e Lamartine Babo).

Depois de atuar em diversas emissoras, fixou-se a partir de 1941 na Radio Nacional ate falecer. Seu programa dos domingos ao meio-dia, Quando os Ponteiros se Encontram, apresentado pela locutora Lúcia Helena, obteve maciça audiência em todo o Brasil. Em 1942 foi um dos vencedores do Carnaval com Sandália de prata (Alcir e Pedro Caetano) e, na musica romântica, lançou as valsas Carnaval da minha vida (Benedito Lacerda e Aldo Cabral) e Capela de São José (Marino Pinto e Herivelto Martins). Em 1943 gravou as versões dos foxes-canções Beija- me muito (Consuelo Velasques e Davi Nasser) e O amor e sempre amor (Hupfeld e Jair Amorim), e a valsa- bolero A mulher e a rosa (Alcir e Davi Nasser) e, em 1944, no Carnaval, a marcha Eu brinco (Pedro Caetano e Claudionor Cruz) e o samba Odete (Herivelto Martins e Waldemar de Abreu), com o Trio de Ouro.

Em tempo de guerra gravou Canção do expedicionário (Espártaco Rossi e Guilherme de Almeida) e varias versões. Em 1945 seus sucessos no Carnaval foram o samba Isaura (Herivelto Martins e Roberto Roberti) e Que rei sou eu? (Herivelto e Valdemar da Ressurreição); em 1946, a marcha Palacete no Catête (Herivelto e Ciro de Sousa) e o samba Vaidosa (Herivelto e Artur Morais); depois, o samba Fracasso (Mário Lago) e as regravações da canção Minha terra (Valdemar Henrique) e do fox-canção O cigano (Marcelo Tupinambá e Gastão Barroso). Em 1947, no Carnaval, fez sucesso com o samba Palhaço (Herivelto e Benedito Lacerda) e depois com Cinco letras que choram (Adeus) (Silvino Neto), Bahia com H, já referido, e os sambas-canções Nervos de aço (Lupicínio Rodrigues) e Caminhemos (Herivelto Martins); em 1948, o samba Falta um zero no meu ordenado (Ary Barroso e Benedito Lacerda). Vieram então os sambas-canções Quem ha de dizer (Lupicínio e Alcides Gonçalves), Esses moços (Lupicínio) e Madrugada (Herivelto e Evaldo Rui). Em 1949 foram sucessos carnavalescos os sambas Maior e Deus (Felisberto Martins e Fernando Martins) e a marcha Pode matar que e bicho (sua com Haroldo Lobo e Nilton de Oliveira) e, em 1950, foi muito cantado o samba A Lapa (Herivelto e Benedito Lacerda); lançou ainda os sambas-exaltação Forasteiro e Aquarela mineira (ambos de Ary Barroso) e o samba Maria Rosa (Lupicínio Rodrigues). Em 1951, foi a vez dos sambas Deus lhe pague (Polera, André Penazzi e Davi Nasser) e Lili (Haroldo Lobo e Davi Nasser), das marchas Holandesa (Davi Nasser e Haroldo Lobo), com Dalva de Oliveira e Retrato do velho (Haroldo Lobo e Marino Pinto) e do samba-exaltação São Paulo, coração do Brasil (com Davi Nasser). A parceria com Davi Nasser, iniciada em 1940, resultou em 20 composições e um livro de bolso biográfico, escrito por Davi, Chico Viola, publicado em 1966. Em 1952, no Carnaval, teve muito êxito com a marcha Confete (Jota Júnior e Davi Nasser).

Faleceu em Pindamonhangaba SP em 27 de Setembro de 1952, num desastre de automóvel na Via Dutra, quando o Buick que dirigia recebeu o choque de um caminhão na contramão.

Fonte: Biografia: Enciclopédia da Música Brasileira Art Editora e PubliFolha.

Francisco José

(Évora/Portugal, 16/08/1924 ****** Portugal, 31/07/1988)

Francisco José Galopim de Carvalho, cantor romântico e fadista, nasceu em Évora no dia 16 de Agosto de 1924, tendo falecido em Julho de 1988, vítima de um acidente vascular cerebral.

Foi na festa de finalistas do liceu que frequentou, que se deu a sua estréia, no Teatro Garcia de Resende, com a interpretação do tema "Trovador". Passou de amador a profissional aos 24 anos, vendo-se obrigado a interromper o 3º ano do curso de Engenharia que frequentava, acabando por não o terminar.

Em 1948, compareceu no Centro de Preparação de Artistas da Rádio, acompanhado por uma carta de apresentação do professor Mota Pereira, tendo cantado, no teste, as canções "Marco do Correio" e "Marina Morena.

A partida para a internacionalização aconteceu em 1951, ano em que se deslocou a Madrid para gravar "Olhos Castanhos", um 78 rpm que lhe valeu 500 escudos por cada face registada. Regressou à cidade no ano seguinte, desta feita para gravar três discos, "Sou Doido Por Ti", "Deixa Falar O Mundo" e "Ana Paula".

Tão grande fora o sucesso, tantos os contratos que lhe foram oferecidos para cantar em rádios, boates e casa noturnas, que ele, então aluno do último ano da Universidade de Engenharia de Lisboa, foi obrigado a interromper seu curso. Dedicou-se de alma e corpo à sua arte e a seu público, cada vez maior. Iniciou turnês artísticas pela Europa, demorando-se na Itália, Alemanha, França, Hungria, Estados Unidos e Espanha, sendo que neste último país gravou inúmeros discos. Era um cantor moderno. Pretendia dar uma interpretação moderna à canção portuguesa - procurava ser um cantor romântico atualizado, fugindo à pieguice lacrimal então vigente. "Nasceu o Frank Sinatra"- diziam juntos críticos e público.

Depois de ter pisado o palco em Évora numa revista regionalista de Vasconcelos Sá, intitulada "Palhas e Moinhas", o artista repetiu a experiência em 1952, numa peça que contou com a presença de Hermínia Silva.

Dois anos depois, partiu à descoberta do Brasil, acabando por se estabelecer em Copacabana. Foi lá que construiu uma carreira sólida e de sucesso invulgar para um artista português radicado em território brasileiro. Depois de seis anos de concertos realizados para platéias de imigrantes portugueses, Francisco José registou, em 1960, na editora Sinter, a canção "Olhos Castanhos", que se tornou, no ano seguinte, a canção mais popular do panorama musical brasileiro, depois de ter vendido cerca de um milhão de cópias. Para além de regulares edições discográficas, que somaram um total de 24 álbuns, dos quais apenas seis chegaram a Portugal, do currículo de Francisco José fazem parte inúmeras passagens pela televisão, tendo apresentado um programa aos sábados no Canal 9, em horário nobre.

