(Rio de Janeiro - 17/10/1847 ***** Rio de Janeiro 28/02/1935)
Chiquinha Gonzaga revolucionou não só a música popular, mas os costumes de seu tempo. Passou a vida enfrentando preconceitos em nome da paixão pela música e por ter se dedicado a uma atividade até então exclusivamente reservada aos homens.
Foi renegada pelos pais, desfez casamentos, ficou longe dos filhos e foi alvo de toda espécie de sátiras e piadas. Foi ela quem pela primeira vez promoveu concertos em teatros onde não era permitida a apresentação de certos instrumentos como o violão, pois estes instrumentos mais populares eram considerados pertencentes a um mundo de marginais e prostitutas. Sua passagem pela música nacional foi um marco na história: uma mulher que viveu com coragem e intensidade, tudo o que lhe ditou o coração.
Francisca Edwiges Neves Gonzaga, conhecida como Chiquinha Gonzaga, nasceu em 17/10/1847, na cidade do Rio de Janeiro.
Para sua mãe, Rosa Maria de Lima, mulher pobre e mestiça, seu nascimento foi uma situação muito difícil, sobretudo porque não sabia se o pai iria assumir a paternidade da menina. José Basileu, militar e oriundo de família rica, apesar da forte pressão que sofreu de seus pais contra essa união, assumiu a criança e a registrou como filha.
Numa época em que a mulher deveria se casar, ter filhos e sair pouquíssimo de casa, devotando toda sua vida ao marido e sendo obrigada a viver dentro de um sufocante regime patriarcal, Chiquinha Gonzaga fez seus estudos de música. Desde cedo foi educada para isso, aprendendo a ler e a escrever, fazer contas e, principalmente, tocar piano. Ela crescia ao som de polcas, maxixes, valsas, modinhas e participava das festas domésticas com grande satisfação. Foi assim que, no Natal de 1858, compôs sua primeira música.
Em 1863, com 16 anos, foi forçada pelos pais a se casar com Jacinto Ribeiro do Amaral, com quem teve três filhos: João Gualberto, Maria do Patrocínio e Hilário. Jacinto nunca aceitou que sua esposa fosse a rodas boêmias, fato que tornou o casamento, imposto pelo pai de Chiquinha, rápido e cheio de brigas.
Infeliz no casamento e impedida de cultivar a música que tanto amava, no piano que levara como dote, Chiquinha Gonzaga não hesitou em fazer sua escolha: deixou o marido e saiu de casa. Como uma mulher separada no século XIX era uma aberração na sociedade, ela pagou um preço alto. Foi expulsa de casa por seu pai, que, a partir daquele momento, renegou sua paternidade. Levou consigo apenas o filho mais velho, João. Maria foi criada pela avó materna e Hilário, por uma tia.
Naquela ocasião, Chiquinha Gonzaga passou a freqüentar o ambiente masculino dos músicos populares. Também se ligou apaixonadamente a João Batista, jovem e rico engenheiro de inclinação boêmia. Para continuar junto dele e ao mesmo tempo aliviar as pressões na Corte, acompanhou João Batista quando foi contratado para dirigir a construção da linha férrea no interior de Minas Gerais.
Em 1875, com o término do contrato, voltaram para o Rio de Janeiro, onde nasceu sua filha Alice. O confronto com uma sociedade que os conhecia e os condenava, fez o amor durar pouco tempo. Separaram-se e ela passou a trabalhar, vivendo pobremente.
Chiquinha Gonzaga foi residir no bairro de São Cristóvão, onde passou a ministrar aulas particulares de disciplinas escolares e de piano. Reaproximou-se do amigo Calado, com quem conseguiu alunos de piano e a oportunidade de tocar em grupos de choro. Num desses encontros com a boemia do Rio de Janeiro, em 1877, ela compôs, de improviso, a polca "Atraente", seu primeiro grande sucesso. Com essa música obteve uma aceitação extraordinária, traduzida em mais de 15 edições. Daí em diante, ficou cada vez mais conhecida à medida que foram editadas outras músicas em papel e, mais tarde, pôde apresentá-las no teatro musicado.
Paralelamente às atividades musicais, Chiquinha se envolveu nas causas abolicionista e republicana. Fez também campanha contra o regime monárquico em locais públicos ao lado de seus amigos, Lopes Trovão e José do Patrocínio, inseparáveis em todas as grandes causas sociais da época.
