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terça-feira, 27 de novembro de 2012

Zezé Gonzaga

(Manhuaçu/MG, 03/09/1926 ******* Rio de Janeiro/RJ, 24/07/2008)


Era filha e neta de músicos. Sua mãe chamava-se Oraide e era flautista. O pai, Rodolpho, era "luthier", tendo inclusive construído um instrumento para Luperce Miranda. Recebeu incentivo da família que queria que abraçasse a carreira de cantora lírica.

Começou a estudar canto com a professora Graziela de Salerno, que gostava muito de seu registro de soprano ligeiro. Além de canto, estudou piano e leitura musical. Fez seus estudos escolares na cidade vizinha de Porto Novo, com bolsa de estudos, compensada por pequenos serviços realizados por seu pai, já que sua família vivia com dificuldade. Foi em Porto Novo que fez sua primeira apresentação aos 12 anos, cantando a valsa "Neusa", de Antônio Caldas (pai do cantor Sílvio Caldas), grande sucesso de Orlando Silva. Depois de curta estada no Rio de Janeiro, em 1942, retornou a Porto Novo para continuar seus estudos. Nessa época, costumava dar "canjas" num clube de jazz, o que lhe causou problemas na escola, pois além da discriminação racial, enfrentava a discriminação por ser artista. Transferiu-se para o Rio de Janeiro em 1945, onde passou a residir.

Foi integrante do grupo vocal As Três Marias. Paulo Gracindo costumava chamá-la de "minha namorada musical", em seu programa na Rádio Nacional, nos anos 1940. Iniciou sua carreira como caloura no programa de Ary Barroso, em 1942. Na ocasião, recebeu a nota máxima ao interpretar "Sempre no meu coração". Logo em seguida, recebeu convite para se apresentar no programa radiofônico "Escada do Jacó", do popular radialista Zé Bacurau. Em 1945, conquistou o primeiro lugar no programa "Pescando estrelas", da já extinta Rádio Clube do Brasil, apresentado por Arnaldo Amaral. Isso lhe valeu um contrato de 800 mil-réis com a emissora, que duraria até 1948. Nessa época, formou com a cantora Odaléa Sodré (filha de Heitor Catumbi) uma dupla chamada "As Moreninhas do Ritmo". Com a parceira, cantou no conjunto do pianista Laerte, na Rádio Jornal do Brasil. Em 1948, assinou contrato com a Rádio Nacional do Rio. Foi levada para lá a partir de um telefonema do cantor Nuno Roland, que, a pedido do diretor geral, Victor Costa, marcou uma reunião com ela. Na ocasião, Victor Costa lhe ofereceu um salário bem mais alto e a cantora, dias depois, já integrava o "cast" da Nacional, tendo como "padrinhos musicais" o próprio Victor Costa, ao lado de Paulo Tapajós. Zezé chegou a ser a cantora mais tocada da Nacional e tornou-se uma das mais famosas intérpretes da era do rádio.

Estreou em LP no elogiado "Zezé Gonzaga", lançado pela Columbia, em 1956. Dona de uma bela voz soprano, Zezé sempre flertou com a música clássica. Chegou a estudar canto lírico, mas não seguiu carreira porque "o mercado é muito pequeno".

Mas ela deu suas escapadinhas de vez em quando. Na Rádio Nacional, era a preferida do maestro Radamés Gnatalli, de quem vira-e-mexe cantava temas eruditos, juntamente com obras de Villa-Lobos. Muitas vezes, para cantar sambas, ela baixava o tom da voz, para dar às músicas um caráter mais popular.

Aos 45 anos de idade, desanimada com os rumos que tomava sua carreira, atrelada ao comercialismo da gravadora Columbia (atual Sony Music), Zezé decidiu se aposentar. Passou 3 anos trabalhando numa creche em Curitiba, Paraná.

Um dia, Hermínio Bello de Carvalho — velho fã da época do rádio — reapareceu em sua vida com uma proposta irrecusável: voltar ao Rio para gravar um LP. Mas não um LP qualquer e sim um de canções do velho amigo Valzinho, acompanhadas pelo sexteto de Radamés.

Foi um dos melhores discos do ano (1979), com as honras de ter revelado ao grande público a arte de Valzinho, que morreria meses depois, e de ter provado que Zezé Gonzaga ainda era a mesma.

Fez algumas apresentações nos anos 1980 com o grupo Cantoras do Rádio, que lhe renderam dois CDs. Em 1999 gravou o disco "Clássicas" ao lado da cantora Jane Duboc, que também rendeu show encenado no Rio, São Paulo e outras praças brasileiras. O disco trazia entre outras, "Linda flor", de Henrique Vogeler, Marques Porto e Luiz Peixoto, "Olha", de Roberto Carlos e Erasmo Carlos e "Cidade do interior", de Mário Rossi e Marino Pinto, entre outras, No mesmo período, também participou do espetáculo "Lupicínio Rodrigues", ao lado de Áurea Martins, montado em várias casas noturnas do Rio e de São Paulo.

Em 2000, participou do Projeto "MPB: A História de Um Século", estrelando o primeiro da série de quatro shows no CCBB, "Do choro ao samba", ao lado de Paulo Sérgio Santos e Maria Tereza Madeira, com roteiro e direção de Ricardo Cravo Albin.

Em 2001, apresentou show no Paço Imperial no rio dem Janeiro.

Em 2002, gravou pelo selo Biscoito Fino o CD "Sou apenas uma senhora que canta", o primeiro depois de 23 anos longe das gravações no qual interpretou, entre outras, "Meu consolo é você", de Roberto Martins e Nássara, "Vida de artista", de Sueli Costa e Abel Silva, "Pra machucar meu coração", de Ary Barroso, "Chão de estrelas", de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa e "Por que te escondes?", letra inédita do poeta Thiago de Mello para um choro de Pixinguinha.

Em 2003, quando se dirigia ao Teatro Clara Nunes para lançamento de um CD de Paulo Vanzolini sofreu grave acidente que resultou em afundamento na caixa toráxica o que comprometeu seu sistema respiratório.

Em 2008, lançou pela Biscoito Fino o CD "Entre cordas" que teve produção de Hermínio B. de Carvalho. O disco contou com aproveitamento de gravações feitas pela cantora em diferentes épocas como as feitas no show "Zezé ao vivo no Paço Imperial", de 2002, nos programas de TV "Contra luz", de 1986, "Mudando de conversa", de 1992, e "Lira do povo", de 1983 e 1984, além de uma apresentação no Estúdio Transamérica em 1991. Foram utilizados ainda recursos tecnológicos que permitiram substituir o violão de Baden Powell na faixa "Além do amor" pelo bandolim de Hamilton de Holanda, Foi ainda colocada a harpa de Cristina Braga nas faixas "Cantoria" e "Não me culpe". Participaram ainda do disco os instrumentistas Maurício Carrilho, João Lyra, Hugo Pilger, Marcos Tardeli, Luís Otávio Braga e Quarteto Maogani. Das gravações originais foram mantidos os acompanhamentos de Radamés Gnattali ao piano em "Amargura", de Baden Powell ao violão em "Folhas secas" e de Rafael Rabello no pot-pourri que incluiu "Duas contas", "Imagens" e "Linda flor". As duas faixas inéditas foram "Trovas " e "Cantoria".

Fonte: Wikipédia e Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira

Zaíra Cavalcanti

(Santa Maria/RS, 1/10/1913 ******** Rio Grande do Sul, 12/09/1981)

A cantora, filha de Otávio Cavalcanti e D. Conceição Baltazar, iniciou a carreira teatral na cidade de Santos, SP, atuando na Companhia Arruda. Durante muito tempo atuou como atriz de teatro de revistas e sua beleza chegou a merecer do poeta e compositor Orestes Barbosa as seguintes palavras: "Ave rara, doce morena, ave pernalta com olhar de corsa mansa".

Foi corista da Companhia de Revistas Tro-ló-ló e atuou nos teatros Carlos Gomes e Glória e no cabaré Alcazar. Em 1927, atuou com a Companhia Tro-lóló na revista Você quer é carinho, de Nelson de Abreu, Luís Iglézias e Geysa Bôscoli com músicas de Paraguassu e Sinhô.

Embarcou em 1928, com a Companhia Brasileira de Revistas Tro-ló-ló, para uma tounée pela Argentina, Chile e Uruguai que durou quase três meses. Em 1929, fez parte o elenco da revista Pátria amada, apresentada no teatro Recreio, RJ. Na ocasião, recebeu do crítico Mário Nunes o seguinte comentário: "Sabe cantar expressivamente, sublinhando tudo com meneios quentes".

Gravou pela primeira vez em 1930, pela Odeon, o samba-canção "Diga", de Gonçalves de Oliveira e Lamartine Babo, e a "Canção dos Infelizes", de Donga, Luiz Peixoto e Marques Porto, com acompanhamento da Orquestra Pan American. Nesse ano, gravou na Parlophon os sambas "Pedaço de mau caminho", de Eduardo Souto e Osvaldo Santiago, e "Gongá", de José Luiz da Costa, com acompanhamento da Simão Nacional Orquestra, e os sambas "Tem moamba", de Eduardo Souto e João de Barro, e "Vou pedir à padroeira", de Américo de Carvalho, com acompanhamento da Orquestra Guanabara.