Foi no Brasil que encontrou a verdadeira dimensão do seu talento, embora o tivesse conquistado somente depois de longos anos de sacrifícios e privações, e de um trabalho incansável em intermináveis tournés por todo o mundo.
Mas foi o seu programa num canal de televisão brasileiro e, pouco depois, o lançamento do seu álbum "A Figura de Francisco José" que lhe granjearam a imortalidade, primeiro no Brasil e muito mais tarde no seu país natal.

O Chico Zé, como era conhecido, era um cantor arrojado que, com a sua interpretação moderna e atualizada fugia à pieguice tradicional, trazendo à música portuguesa uma agradável lufada de ar fresco.

Com uma carreira majoritariamente construída no Brasil, o cantor Francisco José deparou-se com alguns contratempos quando, em 1964, se deslocou ao território português e, num programa gravado ao vivo, acusou a RTP de pagar miseravelmente os artistas nacionais, ao contrário do que se passava em outros países.

O caso não ficou por aí, já que Fancisco José resolveu pedir uma quantia de cinco mil escudos pela atuação que iria realizar para a RTP, mesmo estando habituado a receber cinquenta contos por programa no Brasil. A resposta foi negativa, uma vez que o limite máximo pago aos artistas portugueses era de dois mil escudos. No entanto, no seu caso, resolveram abrir uma exceção e fizeram a contraproposta de três mil escudos, caso o cantor não divulgasse a situação. Francisco José aceitou, mas no fim da atuação revelou o escândalo ao vivo, e a transmissão foi imediatamente cortada. Levado para a sede da PIDE, o cantor foi interrogado, e obrigado a responder em tribunal por "injúria e difamação", depois de lhe ter sido movido um processo.

A sua relação conflituosa com a PIDE terminou com uma interdição para sair do país, pelo que esteve dezasseis anos sem cantar na televisão portuguesa. No entanto, os discos continuaram a chegar ao mercado na década de 70 e a ser recebidos pelo público com grande satisfação. "Guitarra Toca Baixinho" e "Eu e Tu" são apenas dois dos 109 títulos que compõem a sua discografia, feita de registos em 33, 45 e 78 rpm.

Casou-se em 1965, aos 41 anos e teve duas filhas: Adília e Alexandra.

Depois de gravado o último single, "As Crianças Não Querem A Guerra", o cantor envolveu-se na política ativa mas, em meados de 80, regressou à música. A sua última atividade profissional foi desempenhada no campo do ensino, na Universidade da Terceira Idade, depois de terminar o curso de Matemática.

Francisco Carlos

(Rio de Janeiro/RJ, 5-4-1928 ---------- Rio de Janeiro/RJ, 19-3-2003)

O cantor e compositor Francisco Rodrigues Filho, verdadeiro nome de Francisco Carlos, nasceu no Rio de Janeiro/RJ.

Sua família transferiu-se para o Recife, onde permaneceu até 1939.

De volta ao Rio de Janeiro, Francisco completou os estudos diplomando-se em pintura pela Escola Nacional de Belas Artes.

Ainda em sua época de estudante, apresentou-se no Programa Casé da Rádio Mayrink Veiga. Ao longo da vida dedicou-se ao canto e à pintura.

Seu primeiro contrato profissional foi assinado em 1946 com a Rádio Tamoio. Pouco depois, Francisco Carlos passou atuar na Rádio Globo. Gravou seu primeiro disco em 1949 gravado pela Star registrando os sambas canção "Abandono", de César Formenti Neto e "Distância", de Fernando Lobo.

Em 1950, Francisco Carlos ingressou na RCA Victor e registrou em seu primeiro disco na nova gravadora a marcha carnavalesca "Meu Brotinho", de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga com a qual alcançou grande sucesso e o samba "Me Deixe em Paz", da mesma dupla de compositores. Nesse mesmo ano, participou dos filmes "Aviso aos navegantes", de Watson Macedo, cantando o samba "Rio e Janeiro", de Ary Barroso, "Não é nada disso", de José Carlos Burle e "Carnaval no fogo", no qual interpretou a marcha "Meu Brotinho". Foi contratado pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Ainda no mesmo ano, gravou o samba canção "Você não sabe amar", de Dorival Caymmi, Carlos Guinle e Hugo Lima e o bolero "Timidez", de Oldemar Magalhães e Humberto Teixeira.

Em 1951, Francisco Carlos gravou o samba canção "Abolição", de Wilson Batista e Orestes Barbosa, o baião "Girassol", de Humberto Teixeira, a valsa "Seremos felizes", de Gomes Cardim, Lela e Airton Amorim, o samba "Foi milagre", de Nássara e Wilson Batista e a marcha "Carnaval é ilusão", de José Roy e Abelardo Barbosa, o conhecido apresentador "Chacrinha", entre outras.

Em 1952, Francisco Carlos participou do filme "Carnaval Atlântida", de José Carlos Burle, no qual interpretou "Quem dá aos pobres", de Klécius Caldas e Armando Cavalcanti. Ainda em 1952, foi eleito o melhor cantor do ano, superando Francisco Alves na votação dos ouvintes. Também no mesmo ano, gravou os sambas canção "Vá embora", de Roberto Faissal, "Postal de Olinda", de Fernando Lobo e Manezinho Araújo, "Não sou de reclamar", de Lupicínio Rodrigues e "Mulher de minha vida", de Humberto Teixeira.

Ainda no mesmo ano, gravou os frevos canção "Nos cabelos de Rosinha", de Capiba e "É de toda mulher...", dos Irmãos Valença.

