segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Wilson Vianna (Capitão Aza)

(Rio de Janeiro/RJ, 27 de fevereiro de 1928 ******* Bonito/MS, 3 de maio de 2003)

A história de Wilson Vianna é repleta de surpresas. Antes de chegar à televisão e viver o herói que amava as crianças mas era um exemplo de sujeito durão, pertenceu à temida Polícia Especial de Getúlio Vargas. Em um livro em que narra sua trajetória, Wilson conta que chegou a salvar o presidente em um atentado. Trabalhou em chanchadas da Atlântida, e logo foi descoberto pelo cinema americano, atuando em duas produções da Universal Pictures rodadas no Brasil.

Em 1957 representou o cinema nacional no Festival Internacional de Cinema da República Dominicana, o que lhe abriu as portas do mercado mexicano. De volta ao Brasil após três anos no México, foi um pioneiro em dublagens. Vianna faria ainda figuração em uma produção americana com Charlton Heston, John Wayne e Sidney Poitier, entre outros astros, mas foi com o Capitão Aza - que ficou 14 anos no ar e revelou a ajudante Martinha - que se identificou plenamente.

O Clube do Capitão Aza chegou a ser exibido no horário matutino, mas na maior parte das vezes, encaixava-se no meio da tarde, das 16 às 18h30min, de segunda a sexta.

Ele iniciava com a canção tema, e aparecia dentro de sua nave espacial, onde havia um efeito de estrelas passando ao fundo, o que dava a impressão de que estava viajando pelo espaço. Com voz firme e enérgica ele fazia então a abertura com a contagem regressiva, e bradava o seguinte refrão:

"... Alô, alô Sumaré! Alô, alô Embratel! Alô,alô Intelsat 4! Alô, alô criançada do meu Brasil! Aqui fala o Capitão Aza, comandante-em-chefe das forças armadas infantis desse Brasil! "

Criança que ouvisse essa frase não tinha jeito, batia continência e corria para a frente da televisão a espera dos desenhos e seriados.
É também interessante notar como muitas idéias deste programa acabariam por influenciar muitos outros que estariam por vir, como por exemplo o Xou da Xuxa, que também faria a entrada da apresentadora em uma nave espacial e também adotaria música de abertura com contagem regressiva.

O programa do Capitão, ao contrário de muitos infantis de utilidade duvidosa que vemos por aí, ainda possuía um alto teor educativo, com Wilson sempre preocupado em ensinar às crianças sobre ética, senso de responsabilidade, respeito e liderança. E é bem verdade que isso contribuía bastante para o resgate e a valorização do espírito cívico de cada um - mesmo depois que a TV fosse desligada - afinal as crianças sempre gostam de imitar os seus heróis. Complementando esse trabalho televisivo, o Capitão ainda se dedicava às aparições ao vivo: comparecia a shows beneficentes, visitava escolas, e também desfilava durante a Semana da Pátria em meio aos alunos, o que tornava a data ainda mais especial para as crianças, que nestes dias alinhavam o uniforme do colégio, prendiam a fitinha verde-amarela no bolso da camisa, e torciam para que o ¨super-herói comandante-em-chefe das forças infantis¨ desse as caras em seu colégio.

Revirando o baú das lembranças é interessante notar como algumas manias dos apresentadores de televisão ficam gravadas na memória da gente. Pois aqui vão algumas do Capitão. Uma engraçada, e no bom estilo super-herói, era a mania que ele tinha de mostrar o bíceps diante das câmeras, dizendo que o Capitão não ficava doente porque se tratava ou tomava remédio antes da doença chegar. Obviamente isso nos encorajava a visitar o médico ou aceitar das nossas mães aqueles xaropes difíceis de engolir. Uma outra era o modo como ele fazia questão de mostrar os guardas como sendo os grandes amigos das crianças.

O Capitão Aza também chegou a gravar alguns discos, algumas das canções entoadas ao lado da ajudante Martinha. Uma das mais conhecidas e que fazia a abertura do programa era "Sideral", recentemente regravada pelo cantor Leoni.

Wilson foi responsável pela primeira chance dada ao comediante e apresentador Jô Soares, conforme revela o diálogo mantido entre eles:

"... Em 1954, Wilson Vianna costumava se encontrar com amigos, entre eles Wilson Grey, Alexandre Amorim, Angela Maria, Ivon Curi, Carlos Cotrim, Roberto Bataglin, Julie Bardô e Milton Moraes - no Clube do Cinema, no Vogue, na Av. Princesa Isabel, ou no Jirau, na Rodolfo Dantas, perto do Copacabana Palace, onde ouviam Tito Madi e o pianista Ribamar.
Certo dia, ele estava parado na esquina perto do Jirau, quando aparece um rapaz gordinho e pergunta:
- Você é o Wilson Vianna ?
- Sou.
- Muito prazer, eu sou o José Soares. Eu tenho muita vontade de trabalhar no cinema e na televisão, mas não conheço ninguém. Acabo de chegar da Europa, onde estava estudando, e estou hospedado aqui no Copacabana Palace...
- O que você sabe fazer?
- Eu sei fazer algumas imitações.
O rapaz imitou um balé com os dedos, usando flash-light na boca, e depois fez algumas brincadeiras que Wilson achou muito engraçadas. O rapaz gordinho era o Jô Soares. "Eu disse que o levaria até a TV TUPI e, alguns dias depois fomos falar com o Mário Provenzano, que na época era o diretor da emissora...."

Sabe-se que nem mesmo o Capitão Aza que sempre fez questão de promover os valores da pátria e da educação em seu programa, escapou de ser incomodado pelos exageros do regime militar que governou o Brasil nos anos 70. E tudo por causa da letra de Sideral. Parece que algumas autoridades simplesmente implicaram com a parte da música que fala que as turbinas de sua nave iam "colorindo de vermelho esse céu azul" achando que poderia ser mensagem comunista para a garotada. Graças a Deus que não mexeram na letra.

Foi no programa do Capitão Aza, onde apareceram pela primeira vez na TV, personagens do porte de Homem-Aranha, Hulk, Thor, Capitão América (os primeiros desenhos "desanimados" da Marvel), o seriado clássico de Batman e Robin e os primeiros animes (desenhos japoneses) como Speed Racer, Super Dínamo, A Princesa e o Caveleiro e tantos outros, além das séries clássicas como A Feiticeira, Jeanne é um gênio, as séries com marionetes do tipo de Thunderbirds e tanta coisa boa.
O personagem usava uma roupa inspirada no uniforme da Aeronáutica e se auto-proclamava o "comandante-em-chefe das forças infantis desse Brasil". O nome Capitão Aza foi adotado por Vianna para homenagear um piloto da Força Aérea Brasileira chamado Capitão Azambuja, daí a origem do nome Aza com "z".

Nos últimos anos de vida, Wilson Vianna passou a morar em Penedo, cidade da região serrana do Rio de Janeiro, onde era proprietário de um hotel que ele mesmo administrava.

O ator teve um enfarte na madrugada do dia 03/05/03 em Mato Grosso do Sul. Ele passava uma temporada com a mulher, o filho e a nora naquele Estado. O corpo de Wilson Vianna foi enterrado no Rio de Janeiro.

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