Ainda em 1930, participou de um concurso musical promovido pelo jornal Diário Carioca, como uma das principais cantoras da época. Atuou também na revista "Dá Nela", de Marques Porto e Luiz Peixoto, apresentada no Teatro Recreio fazendo sucesso com a interpretação da música título, de Ary Barroso. A nova estrela usava em cena calças compridas e blusa branca, lenço vermelho na cintura, chapéu de abas largas e leque, cantando a marchinha de Ary no 15º quadro do primeiro ato. A cor vermelha era símbolo da Aliança Liberal. Devido ao grande sucesso, Zaíra trisou a apresentação.

O crítico Lafayette Silva, do Correio da manhã, assim saudava a atriz: "Zaíra cavalcanti é a mais séria ameaça do teatro popular".

A música consagrou a atriz e fez com que Ary Barroso ganhasse o concurso carnavalesco daquele ano. A marchinha foi gravada por Franscisco Alves, nesse mesmo ano.

Zaíra continuou lançando sucessos e sendo uma das figuras mais queridas de nosso teatro.

Pouco depois, estreou no mesmo teatro a revista "Eu sou do amor", música de Ary Barroso, peça escrita por Aricles França e Elieser de Barros. Estrelou em seguida, com grande sucesso a revista "Pau-brasil", de Marques Porto e Luiz Peixoto com músicas de Ary Barroso e Júlio Cristóbal. Atuou também na revista "Vai dar o que falar", de Marques Porto e Luiz Peixoto com músicas de Ary Barroso e Antônio Neves apresentada no Teatro João Caetano.

Em 1931 gravou com acompanhamento da Orquestra Guanabara, os sambas "Caranguejo também sobe no arvoredo", de Mário Barros e "Sem querer...", de Ary Barroso, Marques Porto e Luiz Peixoto.

Em 1932, voltou para a Odeon e gravou, com acompanhamento da Orquestra Copacabana, o fox "Quando escuto você cantar", de Milton Amaral e Jerônimo Cabral, e o samba "Quando tu fores bem velhinho", de Paulo Orlando e Jerônimo Cabral. Com a mesma orquestra gravou de Oscar Cardona o samba "Nossas cores" e o choro "Não terás perdão".

Em 1933, viajou com a Companhia Tro-lóló para apresentações em Portugal.

Gravou somente sete discos (14 músicas) pelas gravadoras Odeon e Parlophon, tendo sua carreira se restringido depois somente ao Teatro de Revista.

Em 1949, atuou com sucesso na revista "Confete na boca", apresentada no Teatro Glória ao lado de nomes como Dercy Gonçalves e Dircinha Batista. Na ocasião, o crítico Antônio Accioly Neto assim escreveu a seu respeito nas páginas da revista O Cruzeiro: "Zaíra Cavalcanti, sem embora cantar aqueles seus antigos sambas tão cheios de dengues, que fizeram época, ainda é um grande elemento no gênero".

Em 1952, participou na Rádio Tupi da festa pelos 49 anos do compositor Ary Barroso e interpretou na ocasião o samba "Dá Nela".

Teve atuação também no cinema. Um de seus últimos filmes, a atriz contracena com Mazzaropi em "Uma Pistola para Djeca".

A atriz faleceu em 1981 no Retiro dos Artistas.

Zaíra de Oliveira

(1891 ***** Rio de Janeiro, 15/08/1952)

Cantora soprano obteve formação clássica pelo Instituto Nacional de Música, atual Escola Nacional de Música.

Em 1921, venceu um concurso de canto na escola de música, principal orgão oficial no ensino de música na então Capital Federal, mas não pode receber o prêmio por ser negra.

Fez parte do "Coral brasileiro", integrado entre outros por Bidú Saião e Nascimento Silva e idealizado por Eduardo Souto. Em 1922,apresentou-se na Exposição do Centenário da Independência do Brasil em uma barraca montada pela Rádio Sociedade que tinha um estúdio na Exposição. A orquestra popular foi montada pelo maestro Pixinguinha e contou ainda com as participações dos Oito batutas e Bonfiglio de Oliveira.

Estreou em discos em 1924, na Odeon, gravando seis músicas, os fox-trot "Cabeleira a la garçone", com arranjos de Pedro de Sá Pereira e "La monteria", de J. Guerrero; o cateretê "Choroso", de autor desconhecido e as canções "Cantiga", "Amargura" e o fado-tango "Guitarrada", as três de Eduardo Souto. Apresentou-se na Rádio Sociedade do Rio de Janeiro acompanhada do regional de Canhoto.

Em 1925, participou de um festival artístico no Teatro Municipal de Niterói e na ocasião interpretou "Tosca", de Puccini; "Berceuse", de Alberto Nepomuceno; "Schiavo", de Carlos Gomes; "A despedida", de Eduardo Souto e Bastos Tigre e "Cantiga praiana", de Eduardo Souto e Vicente Carvalho. Nesse ano, fez sucesso no carnaval com o fox-trot "Cabeleira a la garçone".

Em 1926, fez uma série de oito gravações em dueto com o cantor Bahiano interpretando as marchas "O teu olhar", de autor desconhecido e "Quando me lembro", de Eduardo Souto e João da Praia; o cateretê carnavalesco "Eu só quero é conhecer", de Eduardo Souto e o cateretê "Caboclo véio"; a canção "Cale a boca" e os sambas "Que tem, tem"; "Um caso sério" e "Seu Cabral gostou", de autores desconhecidos. Por essa época, apresentou-se com Catulo da Paixão Cearense e Gastão Formenti no cassino do Hotel Copacabana Palace.

No carnaval de 1927, fez sucesso com a marcha-carnavalesca "Dondoca", de José Francisco de Freitas, o Freitinhas, gravada em dueto como cantor J. Gomes Jr.

Em 1931, ingressou na Parlophon e lançou os sambas "É preciso fingir", de Gentil Torres e Osvaldo Santiago e "Pode bater", de Luperce Miranda e Osvaldo Santiago, que fez razoável sucesso popular, com acompanhamento da Orquestra Guanabara. Em seguida, gravou a valsa "Solange" e a canção "Lua culpada", de Duque e a "Canção dos infelizes", de Donga e Luiz Peixoto e o "Fado da bossa", de Donga e Augusto Calheiros. Nesse ano, gravou na Victor com o Grupo da Guarda Velha e Francisco Sena, a batucada "Já andei" e a macumba "Que querê", de Pixinguinha, Donga e João da Baiana.

Cantou na Rádio Guanabara do Rio de Janeiro sendo acompanhada pelo conjunto "Jacob e sua Gente", formado pelos instrumentistas Carlos Gil, no cavaquinho, Osmar Menezes, no violão, Valério Farias,o "Roxinho", no violão, Manoel Gil, no pandeiro e Natalino Gil, como ritmista, liderado por Jacob do Bandolim.

Gravou um total de 21 discos com 25 músicas pelas gravadoras Odeon, Parlophon e Victor, das quais se destacaram como sucessos populares a valsa "Solange" e a batucada "Já andei", a primeira, composição do bailarino Duque e a segunda, de Pixinguinha, Donga e João da Baiana, quatro dos principais artistas brasileiros negros da época. Cantou também em coros de muitas igrejas.

Em 1932, casou-se com o compositor Donga, pioneiro do samba carioca.

Em 2003, teve sua gravação da marcha "Dondoca", de Freitinhas, relançada pelo selo Revivendo no número 20 da série "Carnaval - Sua História, sua glória. Foi professora de música do Colégio Orsina da Fonseca, tendo lecionado para Dona Ivone Lara.

Foi considerada pelo embaixador Paschoal Carlos Magno como uma das maiores cantoras negras do mundo, opinião que contrasta com o pequeno número de gravações que deixou, o que se explica pelas dificuldades de gravação na época, que se agravavam para uma cantora negra.

É mãe da pesquisadora Lígia Santos.

Fonte: Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira

Zé Fidélis

(São Paulo, 23/09/1910 ******* São Paulo, 15/03/1985)

Zé Fidélis (Gino Cortopassi) foi um cantor, compositor, radialista e humorista. Um dos pioneiros do humor radiofônico.

Apresentava-se como o "inimigo número um da tristeza", com seu humor ingênuo, que se apoiava seja nas paródias de músicas de sucesso, seja no "nonsense" de transmissões radiofônicas em que irradiava um enterro com a entonação e o ritmo de um locutor esportivo, seja nas "piadas de português" e outras imitações.

Desde sua estréia no programa "Cascatinha do Genaro", de João Batista de Almeida, na década de 30, Gino ganhou nova identidade que o tornaria conhecido graças ao rádio e, depois, ao disco durante três décadas: Zé Fidélis. Um sucesso que o levaria a apresentações como "one-man-show" em palcos famosos como o do Cassino da Urca ou do antológico Quitandinha.