Em 1953, Francisco Carlos gravou da dupla Lourival Faissal e Getúlio Macedo o samba canção "Primeiro amor" e o samba "A saudade eu vou levar". No mesmo ano, gravou a marcha "Promessa a São João", de Paquito e Romeu Gentil e a valsa "Não custa você voltar", de René Bittencourt. No ano seguinte, registrou de Joubert de Carvalho, o fox canção "Quando eu partir", a canção "Dia feliz" e as marchas "Viva São Paulo" e "Marcha das bandeiras". Gravou também, de Lamartine Babo e Alcyr Pires Vermelho, a valsa "Alma dos violinos" e de Georges Moran e Carlos Barros o bolero "Ela me beijava". Em 1955, gravou o tango "Última Taça", de Vicente Amar e J. Vieira. No mesmo ano, gravou em dueto com Ester de Abreu a marcha "Moreninha de Lisboa", de Irani de Oliveira e William Duba.

Em 1956, participou do filme "Colégio de Brotos", dirigido por Carlos Manga. No mesmo ano, registrou as marchas "Lá vem ela sambando", de Arnô Provenzano, Otolindo Lopes e Mário Barbato e "O que Deus me deu", de Paquito, Romeu Gentil e Airton Amorim e o samba canção "Guerra de nervos", de Raul Sampaio e Osvaldo Aude. Gravou também os clássicos sambas "Favela", de Hekel Tavares e Joracy Camargo e "Agora é cinza", de Bide e Marçal. Em 1957, gravou o samba canção "Ele bebe, ele é louco", de Miguel Gustavo e o bolero "Porque brilham os teus olhos", de Fernando César. Atuou ainda no filme "Garotas e samba", de Carlos Manga. No mesmo ano, foi eleito "Rei do Rádio" recebendo 363.770 votos, sendo ainda considerado por uma revista especializada como o cantor mais querido do Brasil naquele momento.

Ao longo da carreira, Francisco Carlos gravou alguns frevos canção como "É rim", de Sebastião Lopes e "Pra mim chega", de Capiba, registrados em 1958, mesmo ano em que atuou no filme "Esse Milhão é Meu", dirigido por Carlos Manga no qual cantou "Flor Amorosa", de Catulo da Paixão Cearense e Joaquim Callado. No mesmo ano, foi eleito "Rei do rádio", recebendo o apelido de "El Broto", com o qual se consagraria junto à juventude da época.

Apresentava-se com o slogan "O Cantor Namorado do Brasil".

Em 1959, gravou para o carnaval a marcha "A Vedete do Ano", de Linda Rodrigues, Aldacir Louro e Geraldo Serafim.

Para o carnaval do ano seguinte, gravou a marcha "Moça que muito namora" e o samba "Carnaval vai chegar", ambas de Pascoal Roy e Rodrigues Filho. No mesmo ano, gravou a balada "Teu nome", de Ribamar e Osmar Navarro e o samba "Quando a esperança vai embora", de Tito Madi. Em 1962, excursionou à Europa com a V Caravana da UBC. No mesmo ano, gravou de sua autoria e Cleonice Maria o rock balada "Canção do Amor Perfeito". Em 1963, assinou contrato com a gravadora Chantecler e lançou a balada "Glória ao amor", de sua autoria e o samba "Foge deste amor", parceria com Paulo Rogério. Nessa mesma época, lançou o LP "O Internacional Francisco Carlos", pela Chantecler.

Abandonou carreira musical em 1970, passando a se dedicar à pintura, realizando várias exposições individuais e coletivas. Voltou, contudo, ao convívio dos admiradores para fazer participações especiais em shows de carnaval ou de reveillon, contratado pela Prefeitura do Rio de Janeiro.

No início da década de 80, Francisco Carlos tentou retornar à vida artística, a exemplo do que ocorreu com Cauby Peixoto, que ressurgiu no cenário musical com o sucesso "Bastidores", de Chico Buarque de Holanda. Mas não alcançou êxito e aposentou-se.

Francisco Carlos morreu em 19 de agosto de 2003, aos 75 anos de idade. Estava internado no Hospital do Câncer.


Fontes: Sites O Estado de S. Paulo; Dicionário da MPB; MPB Cifra Antiga; Cine TV Brasil.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Falcão (da dupla Felipe e Falcão)

( Morrinhos/GO, 9 de outubro de 1955 ******* Goiânia/GO, 18 de setembro de 2009)

Antônio Rosa Ribeiro, conhecido na música sertaneja como Falcão era jornalista de formação. Falcão trabalhou em TV ( foi apresentador do"Jornal Nacional e Jornal Hoje" da Rede Globo de Goiás, passou pela rádio Globo do Rio de Janeiro apresentando "O Globo no Ar") e apresentou festivais de música no começo de sua carreira. Foi em um desses festivais, no início da década de 1980, que conheceu Felipe, fornando então a dupla Falcão e Felipe.

Recebendo o apoio de amigos e da grande incentivadora Fátima Leão, a dupla grava o primeiro álbum em 1985, dando destaque para as músicas “Por amor se Morre” e “Gosto da Felicidade” obtendo grande repercussão no estado de Goiás e resultando em inúmeras apresentações pela região.

Em 1987 veio o segundo disco gravado em São Paulo e a dupla emplacou outros grandes sucessos como “Que Pena”, “Você é Isso”, ”Homem tem que ter mulher”. Em todo território nacional, esse álbum atingiu a marca de mais de 300 mil cópias vendidas e a partir daí a dupla lotou sua agenda e marcou sua carreira com sucessos que para o público também não podiam faltar no nos shows, como: "Deixa Eu Te Amar Por Favor", "Grito de Amor", "Comitiva dos Solteiros", "Nóis é Simprão de Tudo", "Hoje Não é Nosso Dia", entre outras.

Figura querida no meio sertanejo, Falcão tinha 1,88m, diferente dos padrão dos cantores sertanejos, e a voz muito grave, com a qual brincava em algumas de suas canções.

Entre os grandes sucessos da dupla, estão “Que pena”, “Grito de amor” e “Deixa eu te amar, por favor”. Felipe e Falcão lançaram 14 CD’s e 2 DVD’s.

O último trabalho lançado em 2009, “Boteco”, foi produzido pelo cantor Edson (da dupla Edson & Hudson) que também cantou ao lado de Bruno (da dupla Bruno & Marrone).

Por volta das 17hs do dia 18-9-2009, Falcão sofreu uma parada cardíaca. Os médicos ainda tentaram reanimá-lo durante o fim da tarde, até que, às 23hs, foi anunciada a morte do cantor, segundo informações passadas pelo hospital São Lucas.