Em 1938, gravou seu primeiro disco pela Columbia, interpretando as marchas "Construí uma casinha", de Veríssimo de Oliveira e Raimundo Chaves, e "Versos de Camões", de Francisco Malfitano e Frazão.

Em 1940, gravou com Chico Carretel o "Desafio número 3" e o cômico "Consulta médica". Em 1943, gravou as paródias "Manuelita" I e II, de sua autoria, e L. Daniderff. Em 1949, gravou com Seus Malucos, a paródia "Pega a reta", com Mário Zan e Arlindo Pinto e o humorismo "Vasco x Arsenal.

Já em 1950, gravou pela Continental o humorismo "Transmissão maluca", acompanhado pelo grupo Seus Malucos. Em 1952, gravou a paródia "Vingança" sobre a composição de Lupicínio Rodrigues e o humorismo "O grande prêmio". Em 1953, gravou a paródia "Beijinho horroroso", composto com Nhô Pai e o xote "Carta de amor" de sua autoria.

Gravou a paródia "Casa de Teresa" e o humorismo "Luta de boxe"em 1954. Já em 1955, gravou uma paródia de "Rosa", de Pixinguinha, e o humorismo "Irradiação do casamento", de sua autoria. O xote de motivo popular "Casamento da crioula", e de sua autoria o cômico "O candidato burro...crata" foram gravados em 1956 e em 1957, gravou de sua autoria a balada satírica "Boneca cabeçuda", e o humorismo "Portugal x Itália". Em 1958, lançou pela Continental, o primeiro LP de humor no Brasil, "Zé Fidélis e suas paródias". Em 1959, gravou "Caminho avacalhado", paródia de "Vereda Tropical", e o humorismo "PR-CC", as duas de sua autoria. No mesmo ano, gravou de Ubaldo Calvo, o rock "Babalina".

Em 1960, gravou uma paródia de "Mula preta", composição de Raul Torres, intitulada "Cavalo amarelo", e o xote "Noivo pão-duro". Ainda na década de 60, em 1961, gravou "Valdemar Bastião", uma paródia de Bat Masterson, em 1962, gravou o tango "Perfume dela", em 1963, gravou a valsinha "Acredite se quiser", e a marcha "Lá vem a onça", de sua autoria.

Compôs também músicas que não eram paródias como o bolero "Meu castigo", gravado pelo Duo Guarujá e "Horas felizes", gravada pela dupla Ouro e Prata. Em 1972, a dupla Alvarenga e Ranchinho gravou na RCA sua composição "Meu boi", paródia para "Meu bem", sucesso de Ronnie Von. Em 1981, o selo Sertanejo lançou o LP "50 anos de humor legal".

Apesar de elogiado por Sérgio Rabello, Ari Toledo e Manézinho Araújo e de ser amigo de Osvaldo Molles e Lauro Borges, grandes nomes do humor nacional, o autor, nascido em 1910, terminou seus dias numa clínica de repouso em São Paulo.

Alguns de seus livros publicados: "História do mundo", "Binho, mulata e vacalhau", "Teatro maluco", Meningite aguda", "Lira arreventada", "Sarravulho", "Muito sangue e pouca areia", "Bérsos a Gasugênio", "A ópera pela tripa" e "Seleção Canalhinha", editada por Folco Masucci - São Paulo, 1968, pág. 100, de onde foram extraídos os versos abaixo:


U PÃO D'AÇÚCRE
(Zé Fidélis)

"A única vivida qui póde ser chamada de fina
é u chôpe, purque é a única qui usa cularinho!"
Antarctica


Logo au chigar lá nu Rio,
Comu todo vom turista,
Fui bêre u tal Pâo D'Açúcre,
Qui já di longe si abista.

Andei a pé um vucado,
Prá chigáre ondi ele istaba,
U vichinho é mesmu grande.
É um pão qui não mais si acaba.

I prá tirar minha dúbida
Si é mesmu di açúcre u tale,
Chigãi-me prá pérto i dãi-lhe
Uma dentada infernále!

Papagaio! aquilo é duro!
É di pedra u raio du monte...
Arreventei cinco dentes,
Dois pibôtes i uma ponte!

Zezé Fonseca

(Rio de Janeiro/RJ, 5/8/1915 ****** Rio de Janeiro/RJ, 16/8/1962)

Maria José González ao lançar-se como cantora adotou o nome artístico de Zezé Fonseca.

Aluna do Instituto de Música do Rio de Janeiro, estudou canto com Olinda Leite de Castro. Iniciou a carreira apresentando-se na "Hora da Arte", no Tijuca Tênis Clube, no Rio de Janeiro.

Em 1932 entrou para a Rádio Philips, através de Paulo Bevilácqua e passou a presentar o programa "Fox tarde demais".

Em 1933, gravou seu primeiro disco pela Columbia, interpretando a marcha "Põe a chave embaixo...", de Assis Valente e o samba "Mulato cheio de bossa", de Sílvio Pinto e Milton Musco. No mesmo ano, gravou com Breno Ferreira, a marcha "Eta caboclo mau", de Joubert de Carvalho e Luiz Martins.

Depois da estréia como cantora, integrou a companhia teatral de Procópio Ferreira na peça "Deus lhe pague", de Joraci Camargo. Durante algum tempo produziu programas femininos na Rádio Cruzeiro do Sul, trocando-a pela Rádio Philips em 1934.

Em 1935, gravou a marcha "Amor, amor" e o samba "Quero a liberdade", ambas de Sílvio Pinto. No ano seguinte, foi contratada pela Victor e lançou as marchas "Retalho de felicidade", de José Maria de Abreu e Oduvaldo Cozzi e "São João há de sorrir", de José Maria de Abreu e Francisco Matoso. Nesse mesmo ano, abandonou o rádio e somente retornou em 1939, ingressando na Rádio Nacional, onde trabalhou seis anos.

Entrou para a história da MPB a partir de 1942, por manter um tórrido romance com o cantor Orlando Silva, cujos altos e baixos provocaram sério desequilíbrio emocional no grande intérprete fazendo-o ingressar nas drogas. Disso resultou o afastamento de Orlando da cena artística por alguns anos.

Em 1940 gravou com Barbosa Júnior a marcha "Hino da alegria" e o samba "Foi você", ambas da dupla Juraci Araújo e Gomes Filho. Em 1945 esteve em Montevidéu, Uruguai, e Buenos Aires, Argentina, realizando programas para a Rádio El Mundo. Em 1946 foi para a Rádio Globo.

Conhecida principalmente como intérprete de radionovelas brasileiras, foi uma das pioneiras e considerada a melhor radioatriz da Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, até 1954, destacando-se sua atuação em "Os amores de George Sand", na Mayrink Veiga, e "Romance da eternidade", na Nacional.

Gravou dois discos pela Victor e cinco pela Columbia, num total de sete 78 RPMs no período 1933/40.

Morreu tragicamente em um incêndio em seu apartamento na cidade do Rio de Janeiro.

Fonte: Cantoras do Brasil

Zé da Zilda

(Rio de Janeiro/RJ, 6/1/1908 ******* Rio de Janeiro/RJ, 10/10/1954)

O cantor e compositor Zé da Zilda, como era conhecido José Gonçalves, nasceu no Rio de Janeiro RJ em 6 de janeiro de 1908.

Filho de músico, nascido no subúrbio de Campo Grande, aos cinco anos começou a se interessar pelo cavaquinho, aprendendo os rudimentos de música com o pai. Por volta de 1920 morava no morro da Mangueira, onde fez amizade com vários sambistas, entre os quais Cartola, que mais tarde seria seu parceiro.

Na companhia teatral Casa de Caboclo, organizada por Duque, começou a cantar emboladas e sambas, acompanhando-se ao cavaquinho e violão, e interpretando o personagem Zé com Fome, que durante muito tempo foi seu nome artístico.

A convite de Duque, ingressou na Rádio Educadora, formando dupla com Pente Fino (Claudionor Cruz). Depois foi para a Rádio Transmissora, já como chefe de um regional e com programa próprio, no qual conheceu a cantora Zilda, que fazia sua estréia. Com ela formou inicialmente a Dupla da Harmonia.

No Carnaval de 1936, seu samba Não quero mais (com Cartola e Carlos Cachaça), foi cantado com grande sucesso pelo G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira, na Praça Onze, gravado no ano seguinte por Araci de Almeida, na Victor, e mais tarde relançado por Paulinho da Viola, no LP Nervos de aço, com o nome de Não quero mais amar a ninguém .

Em 1938 casou com Zilda e passaram a atuar na Rádio Clube do Brasil. Em seguida, Orlando Silva gravou na Victor Meu pranto ninguém vê (com Ataulfo Alves). Em 1939 a dupla passou a atuar na Rádio Cruzeiro do Sul, no programa de Paulo Roberto, que os batizou de Zé da Zilda e Zilda do Zé, nome que adotaram em suas apresentações, inclusive em circos.

Em 1940, participou da gravação de Leopold Stokowski no navio Uruguai, para o álbum de música brasileira editado nos EUA pela Columbia. No ano seguinte compôs, com Marino Pinto, o samba Aos pés da cruz, gravado por Orlando Silva na Victor com grande sucesso.

Com seus choros Fim de eixo e Levanta, José, a dupla estreou em disco, na Victor, em 1944. A partir dessa época realizaram várias gravações de músicas suas e de outros compositores, como Só pra chatear (Príncipe Pretinho). Em 1945 começaram, com grande sucesso, a gravar para o Carnaval, estreando com Conversa, Laurindo (com Ari Monteiro), na Continental, e ao mesmo tempo trabalharam na Rádio Mayrink Veiga.

Do Carnaval de 1954 é o grande sucesso da dupla, em parceria com Zilda e Valdir Machado, a marcha Saca-rolha, conhecida por seu primeiro verso, "As águas vão rolar...", que eles mesmos gravaram na Odeon. No mesmo ano lançaram para o Carnaval o samba Jura (com Marcelino Ramos e Adolfo Macedo).

Pouco antes de morrer, deixou gravados com Zilda, para o Carnaval de 1955, a marcha Ressaca(da dupla com Valdir Machado) e o samba Império do Samba (da dupla). No ano seguinte Zilda homenageou sua memória com o samba Vai que depois eu vou (com Zilda do Zé, Adolfo Macedo e Aírton Amorim), lançado pela Odeon, com enorme sucesso. Voltou a lembrar o marido, com o samba Vem me buscar (Zilda com Adolfo Macedo).

Outras músicas de sua autoria, entre as quais os sambas de breque Nega zura, Mulher malandra e Garota Copacabana, foram gravadas e relançadas por Jorge Veiga em 1975, no seu LP O melhor de Jorge Veiga, pela Copacabana.

Obras

Aos pés da cruz (c/Marino Pinto), samba, 1942; Conversa, Laurindo (c/Ari Monteiro), samba, 1945; Fim de eixo, choro, 1944; Garota Copacabana, samba, 1975; Império do samba (c/Zilda do Zé), samba, 1954; Jura (c/Marcelino Ramos e Adolfo Macedo), samba, 1954; Levanta José, choro, 1944; Meu pranto ninguém vê (c/Ataulfo Alves), samba, 1938; Mulher malandra, samba, 1975; Não quero mais (Não quero mais amar a ninguém) (c/Cartola e Carlos Cachaça), samba, 1937; Nega zura, samba, 1938; Quem mente perde a razão (c/Edgard Nunes), samba, 1942; Ressaca (c/Zilda do Zé e Valdir Machado), marcha, 1953; Saca-rolha (c/Zilda do Zé e Valdir Machado), 1953; Santo Antônio amigo (c/Marino Pinto e J. Cascata), samba, 1941.

Zé da Zilda faleceu aos 46 anos de idade, vítima de um derrame cerebral. Por ocasião de seu falecimento, assim reportou-se o jornal O Globo no dia seguinte: "Da manhã de sexta à manhã de sábado perduraram as esperanças de que o derrame cerebral se tornasse frustado e os médicos devolvessem aos ouvidos do povo a voz do seu cantor. Mas às 11h20m de anteontem entrou em luto o samba nacional ao confirmar-se a notícia triste: faleceu Zé da Zilda, que na linguagem musical proclamava que "o mundo inteiro não valia o seu lar", e que tornara amarguras da vida carioca em reclamação melodiosa no sucesso "Saca-rolha", do último carnaval. Contava ele com 46 anos de idade".


Fontes: Sites Blog Cifra Antiga; Dicionário Cravo Albin da MPB.

Zé Keti

(Rio de Janeiro/RJ, 6 de outubro de 1921 — Rio de Janeiro/RJ, 14 de novembro de 1999)

Zé Keti, pseudônimo de José Flores de Jesus, nasceu no Rio de Janeiro, em 16 de setembro de 1921, mas só foi registrado, em 6 de outubro, no bairro de Inhaúma.

Neto do flautista e pianista João Dionísio Santana, companheiro do compositor Índio e de Pixinguinha, e filho de um marinheiro tocador de cavaquinho, Josué Vale de Jesus, desde criança interessou-se por música.

Aos 13 e 14 anos, quando morava no subúrbio de Piedade, Zé Keti foi levado por Geraldo Cunha, compositor do G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira e parceiro de Carlos Cachaça, para assistir a ensaios daquela escola, seu primeiro contato com a música dos morros. Mais tarde, mudou-se para o subúrbio de Bento Ribeiro e foi levado para o G.R.E.S. da Portela pelo compositor, e depois presidente da escola, Armando Santos. Começou a desfilar em sua ala dos compositores e a compor, sem mostrar suas músicas a ninguém, só o fazendo mais tarde, aos 18 anos, quando já freqüentava as rodas boêmias do Café Nice, levado por Luís Soberano.

Zé Keti afastou-se dos meios musicais entre 1940 e 1943, quando serviu como soldado na Policia Militar. Por essa época, compôs sua primeira marcha carnavalesca, "Se o Feio Doesse". Teve sua primeira composição gravada, "Tio Sam no Samba" (com Felisberto Martins), pelos Vocalistas Tropicais, em 1946. No mesmo ano, Ciro Monteiro gravou para o Carnaval, com Raul de Barros (trombone), Gilberto (ritmo) e Odete Amaral (coro), "Vivo Bem" (com Ari Monteiro).

Em 1952, Linda Batista lançou em disco "Amor Passageiro", sucesso no Carnaval desse ano. Seu êxito seguinte foi "Leviana", lançado como samba de terreiro na Portela e mais tarde gravado por Jamelão.

Antes de 1954, Zé Keti afastou-se da Portela por acusações que punham em duvida a autoria de suas músicas, transferindo-se então para a União do Vaz Lobo. Aí, lançou "A Voz do Morro", gravada em 1955 por Jorge Goulart, com grande sucesso. Em 1955, "A Voz do Morro" e "Leviana" foram incluídas no filme "Rio, 40 Graus", de Nelson Pereira dos Santos. Retornou à Portela e, em 1960, participou das atividades musicais do restaurante Zicartola, atuando como apresentador dos velhos compositores, ainda então desconhecidos do público, como Cartola e Nelson Cavaquinho, e dos novos, como Paulinho da Viola e Elton Medeiros.

Em 1961, Zé Keti lançou, na quadra de ensaios da Portela, o samba "Velha Guarda da Portela", obtendo sucesso. Nesse ano ainda, o cantor Germano Matias gravou com êxito o samba "Malvadeza Durão". Em 1962, o compositor, aproveitando o sucesso do samba "A voz do Morro", idealizou um conjunto homônimo que começou a ensaiar com a participação de Nelson Cavaquinho, Cartola, Elton Medeiros e Jair do Cavaquinho.

Em 1964, Zé Keti, ao lado de Nara Leão e João do Vale, encenou o show Opinião, em que lançou alguns sambas de sucesso, como "Opinião", "Acender as Velas" e "Diz que Fui Por Aí" (com Hortênsio Rocha). Por essa época, Nara Leão gravou em seu primeiro disco solo (Nara) o samba "Diz que Fui Por Aí". Em seu disco "Opinião de Nara", ela incluiu duas outras composições suas, "Opinião" e "Acender as Velas". Também em 1964, Germano Matias lançou "Nega Diná" e "O Assalto" e, no ano seguinte, o compositor recebeu convite da Musidisc para gravar seus sambas numa fita a ser entregue aos cantores da gravadora, para escolha de repertório. Lá Zé Keti compareceu, levando outros sambistas até então desconhecidos, como Paulinho da Viola, Nescarzinho do Salgueiro, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho, Oscar Bigode e Zé Cruz, que fizeram o acompanhamento e apresentaram seus sambas. A gravadora resolveu lançar então o LP "Roda de samba", com o conjunto de sambistas denominado "A Voz do Morro", concretizando antigo plano seu. Esse mesmo conjunto, com Nelson Sargento, gravou mais dois LPs, um pela Musidisc (1965) e outro pela RGE (1966). O compositor teve ainda dois sambas, em parceria com Elton Medeiros – "Mascarada" e "Samba Original" – gravados no LP "Na Madrugada", interpretado por Paulinho da Viola e Elton Medeiros, lançado pela RGE em 1966. Para o Carnaval de 1967, compôs a marcha-rancho "Máscara Negra" (com Hildebrando Pereira Matos), embora a primeira parte tenha sido atribuída ao irmão deste, Deusdedith Pereira Matos. Foi um dos maiores êxitos de sua carreira.

No cinema, em 1957 teve seus sambas "Malvadeza Durão" e "Foi Ela" incluídos no filme "Rio, Zona Norte", de Nelson Pereira dos Santos. Em 1958, sua música "A Flor do Lodo" foi incluída no filme "Grande Momento", de Roberto Santos. Seus sambas também foram incluídos nos filmes "Boca de Ouro" (1962), de Nelson Pereira dos Santos; "A Falecida" (1965), de Leon Hirszman, e "A Grande Cidade" (1966), de Carlos Diegues.