Falcão havia sido internado, no dia 3 de setembro, em um hospital da cidade de Morrinhos, Goiás. Com um quadro de infecção generalizada e suspeita de erisipela (processo infeccioso, causado por bactéria, que se propaga pelos vasos linfáticos), Falcão foi transferido, no dia seguinte, para a UTI do hospital São Lucas, na cidade de Goiânia, em estado gravíssimo.

Falcão era solteiro e não tinha filhos. O corpo de Falcão foi sepultado no cemitério São Miguel, em sua cidade natal.

Francisco Sena

(Bahia, 1930 ******* Rio de Janeiro, 1935)

Francisco Sena foi cantor e compositor. Fez parte da turma de Tio Faustino, um macumbeiro de grande prestígio no Rio de Janeiro dos anos 1930.

Participou do Conjunto Tupy, dirigido por J. B. de Carvalho, e formou com Herivelto Martins a Dupla Preto e Branco. Foi também parceiro de Luperce Miranda e de Herivelto Martins em algumas composições.

Estreou em disco solo em 1931 na Odeon gravando o samba "Bota o talher na mesa", de sua autoria e a embolada "Mulata boa", parceria com Luperce Miranda. No mesmo ano, gravou o samba "Sozinho" e a marcha "Não te deixarei", ambas de Luperce Miranda, e os sambas "Periquito voou" e "Totoca", parcerias suas com Luperce Miranda, contando com acompanhamentos de Tute ao violão e de Luperce Miranda ao bandolim. Ainda em 1931, foi contratado pela Victor, gravadora na qual estreou no mesmo ano gravando em conjunto com o Grupo da Guarda Velha e Zaíra de Oliveira a batucada "Já andei", e a macumba "Que querê", de autoria de Pixinguinha, Donga e João da Bahiana.

Para o carnaval de 1932, gravou, ainda na Odeon, os sambas "Na Favela" e "Eu sou é bamba", ambos de Getúlio Marinho, o Amor. Ainda em 1932, e na Odeon, gravou o samba "Convencida", de João da Bahiana. Também no mesmo ano, gravou na Victor a batucada "Vi o pombo gemê", e a macumba "Xou coringa", ambas de João da Bahiana com acompanhamento do Grupo da Guarda Velha. Nessa época, conheceu Herivelto Martins com quem passou a fazer duetos muito apreciados no Conjunto Tupy.

Em 1933, durante as apresentações do Conjunto Tupy no Cine Odeon, o empresário Vicente Marzullo gostou muito de suas intervenções com Herivelto Maritins e resolveu contratá-los como a Dupla Preto e Branco. Ainda em 1933, gravou mais um disco solo na Victor interpretando as macumbas "Meus orixás", de Gastão Viana, e "Quem tá de ronda", de Príncipe Pretinho que fez bastante sucesso, mas cujo disco somente foi lançado dois anos depois da gravação. Gravou também em 1933, o samba "Pretinho de alma branca", de Juvenal Lopes e Buci Moreira lançado da mesma forma dois anos depois.

No ano de 1934, gravou seu primeiro disco com Herivelto Martins na dupla Preto e Branco com os sambas "Quatro horas", de sua parceria com Herivelto Martins, e "Preto e branco", de Herivelto Martins. No mesmo ano, gravou com Herivelto Martins com a marcha "Vamos soltar balão", de sua autoria e Herivelto Martins, e o samba "Como é belo", de Gastão Viana e Pereira Filho.

Em 1935, gravou um disco na Columbia com Herivelto Martins registrando as marchas "Um pouquinho só" e "Bela morena", ambas de Príncipe Pretinho. Ainda no mesmo ano, gravou aquele que seria seu último disco já que faleceria pouco depois, registrando as marchas "Bronzeada", de Moisés Friedman e Pedro Paraguassu, e "Passado, presente, futuro", de sua autoria e Herivelto Martins.

Ao falecer, sua dupla Preto e Branco com Herivelto Martins era um grande sucesso. Deixou gravados 6 discos solos com nove músicas na Odeon e mais quatro com oito músicas na Victor além de quatro disco e oito músicas da dupla Preto e Branco e outras gravações com o Conjunto Tupy.

Fonte: Dicionário Cravo Albin da MPB.

Francisco Mário

(Belo Horizonte/MG, 22/8/1948 ---------- Rio de Janeiro/RJ, 14/3/1988)

O compositor e violonista Francisco Mário era filho de Henrique José de Souza e Maria da Conceição, a Dona Maria, que ficou conhecida através das cartas do Henfil no “Pasquim” e na “Isto É”. Tinha sete irmãos: Betinho, Henfil, Glorinha, Filó, Wanda, Tanda e Ziláh.

Chico Mário, como era carinhosamente chamado, estudou violão, economia, pós-graduação em engenharia de sistemas na COPPE, foi jornalista no Estado de São Paulo e crítico musical na revista “Realidade”. Desde cinco anos de idade, Chico mostrava interesse musical tocando bongô, atabaque e violão, contando com o incentivo de seu irmão Betinho, que reunia com sua turma e ouvia Bach, Thaikovski, Choppin. Outra grande responsável pela sua formação musical, foi a hemofília, doença que o obrigava a ficar deitado tocando horas e horas o violão.

O Tio Geraldo foi de Bocaiúva, norte de Minas Gerais, para Belo Horizonte e ensinou Chico Mário a tocar viola. Um dia apareceu o Bernard, violonista fantástico que morreu no dia em que iria dar a primeira aula de Chico Mário, ficou um desafio no ar para o jovem violonista.

Em 1965 participou em belo Horizonte da JEC (Juventude Estudantil Católica) como membro da direção regional. Neste encontros de jovens “O violão de Chiquinho” fazia parte nas horas de meditação e muitas vezes das missas Gregorianas dos freis Dominicanos. Em 1966 já em São Paulo, Chico Mário entrou para o movimento estudantil secundarista (União Brasileira dos Estudantes). Das pichações dos muros da Rua da Consolação, correr em zigue-zague das balas da repressão até chegar na Rua Maria Antonia e abrigar-se na USP pulando muros. Depois dando apoio aos operários grevistas no ABC. Ele contava que até se esquecia que era hemofílico na luta para mudar o país.

Em 1967 com 19 anos já casado, ainda em São Paulo, dava aulas para sobreviver e ao mesmo tempo estudava se formando em Economia e Análise de Sistemas. Estudou violão com o professor Henrique Pinto, criou o método de música em cores para crianças, aplicando técnicas dramáticas e músicas folclóricas brasileiras, sendo utilizado em várias escolas de São Paulo e em cursos para professores. Escreveu várias hidstórias para a revista “Recreio”, da editora Abril como: “Tonho, o elefante”, “O gigante da lagoa preta”, “O leão fominha”, “A pulga do realejo”, entre outras. Foi consultor da Escola de Comunicação e artes da Universidade de São Paulo (USP), trabalho realizado com o professor Oswaldo Sangiorgi. Fez o curso de dinâmica de grupo com o professor lauro de Oliveira Lima, adaptando para seu curso de violão.

Em 1978, foi viver no Rio de Janeiro, onde as possibilidades para carreira de músico eram bem melhores na época. Não demorou para entrosar-se no ambiente carioca, começando a tocar, chamando atenção para o seu talento. Nesse mesmo tempo estudou arranjos e teoria com o professor Roberto Gnattali, responsável pelos arranjos do seu primeiro show “Ouro Preto” realizado no parque Laje e na UFRJ, ao lado de músicos como Marcos Ariel,(flauta), Henrique Drach (cello), Alberto Gabeira (baixo), Maria Antônia (flauta) e Marcos Dantas (percussão).

Dedicado, corajoso e idealista, em 1979 gravou seu primeiro disco “Terra”, lançado também no México e elogiado por Carlos Drummond de Andrade. Com capa de Noguchi, o disco conta com participações de Joyce, Quarteto em Cy, Antonio Adolfo, Airton Barbosa, Chiquinho do Acordeon, entre outros. Um disco bem mineiro, que fala das montanhas de Minas. Em maio deste ano, como vice-presidente da APID (Associação dos Produtores de Discos Independentes),, participou do encontro de produção cultural alternativa de discos independentes em Curitiba onde constatou que embora fizesse parte da primeira fornada de produtores, eram ainda minoria, já que os discos sertanejos eram cinco vezes maiores que a MPB. A exposição dos discos de Antonio Adolfo, Danilo Caymmi, Luli e Lucinda, Francisco Mário, os pioneiros do disco independente, representavam neste encontro como bandeiras para músicos e compositores e intérpretes que não conseguiam entrar no mercado. Em julho participou do ótimo e necessário para nossa cultura “Festival de Inverno de Ouro Preto” na sua 12° edição.

Em 1980 Francisco Mário entra no estúdio para gravar o disco “Revolta dos Palhaços”, com ajuda de 200 pessoas que compraram o disco antes de ficar pronto. Chico dizia: “Com este disco denuncio a ilusão montada para ver a nossa realidade subdesenvolvida de país de terceiro mundo e que até poderia chocar as pessoas que estavam sonhando e não queriam acordar, preferindo acreditar na falsa realidade recriada a cada dia.” No encarte, uma grande lona de circo assinada pelo cartunista Nani em que os co-produtores assinavam, compravam e apoiavam a idéia do disco independente. Com parcerias de poetas como Aldir Blanc e Paulo Emílio, Fernando Rios, o jornalista Tárik de Souza ,o ator Guarnieri, e participações especiais de Ivan Lins, MPB4, Lucinha Lins, Boca Livre, Mauro Senise, Luiz Claudio Ramos, Danilo Caymmi, Djalma Correa, entre outros. E com capa do irmão Henfil, estava formado o maior espetáculo da terra, o disco “Revolta dos Palhaços”.

Em 1981 recebeu um convite para participar do 5° Festival de Oposicion no México. Pela primeira vez, Chico saiu do Brasil e foi mostrar sua música para o mundo, tendo como resultado o lançamento do seu primeiro disco "Terra" no México pela gravadora Foton e uma estadia de duas semanas em Miami de graça, já que quando o dono do hotel descobriu que tinha músicos brasileiros em seu hotel, os fez tocar até seis da manhã, e na hora de pagar a conta não aceitou. No Festival que contou com a participação de músicos do mundo todo e um público de 15 mil pessoas, Francisco Mário, Djalma Correa e Henrique Drach foram aplaudidos com palmas e pés, tendo que voltar sete vezes ao palco para bis.

Neste mesmo ano, gravou um disco com Francisco Julião que acabara de chegar do exílio, “Versos e Viola”, vetado pela censura na época. Ficando impressionado com a receptividade mexicana de seus chorinhos e baiões que tocaram no bis do show no México, Chico ao chegar no Brasil, resolveu gravar o seu primeiro disco instrumental “Conversa de Cordas, Palhetas e Metais”, que foi eleito o melhor disco de música instrumental do ano de 1983, recebendo o troféu “Chiquinha Gonzaga”. Junto com o disco foi lançado também um livro de poemas “Painel Brasileiro”. Com a capa de Elifas Andreato, foto do Fernando Carvalho e a participação de feras como Rafael Rabello, Nivaldo Ornelas, Zeca Assumpção, Antonio Adolfo e Afonso Machado, Chico comprou mais uma briga de se impor no mercado e abrir espaço para música instrumental no seu terreno dee origem, já que lá fora a aceitação foi comprovada. Neste mesmo ano, começou a estudar teoria com o professor Adamo, indicado pelo mestre Ian Guest.

Em 1984, ganhou o 1° prêmio no Festival de Ouro Preto com a música ainda inédita “São Paulo” e, em 1986, com a mesma música, ganhou o prêmio de melhor arranjo no Festivais dos Festivais de Minas. Buscando parceria com a revista Cadernos do Terceiro Mundo, Chico e Nívia, sua esposa, iniciam um projeto de produção independente dos melhores músicos brasileiros. O primeiro e único foi o disco de Radamés Gnattalli, “Retratos”, em piano solo.

Enfrentando todo tipo de obstáculos, conseguiu impor-se e lançou mais um disco instrumental em 1985, “Pijama de Seda”, nome de uma das músicas, dedicada a Pixinguinha, além desta, outra música, considerada uma das mais bonitas, “Ressurreição”, em homenagem ao seu irmão Henfil, com oito violões tocados por Chico. Todas as músicas, arranjos, flauta de pã, e até oito violões superpostos são de Francisco Mário. Com a capa de Noguchi, o disco foi lançado na Sala Cecília Meireles no dia 30 de setembro de 1985.