Nas décadas de 1970 e 1980, Zé Keti morou em São Paulo SP. Em 1990, de volta ao Rio de Janeiro, participou de uma remontagem do show Opinião. Em 30 de dezembro de 1994, durante show de Paulinho da Viola com a Velha Guarda da Portela, no Leme, Rio de Janeiro, subiu ao palco a convite e cantou várias músicas.

Em 1996, aos 75 anos de idade e mais de 200 músicas compostas, Zé Keti gravou o primeiro CD da série Rio Arte Musical, produzido por Henrique Cazes, com quatro músicas inéditas e vários antigos sucessos. Ainda em 1996, em junho, o cantor Zé Renato (ex-Boca Livre) lançou o CD Natural do Rio de Janeiro, com 14 músicas suas. Em outubro desse mesmo ano, subiu ao palco com a cantora Marisa Monte e a Velha Guarda da Portela (Jair do Cavaquinho, Monarco, Casquinha e Argemiro) e interpretou com enorme sucesso alguns clássicos do samba, como "A Voz do Morro" e "O Mundo é Um Moinho" (Cartola), entre outros.

Em 1997, Zé Keti completou 60 anos de carreira e foi homenageado com o show Na Casa do Noca, na Gávea, Rio de Janeiro. Ainda em 1997, recebeu da Portela um troféu em reconhecimento por seu trabalho e participou da gravação do disco Casa da Mãe Joana. A Editora Globo lançou, em 1997, o fascículo com CD Zé Kéti na coleção MPB Compositores, n.º 32.

Zé Keti faleceu em 1999, aos 78 anos, de falência múltipla dos órgãos.


Fontes: Biografia: Enciclopédia da Música Brasileira; Art Editora e PubliFolha; Cliquemusic; dicionariompb; Wikipédia.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Zé Rodrix

(Rio de Janeiro/RJ, 25 de novembro de 1947 *********** São Paulo/SP, 22 de maio de 2009)

O cantor e compositor Zé Rodrix, nome artístico de José Rodrigues Trindade, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 25 de novembro de 1947.

Filho de um mestre-de-banda, estudou no Conservatório Brasileiro de Música e na Escola Nacional de Música, onde aprendeu, além de teoria musical, harmonia e contraponto, piano, acordeom, flauta, saxofone e trompete.

Integrou em 1966 o conjunto Momento 4uatro, com que se apresentou no III Festival de Música Brasileira da TV Record em 1967, acompanhando Marília Medalha, Edu Lobo e o Quarteto Novo com "Ponteio".

Nos anos 70, integrou o grupo Som Imaginário - criado para acompanhar uma turnê de Milton Nascimento -, ao lado de músicos como Tavito, Wagner Tiso, Fredera e Robertinho Silva, e continuou compondo.

"Casa no Campo", composição sua e Tavito, ganhou o Festival de Juiz de Fora, em 1971, e fez muito sucesso na voz de Elis Regina.

Ao sair do grupo, formou o trio Sá, Rodrix & Guarabyra. O trio se transformou em ícone do chamado “rock rural’’. Os músicos foram responsáveis por um famoso jingle da Pepsi na década de 1970, conhecido pela estrofe “só tem amor quem tem amor pra dar”.

Depois, Zé Rodrix saiu em carreira solo, fazendo bastante sucesso com a bem humorada "Soy Latino Americano".

O artista também atuou no grupo "Joelho de Porco", mas passou a se dedicar mais à publicidade, sendo um dos nomes referência em jingles no Brasil.

Zé Rodrix também se dedicou à carreira de escritor, estreando com o livro "Diário de um Construtor do Templo" (1999).

No início dos anos 2000, o músico causou polêmica ao revelar, em uma entrevista, que era maçom. Zé Rodrix chegou a lançar uma trilogia de livros sobre a maçonaria.

Em 2001, Zé Rodrix voltou a se reunir com os companheiros Luís Carlos Sá e Gutemberg Guarabira para uma apresentação do Rock in Rio. No mesmo ano, o trio lançou um DVD ao vivo, reunindo seus maiores sucessos: "Sá, Rodrix & Guarabyra: Outra Vez Na Estrada - Ao Vivo".

Em 2008, o trio lançou CD com material inédito, "Amanhã".

Nos últimos anos, Zé Rodrix também retomou a parceria com Tavito.

Zé Rodrix morreu na madrugada do dia 22 de maio de 2009, em São Paulo, onde morava.

O músico se sentiu mal e foi levado às pressas ao Hospital das Clínicas, onde morreu por causa de um infarto agudo do miocárdio.

Zé Rodrix deixou mulher, seis filhos e dois netos.

Foi casado com Lizzie Bravo, com quem teve Marya Bravo atriz e cantora. Com a atriz Norma Blum, teve outra filha, Mayana Blum. Estava casado com Julia Rodrix.


Fontes: Sites Cliquemusic; Folha Online

Zilá Fonseca

(São Paulo/SP, 12 de abril de 1929 -------------- Rio de Janeiro/RJ, 30 de maio de 1992)

Iolanda Ribeiro Angarano, conhecida no meio artístico como Zilá Fonseca, nasceu em São Paulo, onde deu início a sua carreira artística.

Em 1949, casou-se com Osvaldo Luís, na época locutor da Rádio Mayrink Veiga. Durante muito tempo foi considerada uma especialista na arte de cantar tangos e boleros.

Em 1939, foi contratada pela Rádio Tupi de São Paulo. Em seguida, transferiu-se para o Rio de Janeiro, passando a atuar na Rádio Mayrink Veiga. Em 1938, lançou pela Columbia, seu primeiro disco, com acompamento de Antônio Rago e seu conjunto regional, interpretando a marcha "Se ele perguntar por mim" e o samba "Fiz esta canção", ambas do compositor Sereno.

Em 1940, participou do filme "Vamos cantar", dirigido por Leon Marten. No mesmo ano lançou dois de seus grandes sucessos, a marcha "A charanga do Oscar", de Malfitano, Silva Araújo e Geraldo Mendonça e o samba "Sei lá si tá", de Valfrido Silva e Alcir Pires Vermelho. Em 1942, gravou na Victor as marchas "A vontade do freguês", de Malfitano e Jorge Faraj e "Olha a conga", de Malfitano e Silva Araújo.

Em 1945, foi contratada pela Odeon e lançou os sambas "Já não posso mais", de Milton de Oliveira e Gilberto de Carvalho e o grande sucesso de "Muita gente no samba", de autoria de Ari Monteiro. No ano seguinte gravou "Nicanor vai ser chutado", samba de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira.

No ano de 1948 Zilá Fonseca transferiu-se para a Star, onde gravou "Quero um samba", de Assis Valente e Júlio Zamorano "Onde vamos morar" de Antonio Valentim dos Santos e Aldacir Evangelista e o grande sucesso "A aurora vem raiando", de Nelson Trigueiro. Em 1949, atuou no filme "Estou aí", com direção de José Cajado Filho.

Zilá Fonseca foi contratada, em 1951, pela Todamérica, estreando com a marcha "Meu barracão não cai", de Valdir Gonçalves e Irani de Oliveira e o samba "Nome manchado", de Paulo Marques e Alice chaves. Em 1952 gravou o baião "A jangada não vem", de sua parceria com Osvaldo Silva e o samba "Agradeço a você", de Altamiro Carrilho e Armando Nunes. No ano seguinte, retornou para a Columbia e gravou o samba canção "Jerusalém", de Castro Perret e a canção "Noite de luz", de Gruber e Ossaldo Moles.

Em 1954, gravou com Cauby Peixoto o bolero "Vaya com Dios", de Russel, James e Pepper, com versão de Joubert de Carvalho e o baião "Elvira", de Rômulo Paes e Henrique de Almeida. No ano seguinte gravou o clássico samba "A voz do morro", de Zé Keti. Em 1956, registrou o samba "Vingança de pobre", de Hianto de Almeida e Francisco Anysio e no ano seguinte o samba "Se acaso você chegasse", de Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins. No mesmo ano, foi lançada pela Columbia a coletânea "Zila Fonseca" com oito sucessos dela: os boleros "Contigo", de C. Estrada, e versão de Julio Nagib, "Desamparada", de Alfredo Gil, e versão de Cauby de Brito, e "Dissimuladamente", de Nelson Sheffick, Romulo Paes e Henrique de Almeida, os sambas-canção "Dois estranhos", de Oldemar Magalhães e Alberto Costa, "Conflito", de Nazareno de Brito e Hianto de Almeida, e "Sonhei", de Aldacir Louro e Jair Maia, e as valsas "Se valsarmos outra vez", de S. Prosen, e versão de Ataliba Santos, e "Sob o céu de Paris", de Drejac e Giraud, e versão de Osvaldo Quirino.