Em 1986, lançou o disco “Retratos”, buscando nas fontes brasileiras a essência de sua música, voltando a misturar ritmos onde homenageia desde João Gilberto até os Índios Pankararés. No lado A, o norte bucólico e fatalista e no lado B o sul progresso e da malandragem. Do urbano ao rural, dando uma geral na música brasileira, com toques de boa vizinhança como na música “Cuba” dedicada a Silvio Rodrigues e Pablo Milanês, o disco conta com a lindíssima capa e pintura de Lobianco. Dorival Caymmi, Luiz Gonzaga, Waldir Azevedo, Baden Powell, foram citados nesta obra de Francisco Mário.

Em novembro deste mesmo ano, Chico Mário fez seu último show, apresentando suas músicas novas do projeto “Suite Brasil”, na Catacumba, projeto que fez sucesso promovido pela Rioarte. No mês seguinte com uma pneumonia, ficou sabendo que contraira o vírus da AIDS, contaminado pela transfusão de sangue. Depois que saiu do hospital no início de 1987, foi para a Fazenda da Serra em Itatiaia com a família e compôs suas três últimas obras: “Dança do Mar”, “Suíte Brasil” e “Tempo”.

Em outubro de 1987 entrou no estúdio Sonoviso e transformou suas últimas obras em disco. “Dança do Mar”, sete movimentos que refletem as mudanças da natureza e das estações. Um disco erudito com cada movimento passado no mar, Verão, Outono, Inverno, Primavera, Calmaria, Amanhecer e Tempestade. Em cada faixa, duas interpretações, Quarteto de cordas Bosísio e o violão de Chico com convidados. Suite Brasil, um olhar musical na História do Brasil. Cada movimento um marco na história do Brasil, desde o descobrimento até as eleições diretas. E o disco inédito Tempo, uma homenagem a Charlie Chaplin, que contém a música “São Paulo”, ganhadora do festival de inverno de Ouro Preto e melhor arranjo do Festival dos Festivais de Minas Gerais.

Em dezembro de 1987 foi realizado no Rio, um dos mais bonitos shows de todos os tempos. Com a finalidade de ajudar no tratamento de Chico Mário, mais de trinta artistas subiram no palco do Teatro João Caetano, entre eles, Milton Nascimento, Chico Buarque, Gonzaguinha, Dona Ivone Lara, Paulinho da Viola, Emilio Santiago, Joyce, Claudio Nucci, Fagner, Aldir Blan, Elton Medeiros e Aldir Blanc.

Em fevereiro de 1988 foi a vez dos mineiros no show com a mesma finalidade no teatro Cabaré Mineiro, com Beto Guedes, Paulinho Pedra Azul, Gilvan de Oliveira, Tadeu Franco, Rubinho do Vale, entre outros.

Francisco Mário tinha material inédito para três discos, quando faleceu em 14 de março de 1988. Depois de sua morte, sua esposa e produtora Nívia Souza, suas filhas Ana e Karina e seu filho mais velho, Marcos Souza, lançaram os álbuns póstumos em vinil “Dança do Mar” na sala Cecília Meireles em 1988 com as participações de Rafael Rabello, Antonio Adolfo, Mauro Senise e Rique Pantoja, David Chew, Galo Preto e apresentação do ator Tony Ramos. O Disco Suite Brasil foi lançado em 1992 ccom Marcos Souza no Centro Cultural Banco do Brasil.

Em 1995 foi lançado pela falecida gravadora Caju Music três discos em CDs de Francisco Mário. “Conversa de Cordas, couros, palhetas e metais”, “Pijama de seda” e “Retratos”. Além do lançamento nacional, foi lançado também pela gravadora Fantasy nos EUA. Mas a gravadora faliu, deu calote em todos, inclusive sobre a venda nos EUA. Ainda encontra estes CDs em algumas lojas e em estoque com o filho Marcos Souza. Em 1997 foi lançado em CD os discos “Terra” e “Dança do Mar” junto com a exposiçãoo realizada no Museu de Imagem e do Som no Rio de Janeiro e no Crav em Belo Horizonte. Em 1998 foi realizado o projeto “Francisco Mário - 50 anos”, um evento que contou com uma exposição, video, teatro, shows e leitura de poemas.

Em 1999 foi lançado o CD “Marionetes” produzido por Marcos Souza, uma homenagem na voz da cantora Regina Spósito, recolhendo a obra dos primeiros discos “Terra” e “Revolta dos Palhaços. No mesmo ano foi lançado o disco “Suite Brasil” pela coleção Funarte, Itaú cultural e Atração.

Chico escreveu 3 livros: Ressurreição, livro que escreveu quando estava internado no hospital do Fundão em, 1987. Como fazer um disco independente, contando todos os passos para fazer um disco caseiro pela editora Vozes. E o livro de poemas, Painel Brasileiro.

Francisco Mário deixou muita música, muita luta, muita esperança, muitas críticas, 3 filhos (Marcos Souza, Ana e Karina), a companheira e produtora Nívia Souza e muito humor.

Fonte: Atelier Cultural.

domingo, 25 de novembro de 2012

Florêncio

(Barretos/SP, 1910 ******** Barretos/SP,1970)

João Batista Pinto, o Florêncio, nasceu numa família de músicos e cantadores. Iniciou na Rádio Record, onde interpretou "Casinha pequenina", tendo sido aprovado.

Florêncio tentou conciliar a profissão de Farmacêutico com a carreira artística. No entanto, com a crescente popularidade que vinha adquirindo nas rádios onde se apresentava na Capital e no Interior, acabou largando definitivamente a farmácia, e passou a se dedicar integralmente à carreira artística.

Em 1939 formou dupla com Flauzino. Lançaram pela Columbia as modas de viola "Futibor no arraiá", de autoria da dupla e "Ritinha", da dupla em parceria com o Capitão Barduíno, a valsa "Saudades de Rio Preto", da dupla, e a canção toada "Coqueiro véio" também de autoria da dupla. Em 1940, gravaram de autoria da dupla a mazurca "Minha história". No mesmo ano, gravaram, de Ari Machado, a moda de viola "Moda do Estádio Pacaembu", alusiva ao estádio de futebol do Pacaembu em São Paulo, inaugurado naquele ano. Em 1942, gravaram, de José Marcílio e Ari Machado, a valsa "Marília", e de Ari Machado, a toada "Boiadeiro". A dupla provavelmente dissolveu-se nesse mesmo ano.

A dupla ao lado de Raul Torres começou em 1942. Gravaram pela Odeon "O pipoqueiro", de Raul Torres, e a moda de viola "V" da vitória", de Raul Torres e Francisco Sanches. Em 1943, gravaram "Moça forgazona" e "Que loura bonita", de Raul Torres e Sebastião Teixeira. Em 1944, gravaram a moda de viola "Apelido dos jogadores", de Raul Torres e Palmeira, e a toada "Vamos plantá algodão", de Raul Torres. A partir de 1944 passaram a formar com o sanfoneiro Nininho o trio Os Três Batutas do Sertão. No mesmo ano gravaram um dos clássicos sertanejos, "Cabocla Tereza", de João Pacífico. No ano seguinte, gravaram outra música que se tornaria um clássico da música sertaneja, "Moda da mula preta", de Raul Torres. Em 1945, cantaram, de Raul Torres e Benedito Mendonça, "Vitória final", em referência ao fim da Grande Guerra. Outro clássico sertanejo que a dupla gravou foi "O mourão da porteira", de João Pacífico. A dupla gravou cerca de 80 discos .

Antes de morrer, deu sua famosa Viola Vermelha de presente a Tião Carreiro que, em sua homenagem, gravou em 1984 com Pardinho a moda de viola “Viola Vermelha”, de Tião Carreiro e Jesus Belmiro.

Fonte: Dicionário Cravo Albin da MPB.

Floriano Belham

(Rio de Janeiro/RJ, 03/2/1913 ********* Rio de Janeiro/RJ, 20/9/1999)

O selo de sua infância foi a orfandade. Floriano da Costa Belham nasceu no bairro da Tijuca, Rio de Janeiro, em uma família tradicional, perdeu a mãe, Maria Luíza, aos 3 anos. Seu pai, João Henrique Belham, funcionário do Ministério da Fazenda, era filho do inglês William Belham, al mirante da Marinha Inglesa, herói da Guerra do Paraguai. Durante o conflito, o oficial se casou com uma índia guarani. O casal terminou por se estabelecer no Rio. O abrasileiramento se completou com a mudança do acento do sobrenome. "Belham" passou a ser pronunciado como se lido em português, "béliã".

Floriano foi criado pela tia, irmã de seu pai, Leopoldina, professora residente na ilha de Paquetá. De temperamento forte, o pequeno não se submetia a ordens. Leopoldina deixava até mesmo que o menino fumasse. Seu cigarro favorito era Liberty Ovaes, sem filtro, o mesmo do amigo Noel Rosa. Fumou três maços por dia até completar 80 anos. Foi quando o médico detectou um enfizema pulmonar e o proibiu de manter o vício. Floriano Jr. atribuiu a degeneração física na velhice do cantor ao cigarro.

Mas o tabaco não prejudicou a voz do menino. Percebeu que a tinha aos 10 anos e passou a se apresentar nas festas e reuniões de sua escola, o tradicional Colégio D. Pedro II. Num espetáculo em benefício a crianças órfãs tuberculosas em Paquetá, foi ovacionado. Ao show comparecia o empresário teatral Armando Alvim, que convidou o menino a integrar sua companhia, chamada de Centro Artístico Regional. Corria o ano de 1927 e Floriano, aos 14 anos, ia ganhar um cachê alto para a época: 50 mil réis, quantia somente reservada aos grandes medalhões. Iria se apresentar como "O Menino Floriano Belham". Em um caderno onde fez anotações autobiográficas, datado de 1988, recém-descoberto pela viúva, o cantor conta como foi seu início na companhia: "Lá conheci Rogério Guimarães, violonista canhoto, apresentado e conhecido como o Rei do Violão. Sempre cantei nas minhas apresentações acompanhado pelo Rogério e pelo Carlos Lentini." Este era também violonista. Belham relembra, então, diversos músicos com quem se apresentou na companhia, como João Martins – "um gênio do bandolim", segundo ele –, a cantor Ruth Franklin e os cantores Augusto Calheiros, Lourival Montenegro, Arthur Costa e Francisco Alves. As anotações do cantor revelam que a Companhia era itinerante e costumava se apresentar em duas sessões diárias em temporadas de quinze dias a um mês. "Cantou lá também um menino como eu, Nelson Vargas, que tinha uma bela voz de tenor. também fez parte dessa companhia o maior seresteiro do Brasil – Sylvio Caldas!" A fama do cantor-menino sobreviveu à da Compahia, que se extingiu em 1928.

No ano seguinte, Rogério Guimarães continuava a se apresentar com o garoto. Francisco Alves, já então a divindade vocal suprema do Brasil, ouviu o ensaio da dupla nos camarins do Teatro Lírico e perguntou a Belham se sabia cantar alguma música de seu repertório. O menino disse que sim: "A voz do violão", o último êxito do cantor; e a cantou. Alves gostou tanto que falou a Guimarães: "Qualquer dia desses vou mandar esse garoto bisar por mim 'A voz do violão'!". De acordo com o diário de Belham, Rogério ficou feliz, mas observou: "Você não acha, Chico, que é muita responsabilidade para um menino?" O cantor respondeu: "Levo fé neste garoto!"

Dois ou três dias depois, Alves finalmente cumpriu o prometido. Nas memórias, Belham se extasia: "Estávamos atuando no teatro Lírico, famoso teatro de ópera, onde Toscanini estreou em regência e onde Caruso e outros astros famosos artistas líricos se apresentaram". Casa lotada, Francisco Alves atacou de "A voz do violão". Como de hábito, a platéia veio abaixo e pediu bis. Era homem de palavra, agradeceu e anunciou: "Agora vou fazer uma surpresa para vocês. Vou trazer um menino para bisar por mim 'A voz do violão'!" Belham disse ter sido "pegado de surpresa" porque o cantor não havia avisado que seria naquela noite. "Contudo recebi o chamamento com a maior naturalidade e ingenuidade", narra. "O Rogério Guimarães estava sentado numa cadeira no meio do imenso palco do Lírico. O Chico Alves pediu outra cadeira e o seu violão. Sentou-se também e mandou que eu me colocasse entre ele o Rogério." Rogério solou a introdução "e eu, O Menino Floriano Belham, comecei a cantar". Notou nervosismo nos dois veteranos. Alves lhe recomendou, "nos momentos de maior responsabilidade": "Respira!" Antes de terminar, notou espectadores se levantando para saudá-lo. "O velho Chico, entusiasmado, pegou-me no colo, abraçou-me e beijou-me." Teve que cantar a música mais duas vezes. "Foi uma das maiores glórias da minha curta vida artística!"