Em 1957, ficou em segundo lugar na votação popular para a escolha da "Rainha do Rádio" recebendo 159.580 votos. Ainda no mesmo ano, lançou pela Columbia o LP "Zilá Fonseca" no qual interpretou os tangos "Exagerada", de Linda Rodrigues e Fausto Guimarães, e "Cantando", de Mercedes Simone, e versão de Virgínia Amorim, os sambas "Fita meus olhos", de Peterpan, "Sin ti", de P. Guizar e versão de Rodolfo Vila, e "A Voz do morro", de Zé Keti, o beguine "Verão em Veneza (Summertime in Venice)", de Icini e C. Sigman, com versão de Ribeiro Filho, o bolero "Minha oração (My prayer)", de G. Boulanger e J. Kennedy, e versão de Cauby de Brito, e a canção "Anahí", de O. Sosa Cordero e versão de José Fortuna. Em 1958, gravou ainda pela Columbia o LP "Sambas da saudade - Vol. II" cantando os sambas "Se acaso você chegasse", de Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins, "Pelo amor que eu tenho a ela", de Ataulfo Alves e Antônio Almeida, "Agora é cinza", de Alcebíades Barcelos "Bide" e Armando "Marçal", "Implorar", de Germano Augusto, Kid Pepe e João Gaspar, "O orvalho vem caindo", de Noel Rosa e Kid Pepe, "Diz que tem", de Haníbal Cruz e Vicente Paiva, "Aperto de mão", de Jaime Florence "Meira", Horondino Silva "Dino" e Augusto Mesquita, e "Choro sim", de Ismael Silva.

Já no ano de 1960 Zilá participou do LP "Carnaval do povo" da gravadora Columbia cantando a marcha "Arruma a trouxa", de João de Oliveira e Castelo. Em 1963, gravou cinco marchas para o LP "Carnaval maravilhoso" da Magisom, que contou com as participações de vários artistas: "Maria Maria", de Serafim Adriano, Angarano Filho e Ilton Aberrian, "Molhei de lágrimas", de José Garcia, Jorge Martins e Nadir Cunha, "No tempo da vovó", de Gilberto Martins e Nadir Cunha, "Separação", de Roberto Martins e Waldemar Gomes, e "Quem não tem razão", de Luis Reis e Miguel Gustavo. Gravou ainda na Chantecler e nos pequenos selos Sarau e Ritmos.

Foi casada com o locutor Oswaldo Luiz, reconhecido como um dos três mais importantes locutores da história do rádio brasileiro, ao lado de César Ladeira.

Seu "slogan", dado por Cesar Ladeira era "a morena que tem glamour".

Fonte: Dicionário Cravo Albin da MPB.

Zequinha de Abreu

(Santa Rita do Passa Quatro/SP, 19 de setembro de 1880 ******* São Paulo/SP, 22 de janeiro de 1935)

José Gomes de Abreu, conhecido como Zequinha de Abreu, era compositor, instrumentista e regente.

Filho do farmacêutico José Alacrino de Abreu, estudou na escola de São Simão, cidade vizinha, transferindo-se depois para o Colégio São Luís, em Itu/SP.

Em 1894, entrou para o seminário episcopal, em São Paulo/SP. Dois anos depois, fugiu e retornou à Santa Rita do Passa Quatro para trabalhar na farmácia do pai.

Estudou harmonia no seminário com o padre Juvenal Kelly (José Pinto Tavares). Datam de 1896 as composições "Flor da estrada" e o maxixe "Bafo de onça".

A Casa Sotero, do Rio de Janeiro (RJ), lançou as suas primeiras composições editadas, "Soluços d'alma" e "D'alva". Nesse período organizou uma banda e uma orquestra, que se tornaram conhecidas nas cidades do interior de São Paulo.

Num baile em Santa Cruz da Estrela (SP), conheceu a professora Durvalina Brasil, com quem veio a se casar em 1899. Residindo naquela cidade, abriu uma farmácia e afastou-se da música por um período, que seria breve.

De volta à Santa Rita do Passa Quatro, retomou seu envolvimento com as partituras, criando a Lira Santa Ritense e a Orquestra do Cinema Smart. Conseguiu um emprego como escrevente da coletoria e, em 1909, tornou-se secretário da câmara municipal. Além desssas atividades, continuava a compor e a coordenar a Lira Santa Ritense.

Em 1917, num baile em Santa Rita do Passa Quatro, apresentou um chorinho inacabado e ainda sem nome, que se tornou uma das músicas brasileiras mais gravadas em todos os países do mundo. Contam que, ao final da interpretação do número, impressionado com os pares que pulavam freneticamente, disse aos músicos: "Até parece tico-tico no farelo!" Surgiu daí o título definitivo, "Tico-tico no fubá", que, mais tarde, seria divulgada internacionalmente pela interpretação de Carmen Miranda.

Compôs também outro grande sucesso, a valsa "Branca", dedicada à filha do chefe da estação ferroviária local, Branca Barreto.

Uma de suas primeiras composições gravadas foi o tango "Astro apagado", por Arthur Castro.

Em 1919, mudou-se para São Paulo (SP), onde passou a trabalhar como pianista demonstrador da Casa Beethoven e na Orquestra do Bar Viaduto. Reforçava o seu orçamento interpretando ao piano suas composições e vendendo as partituras para famílias abastadas.

Em 1924, lançou o choro "Sururu na cidade", que fez grande sucesso devido à forma bem-humorada na qual retratava os dias agitados da Revolução Paulista daquele ano.

No ano de 1927 Zequinha de Abreu teve o samba "Pé de elefante" gravado por Francisco Alves na Odeon. Em 1930 teve a marcha "Patinando", parceria com Vicente de Lima gravada por Arnaldo Pescuma na Victor. Em 1931 a Orquestra Copacabana lançou de sua autoria a valsa "Coração amargurado". No mesmo ano, a Orquestra Colbaz lançou pela Columbia, seus dois maiores sucessos, o choro "Tico-tico no fubá" e a valsa "Branca". No ano seguinte, Jaime Vogeler gravou a valsa "Mulher", parceria com Naro Demóstenes e a Orquestra Típica Victor gravou as valsas "Morrer sem ter amado" e "Último beijo".

Em 1933, pouco antes da sua morte, foi fundada com 25 músicos a Banda Zequinha de Abreu. No mesmo ano, Celestino Paraventi gravou na Odeon as valsas "Tardes em Lindóia", parceria com Pinto Martins e "Longe dos olhos", parceria com Salvador Morais e Francisco Alves gravou de sua parceria com João de Barro, a valsa "Amor imortal".

No fim da sua vida, foi inúmeras vezes ao Rio de Janeiro/RJ, onde conheceu, por intermédio do compositor Bororó, o poeta e compositor Catulo da Paixão Cearense.

O acordeonista Antenógenes Silva gravou, em 1934, as valsas "Elza" e "Súplicas de amor" e a Orquestra Típica Victor, as valsas "Beijos divinais" e "Primavera de beijos".

Em 1942, Ademilde Fonseca gravou "Tico-tico no fubá", com versos de Eurico Barreiros. Em 1952, a Companhia Vera Cruz produziu, sob a direção de Fernando de Barros e Adolfo Celi, o filme "Tico-tico no fubá", baseado na sua vida, estrelado por Anselmo Duarte e Tônia Carrero. No mesmo ano, a Orquestra Star, da gravadora do mesmo nome lançou três dicos com composições de sua autoria, entre as quais, as valsas "Tardes em Lindóia", "Pensando em ti", "Tentadora" e "Aurora".

Em 1954, teve três obras regravadas em discos Copacabana pelo citarista Avena de Castro: o choro "Sururu na cidade", e as valsas "Branca" e "Tardes de Lindóia".

Já na década de 60, em 1962, Waldir Azevedo regravou "Tico-tico no fubá" na Continental. Em 1968, sua clássical valsa "Branca" foi regravada por Gilberto Alves no LP "E as valsas voltaram".

Em 1979, os pianistas Jacques Klein e Ezequiel Moreira lançaram pela gravadora Eldorado um LP com 12 canções de sua autoria, incluindo "Branca" e "Tico-Tico no fubá", além de resgatarem outras não tão gravadas, como "Tardes em Lindóia" e "Rosa desfolhada", confirmando, mais uma vez, a estreita ligação, no Brasil, entre músicos eruditos e compositores populares.

Boêmio , faleceu durante uma noitada, num quarto do Hotel Piratiniga, em São Paulo/SP, de ataque cardíaco.

Fonte: Dicionário Cravo Albin da MPB.

domingo, 25 de novembro de 2012

Xangô da Mnagueira

(Rio de Janeiro/RJ, 19-1-1923 --------- Rio de Janeiro/RJ, 7-1-2009)

Nascido no Rio Comprido, bairro do Rio de Janeiro, Xangô, nome artístico de Olivério Ferreira, passou a infância em um sítio em Paracambi, munícípio da Baixada Fluminense que, naquela época, poderia ser classificado como uma área de fronteira de expansão da antiga Guanabara. Daí, de sua mãe mineira (de Ubá) e de seu pai paulista (de Campinas), vieram o sotaque, o vocabulário e a inspiração em ritmos do interior.

Adolescente, Xangô viveria em vários bairros do Rio de Janeiro (Rocha Miranda, Sampaio, Irajá, Pavuna), lugares que marcam a identidade de um tipo especial de carioca, o suburbano, que só merece alguma apreciação durante o Carnaval. Parte da genialidade do samba de Xangô está na forma como mistura ritmos populares distintos. A infância interiorana e a vida nos bairros da classe trabalhadora da Rio consolidaram uma conexão distinta do clichê campo-cidade. Xangô uniu à roça ao subúrbio em sambas que falam línguas diversas mas mantêm um espírito em comum ao estimular à participação com suas palmas e coros cadenciados.

Como Xangô destacava, "antigamente, não havia a segunda do samba". Foi improvisando, então, que ele começou a fazer música e a conviver com as escolas de samba. A carreira em disco, segundo ele, "só viria depois de um longo aprendizado". As primeira lições foram na Unidos de Rocha Miranda, onde foi aluno de Lilico, em algum período no começo dos anos 40 (as datas não vem claramente à sua memória). "Nesta época, eu via Cartola e Paulo da Portela no jornal e sonhava em ser como eles". Xangô também recordava que de um bom improvisador exigia-se bom ouvido, boa cabeça para versar, e a habilidade de "entrar no ritmo e na melodia e deixar o outro em boas condições".

Da escola de Rocha Miranda, Xangô foi convidado para desfilar em uma ala da Portela. É Xangô quem conta, com evidente orgulho, a reação do mítico Paulo da Portela, à sua voz, "Poxa, menino, você tem uma voz boa, deve aproveitar isto". Esta foi a deixa para que Xangô passasse alguns anos na tradicional escola de samba de Madureira, "improvisando com os grandes", como ele diz. Quando Paulo da Portela deixou a escola para atuar na Lira do Amor, Xangô o acompanhou como uma deferência especial. Mas a aventura da Lira do Amor não durou muito e Xangô pediria permissão ao professor para improvisar em outra agremiação.

"Mestre", disse Xangô, "estou com a idéia de ir para uma escola que admiro. Eu quero ir para a Mangueira". Paulo da Portela responderia, "Olha, a casa é sua lá porque eu tenho grande amizade, grande intimidade com o Cartola. Se você precisa de uma referência, eu estou aí para dar para você".

Além da referência ilustre, Xangô também já tinha achado seu caminho para a Estação Primeira por seus próprios meios. Nos bailes como o da Banda Portugal em clubes da Pavuna e do Irajá (os bailes eram uma variação das gafieiras da Praça XI), Xangô faria amizades com moradores da Mangueira que o apresentariam à direção da escola. Nem a referência ilustre, nem as novas amizades, no entanto, o livraram de ter que provar suas habilidades em um concurso onde teve que improvisar e versar em dupla com outros candidatos. Xangô relembra que deveria haver umas 10 duplas concorrendo naquele dia. Ele não só ganhou o concurso, com a auxílio de um parceiro com quem teve uma empatia imediata, como ainda foi escolhido 3° diretor de harmonia da escola.

A função não somente indicava que ele havia pulado vários degraus na hierarquia da Mangueira, mas também ajudaria a celebrizar sua presença no mundo do samba. Xangô fala do dia-a-dia na quadra da Mangueira em mais de meio século de atividade na função, "Eu adaptava as pessoas novas que chegavam para que eles entendessem o espírito da coisa". Xangô tornou-se conhecido pela paciência e cortesia. "Nunca xinguei uma pastora ou discuti com ninguém. Entro na quadra na hora em que o ensaio começa, e todos param de falar. Se tem alguma confusão, explico que todos têm que colaborar porque isto aqui é a diversão nossa. É a arena, o teatro da pessoa humilde".

A função inspiraria o seu parceiro mais freqüente, Jorge Zagaia, a escrever um dos mais belos versos da história do samba no partido-alto "Diretor de Harmonia", que ambos dividem no primeiro lp de Xangô. 'Sou eu o diretor de harmonia/aviso para entrar a bateria/sou eu quem manda o mestre-de-sala/se apresentar a porta-bandeira Maria/se estou errado me perdoa/eu sou o samba em pessoa/você já pensou/quando a velhice chegar/e eu não puder mais sambar'.

Ao entrar para a Mangueira, Xangô adicionaria o complemento nobre ao apelido que ganhou ainda na adolescência. Morando em Rocha Miranda, Xangô foi levado por amigos para trabalhar na fábrica de tecidos Nova América, no subúrbio de Del Castilho. "Naquela época, os garotos brincavam de apostar corrida com carrinhos de madeira. Os ingleses malandros logo viram que era melhor botar os garotos para trabalhar em vez dos velhos que não iam produzir tanto", ele relembra. Xangô foi então trabalhar na máquina de rolo e logo ficou conhecido como o engraçadinho que botava apelidos em todo o mundo, "Olhava para a cara do caboclo e dizia: Carranco! Jamelão! Chupeta!". Mas o próprio Xangô não tinha um apelido e um novo empregado iria alterar este fato com uma provocação simples. Xangô avisou ao novato que ele iria ganhar um apelido, porque todos ali tinham um, e sem perder tempo decretou, "Você tem cara de macumba, você vai ser o Macumba". O novato Macumba concordou, "Não tem nada, pode botar", mas acrescentou, "Qual é o seu apelido?". Xangô apenas respondeu, "Eu não tenho apelido", ao que Macumba replicou de imediato, "Não tinha! Se eu sou o Macumba, você vai ser o Xangô!".

As reminiscências de Xangô sobre os desfiles da Mangueira, onde morou por vários anos, são como preciosas crônicas de uma cultura que parece perder essência à medida em que ganha brilho e holofotes. Xangô conta com evidente saudosismo sobre os dois sambas-enredos, um de entrada e outro de saída, que toda escola escolhia para o desfile principal, e da função do diretor de harmonia de narrar o desfile para a comissão julgadora no alto do palanque em que esta se colocava. A excelência de uma escola e a perícia de seus membros eram medidas no momento da parada, quando a escola trocava de sambas. "Se errasse, era logo desclassificada", ele observa. Quando os desfiles não eram oficiais, Xangô conta como os membros da escola tinham que proteger a sua porta-bandeira contra os ataques de outras escolas. Explica-se: se fosse deixada sem proteção, a porta-bandeira de uma escola poderia ser gentilmente "raptada" por outro mestre-sala que não o seu par para ser exibida em outra agremiação. Cabia então ao descuidado mestre-sala original aceitar o duelo, indo em busca da parceira na escola "inimiga" para trazê-la de volta ao grupo original.

Tais histórias foram vividas por Xangô ao longo de décadas no mundo do samba. Mas Xangô, como muitos outros sambistas da sua época, nunca viveu do samba. Aposentado como funcionário público federal, ele exerceu ao longo da vida as funções de operário, estivador, segurança e agente federal. Em certos períodos, ele acumulava dois empregos. Trabalhava como segurança em regime de plantão, mas tirava as folgas no cais do porto do Rio de Janeiro. O trabalho, no entanto, não o impediu de viajar com grupos da Mangueira por vários países da Europa e de comprovar como o samba brasileiro encanta as platéias de todo o lugar, incluindo os japoneses, que Xangô visitou antes mesmo deles se tornarem uma espécie de gravadora alternativa para sambistas que sequer sonham em gravar um disco no Brasil.

Xangô também deixou claro que um improvisador não se faz sozinho. Foi esta apreciação pelo trabalho dos parceiros que transformou os discos de Xangô em trabalhos quase coletivos. Seus parceiros compõem e cantam com ele em várias faixas. Muitos deles, Jorge Zagaia, Waldomiro do Candomblé, Babaú da Mangueira, Aniceto do Império, são também artistas excepcionais. Em seu último lp solo, "Xangô Chão da Mangueira" (1982), um destes "parceiros" aparece com destaque especial. Dona Ivone Lara, levada para o mundo dos shows e das gravações pelo próprio Xangô, compôs para ele uma de suas músicas mais inspiradas ("é a sua cara", ela disse a Xangô ao entregar a música). "A Festa de Santo Antônio", uma ladainha com cadência de samba e versos que subvertem um hierárquico sincretismo religioso, é provavelmente a melhor interpretação de Xangô em disco.

Os dias atuais de Xangô eram passados ao lado da esposa, Sonia, que organiza um impressionante acervo de recortes, troféus e memorabilia, em seu apartamento no Irajá. Além do museu particular, que ocupa um quarto inteiro do apartamento, Xangô também tinha um altar budista em sua casa. O diretor de harmonia cumpriu suas funções na Mangueira e participou das atividades da Velha Guarda da escola até sua morte.

Por seu talento e pela convivência com outros personagens ilustres do samba carioca, Xangô da Mangueira poderia pedir filiação à mais de uma velha guarda, idéia que parece nunca ter passado por sua cabeça. Mas é isto o que passa pela cabeça de quem ouve o samba, outra parceria sua com Jorge Zagaia, que Xangô canta no recente CD da Velha Guarda da Mangueira, "Eu encontrei no Carnaval que passou/aquela que foi o meu grande amor/como estava bela/fantasiada com as cores da Portela/eu não pude resistir e chamei por ela/ela não quis me ouvir/a minha divergência com ela/é que eu sou Mangueira e ela é Portela".