Nos estertores do ano de 1929, era chamado ao estúdio da Victor, acompanhado por Guimarães, para gravar seu primeiro disco. Em depoimento ao historiador Abel Cardoso Júnior, Belham afirmou que Mr. Evans, diretor artístico da gravadora, sugeriu que o menino imprimisse mais dramaticidade à gravação, fazendo de conta que via sua mãe morta.

O grande sucesso fez com que os compositores lhe oferecessem mais música inédita e aparecessem seguidores. Algumas crianças passaram a gravar. Em 1930, Dircinha Batista estreou como cantora infantil. Julinha do Amaral gravou uma toada em 1936. Indicado por Belham como seu sucessor, Jonas Tinoco registrou a "Canção do jornaleiro", de Heitor dos Prazeres, com grande sucesso. Era 1933, ano em que Belham, já com a voz adulta, atuava no Programa Casé, na Rádio Philips, gravando diversos sucessos, entre eles o samba "Saudades do meu barracão", música de estréia de Ataulfo Alves, em 1935. Integrava o coro um estreante: Orlando Silva. Freqüentador do Café Nice, ponto de encontro da classe artística, entrou em contato com os astros da época, entre eles Pixinguinha, Orestes Barbosa (marido de sua professora em Paquetá, dona Regina), a dupla Joel & Gaúcho, Castro Barbosa, os irmãos Hélio e Noel Rosa, Luiz Barbosa ("para mim o verdadeiro criador do samba-de-breque"), Moreira da Silva, Cyro Monteiro, João Petra de Barros e Aracy de Almeida ("criatura simples, pura mesmo, não me lembro de ter visto a Aracy bebendo ou fumando", escreve no caderno). Em 1934, comprou seu primeiro carro de Francisco Alves. Ao lado de Noel, disse ter feito farras memoráveis. Como o "Bernard Shaw do Samba", criava paródias. Ficaram famosas as de "Amélia" e "Touradas em Madri".

O intérprete se dava ao deleite de recusar canções para integrar seu repertório, entre elas "Último desejo",de Noel Rosa, e, de Ataulfo e Mário Lago, "Amélia". Não conseguia abstrair e filtrar o valor delas, pois eram cantadas diretamente por seus autores. E se arrependeu.

O derradeiro sucesso foi a valsa "Mariza", de André Filho, em disco lançado em junho de 1936. Nesta época, resolveu mudar radicalmente de atividade. Sua vida ganhou um aspecto de impressionante normalidade. Tornou-se fiscal do imposto de consumo (auditor fiscal) da Fazenda Federal, ganhou porte de arma e viajou pelo Brasil, caçando inadimplentes. Mudou-se para Vitória no início da década de 40. Lá, casou-se com Teresa. De volta ao Rio, formou-se em Direito em 1955. Nasceram os três filhos. Aposentando-se em 1961, decidiu transferir a família para Paris, para conhecer a Europa. De 1968 a 1973, mudou-se com a família para Los Angeles, para cuidar da educação dos filhos.

Ainda que exonerado da vida artística, nunca deixou de cantar para os amigos e nas reuniões familiares. Em 1976, chegou a gravar uma fita com canções clássicas. acompanhado pelo violonista João Pereira Filho. Mostrava a mesma voz lírica que exibia no fim de sua carreira. A nostalgia do auge artístico o levou a começar a escrever memórias.

Floriano Belham revelou-se cantor de imenso engenho. Na maturidade, aprimorou o estilo seresteiro, que teve em Sylvio Caldas o protagonista (Belham tinha voz mais bonita que Caldas). Outro traço nas suas gravações é registrar, num caso único, mudanças de voz profundas em um cantor: soprano na infância e adolescência, tenorino aos 20 anos e logo barítono; em todos os estágios, manteve o timbre limpo e uma alta dose de inspiração. Mais do que obra completa, Belham legou uma virtualidade. Foi, talvez, o maior cantor que o Brasil deixou de ter.

O cantor morreu no Hospital Santa Lúcia, Rio de Janeiro, de choque septicêmico decorrente de uma infecção pulmonar. Nenhum jornal ou revista noticiou o fato, embora Belham merecesse referência entre os melhores intérpretes ativos nos anos 20 e 30 – a denominada "época de ouro da música popular brasileira". Belham foi um menino-prodígio. Assim como o cantor Mário Reis já foi apelidado de "a nossa Greta Garbo", por ter-se retirado da cena do show business, Belham é o Mickey Rooney autóctone, a criança que prolongou a infância e optou pela segurança e riqueza na vida adulta, tornando-se referência enciclopédica de um ontem artístico distante. Soube pular da glória antes de ela o tragar em definitivo. Conviveu com os principais astros e estrelas da Era do Rádio brasileira. Ei-lo perpetuado na infância do estrelato nacional, em dezesseis canções que gravou para os selos Victor e Odeon.

Ao enterro, no cemitério do Caju, compareceu um único fã – fato que surpreendeu a viúva, Teresa, e os três filhos, os empresários George, Eduardo e Floriano Júnior. A família não contava com os pêsames de um admirador do cantor que encerrou a carreira em 1936, época em que Orlando Silva ainda trabalhava no coro da Victor e Noel Rosa, amigo de farras de Belham, estava vivo. Isso só pode ser explicado pelo "pathos" da reprodução do som, que impregna a memória afetiva pela insistência das audições repetitivas. Os discos mais esquecidos dos músicos mais obscuros continuam a tocar em algum lugar.

Belham orgulhava-se de ter sido a primeira criança do mundo a ter gravado um disco profissional. Sua voz era de criança quando fez sua primeira gravação, para a RCA Victor, em 1929, lançada no ano seguinte. A temática retratava situações infantis. No lado A do disco, interpretava "Mamãezinha está dormindo", de André Filho (autor de "Cidade maravilhosa" e órfão quando menino), canção que mostra um menino fascinado pela imagem da mãe que ele julga estar dormindo numa cama cheia de flores. A música descreve o processo da descoberta da morte por uma criança. O lado B traz a "Canção do ceguinho" (Cândido das Neves), sobre o menino que se lamenta por Deus não lhe ter dado o direito de contemplar a lua.

Fonte: Digestivo cultural.