Xangô deixou cerca de 150 composições. Consagrou-se como o "rei do partido-alto", título que acabou por batizar seu primeiro disco. Gravou vários LPs, mas apenas dois CDs. O primeiro foi "Recordações de um Batuqueiro", de 2005. O segundo, lançado um ano depois, foi um livro-CD, patrocinado pelo Instituto de Resseguros do Brasil e Eletrobrás.

Xangô da Mangueira, morreu aos 85 anos, no Hospital de Irajá, na zona norte da cidade do Rio de Janeiro. Ele tinha infecção renal crônica, agravada pelo diabetes e também sofria de mal de Parkinson. Durante o período de internação, Xangô manteve-se lúcido. Com a piora do quadro, foi transferido para o Centro de Tratamento Intensivo, onde veio a falecer.

Fonte: Samba choro / Estadão.

Xavantinho

(Uberlândia, 1942  *******  São Paulo/SP, 8/10/1999)

Ranulfo Ramiro da Silva, o Xavantinho, trabalhou desde criança na roça, com o pai e os irmãos, dentre eles Pena Branca(José Ramiro). Já nesse período, começaram a desenvolver o gosto pelo canto e pela viola. Ranulfo saía de casa freqüentemente para tocar num conjunto da Rádio Difusora da cidade. Ranulfo e José Ramiro em 1961 já cantavam juntos.

Em 1962, assumem os nomes de Xavante e Xavantinho depois de uma difícil escolha. Em 1968, Ranulfo mudou-se para São Paulo, para trabalhar numa transportadora. Começam a participar de vários festivais de MPB.

Em 1970, assumem o nome Pena Branca e Xavantinho. Naquele ano, ganharam um festival de música sertaneja promovido pelo radialista José Bettio. Gravaram um disco com a música posteriormente vitoriosa, "Saudade", não alcançando repercussão. Tentaram várias oportunidades durante anos. Pena Branca chegou a desistir da carreira. Xavantinho, contudo, acreditava no poder da dupla. 

Em 1980, classificaram a música "Que terreiro é esse?" no Festival MPB-Shell na Rede Globo. No mesmo ano, o produtor Roberto Oliveira (irmão do compositor Renato Teixeira) levou a dupla ao estúdio para gravar o disco "Velha morada", esgotado e nunca reeditado. 

Em 1981, apresentaram-se no programa "Som Brasil" na TV Globo. Iniciando uma série de apresentações pelo país com o cantor e apresentador Rolando Boldrin. Boldrin foi o produtor do segundo disco da dupla: "Uma dupla brasileira", em 1982, com destaque para "Rama de mandioquinha", de Elpídio Santos, e "Memória de carreiro", de Juraíldes de Cruz.

O terceiro disco só viria em 1987 - "Cio da terra". A canção título era de Chico Buarque e Milton Nascimento, que participou de sua gravação.

Em 1988, lançam o LP "Canto violeiro", com participação de Fagner, Tião Carreiro, Almir Sater e outros. contendo Mulheres da terra (Xavantinho e Moniz). 

"Cantadô do mundo afora", de 1990, recebeu o Prêmio Sharp de Melhor Disco do Ano, e "Casa de barro", de Xavantinho, Cláudio Balestro e Moniz, uma de suas faixas, o Prêmio de Melhor Música. Outro trabalho premiado foi "Ao vivo em Tatuí", de 1992, que recebeu o Prêmio Sharp de Melhor Disco e Prêmio APCA.

Em 1993, lançaram "Violas e canções " pela gravadora Velas. Nesse período estenderam seus shows aos Estados Unidos. Ainda em 1993, a dupla gravou "Viola quebrada", de Mário de Andrade. "Luar do sertão", de João Pernambuco e Catulo da Paixão Cearense em 1995 e "Tristeza do Jeca", de Angelino de Oliveira em 1996. O último disco foi "Coração matuto" em 1998. Pena Branca e Xavantinho sempre gravaram canções relacionadas ao campo, mas nem sempre de compositores caipiras. "Planeta Água", de Guilherme Arantes, "Lambada de serpente", de Djavan, e "Cio da terra", de Milton Nascimento e Chico Buarque, são exemplos. A todas essas canções emprestaram sua interpretação fiel à viola e ao canto caipira. Embora populares no interior do país e recolhendo reverência da crítica, sempre foram modestos em vendagem de discos. O disco da carreira da dupla que mais vendeu foi "Ao vivo em Tatuí", de 1992, que alcançou 150 mil cópias. Como cantadores, violonistas e violeiros receberam o Prêmio Sharp da Categoria Regional por várias vezes. A obra da dupla recupera ritmos e costumes do Brasil como o cateretê, a toada e a moda de viola. A dupla terminou em 1999 com a morte de Xavantinho.


Fonte: Dicionário Cravo Albin da MPB.

Zé Coco do Riachão

(Brasília de Minas/MG, 1912 ****** Montes Claros/MG, 21/6/1998).

Zé Coco, José dos Reis Barbosa dos Santos, aprendeu a tocar com seu pai, que também construía violas. Quando pequeno, jâ brincava de montar instrumentos em madeiras.

Quando Zé Coco estava nascendo, passava por perto uma Folia-De-Reis e o menino foi consagrado por sua mãe aos Santos Reis, por isso José "dos Reis" foi o seu nome registrado no cartório.

Um dia, seu pai estava construindo uma viola, encordoou-a e saiu para guardar as ferramentas. Então, o menino de sete ou oito anos pensou: "nem que eu apanhe, vou pegar essa viola e tocar aquela música que meu pai tocou". O pai ouviu e voltou correndo, perguntando : "quem tocou a viola?". Mesmo assustado, o filho falou que tinha sido ele. Então, o velho pediu para ele tocar de novo e acabou dando o instrumento de presente para Zé Coco.

Na sua juventude participava de desafios em que a audiência apostava dinheiro no seu competidor preferido, como se fosse um jogo. Numa dessas "brigas de viola" venceu Novato Preto, considerado, até então, o "feiticeiro rei dos violeiros".

José Ramos Tinhorão, afirma que "quem um dia se deleitou com a festa `banjistica' do som country do LP americano Dueling Banjos, lançado pela WEA em 1978, na certa sentirá um frissom ao descobrir a extraordinária semelhança de efeitos da música dos caipiras do sul dos Estados Unidos com a viola de Zé Coco".

Fenômeno da cultura popular, Zé Côco foi admirado como um virtuose da viola e da rabeca (violino caipira). Ele dominava uma técnica de execução rara, que lhe permitia fazer solo e acompanhamentos ao mesmo tempo. Apesar de não ter tido nenhuma "leitura", nem das palavras nem de música, compôs em vários gêneros musicais, revelando seu talento genuíno e sua sensibilidade apurada. Fez lundus, mazurcas, dobrados, guaianos, corta-jacas, calangos e maxixes. Além disso, Zé Côco sabia tocar sanfona, violão, cavaquinho, caixa de folia e pandeiro. Sem ter tido professor, ensinou muita gente a tocar viola.

Foi também luthier (artesão de instrumentos musicais) e trabalhou como marceneiro, ferreiro, sapateiro, fazedor de cancelas, de engenho, de carro-de-boi, roda de ralar mandioca. Disso tudo, o que mais lhe dava alegria era tocar nas festas de Folia de Reis, que acontece todo mês de janeiro pelo país. Como costumava dizer, sua dedicação à Folia não era questão de profissão nem de promessa. Provavelmente era de fé, porque Zé Coco nasceu no mês da festa em 1912, no Riachão, lugarejo da zona rural de Brasília de Minas, no sertão mineiro.

Descoberto pelo repentista e pesquisador de cultura popular Téo Azevedo, quando já beirava os 70 anos de idade, Zé Côco gravou apenas três discos: "Brasil Puro", em 80, "Zé Côco do Riachão", em 81, e "Vôo das Garças", em 87. Muitas de suas peças musicais se perderam sem gravação.

No início de 1998 em São Paulo, Zé Coco foi a atração do Festival de Violeiros no Sesc Pompéia. O músico, que ficou hospitalizado por cerca de um mês, não conseguiu superar as complicações de um derrame e morreu aos 86 anos.

Ele, que foi chamado "Beethoven do sertão" por uma equipe de reportagem da TV alemã, pensava que com sua música iria ganhar dinheiro para comprar uma fazenda. Que nada, Zé Coco morreu pobre. Mas deixou como herança um patrimônio cultural inestimável e um lote de mil discos, de quando converteu seu terceiro LP, "Vôo das Garças", em CD. Como não conseguiu vendê-los, eles estão encaixotados na casa de sua filha, Luisa Soares, em Montes Claros, à espera de quem quiser preservar o que restou do mestre.

Fonte: Casa do Violeiro.