Em 1885, Chiquinha Gonzaga conseguiu estrear como maestrina, em parceria com Palhares Ribeiro, compondo a opereta em um ato "A Corte na Roça". Com essa opereta Chiquinha conseguiu impor-se no mundo musical brasileiro. No mesmo ano, dirigiu os músicos do teatro e a banda da Polícia Militar, tornando-se a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil. Em 1887, fez, no Teatro São Pedro, no Rio, um concerto com 100 violões. Nessa época, Chiquinha participava ativamente do movimento pela libertação dos escravos. Vendia de porta em porta suas partituras a fim de angariar fundos para a Confederação Libertadora (organização antiescravista). Com o dinheiro que conseguiu ao vender a partitura de sua música "Caramuru", Chiquinha Gonzaga comprou, em 1888, a alforria do escravo e músico José Flauta, antecipando-se poucos meses à Lei Áurea.
Aos poucos, o nome de Chiquinha Gonzaga foi se firmando no meio teatral carioca, participando de vários espetáculos como compositora e regente: "A Filha de Guedes" (1885), "O Bilontra e a Mulher-Homem" (1886), "O Maxixe na Cidade Nova" (1886), "O Zé Caipora" (1887), entre outros.
Chiquinha Gonzaga foi uma mulher pioneira e inovadora em outros aspectos além da música. Manteve postura crítica aos desmandos de Floriano Peixoto durante a Revolta da Armada, movimento que eclodiu no Rio de Janeiro no final de 1893 e teve um trágico desfecho na capital catarinense no ano seguinte.
A carreira já repleta de sucessos ganhou brilho especial em 1899, quando compôs a sua canção mais conhecida: a marcha-rancho "Ó Abre Alas", feita para o cordão carnavalesco Rosa de Ouro. Ao ouvir um dos ensaios, no bairro do Andaraí, onde morava, a maestrina teve a inspiração para a música. Chiquinha a compôs de forma despretensiosa, nem sequer se preocupando em editar a marchinha, que considerava uma composição menor. Mas, o fato é que a canção caiu nas graças do povo e é, até hoje um clássico da música popular brasileira, além de ter sido considerada a primeira marcha feita para o carnaval.
Em 1899, já com 52 anos, Chiquinha vivia sozinha e tinha uma vida pessoal discreta. Não admitia empregados trabalhando em sua casa, assim como nunca tivera escravos. Nessa época, conheceu João Batista Fernandes Lage, jovem português de apenas 16 anos. Nasceu ali um romance que duraria até o fim da sua vida. Os dois passaram a viver juntos. Tentando camuflar a relação e para evitar novos escândalos, apresentou-o à sociedade como seu filho. Obviamente, alguns consideraram tal filiação suspeita, pois o jovem tinha sotaque português e nunca se tinha ouvido falar de outro filho além dos quatro conhecidos.
Chiquinha Gonzaga esteve em Portugal por três vezes: em 1902, depois em 1904 e no período de 1906 a 1909, quando desenvolveu atividade profissional, com destaque, no teatro de revistas português. De volta ao Brasil, retomou seu lugar no meio musical, para assinalar, em 1912, o maior êxito, até hoje, do teatro brasileiro, "Forrobodó", com texto de Carlos Bittencourt e Luiz Peixoto.
Outras peças de Chiquinha, nos anos seguintes, continuaram a merecer destaque, entremeadas com o escândalo que foi a execução do tango "Corta-Jaca" no Palácio do Catete, pela esposa do presidente Hermes da Fonseca, Nair de Teffé. Era Chiquinha, mais uma vez ousada e corajosa, fazendo a música popular brasileira penetrar nos salões da corte. A repercussão foi imediata. A execução da música pela esposa do presidente foi considerada na época uma quebra de protocolo, causando escândalo nas altas esferas do poder brasileiro. Rui Barbosa deu o seu "pronunciamento", após a quebra de protocolo feito por Nair de Tefé, sobre a música e a dança da moda "...a mais baixa, mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba". Os jornais comentam o sacrilégio com destaque "imagine, um tango popular no Catete!"
Sempre lutadora, ela também liderou a luta pela valorização dos direitos autorais, participando em 1917 da fundação da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT). A preocupação vinha de longe. Em 1903, Chiquinha passeava pela Europa quando viu, numa loja musical de Berlim, uma série de partituras suas reproduzidas sem seu conhecimento. Isto a deixou indignada e ela, ajudada por João Batista, tratou de descobrir quem havia autorizado a edição. Acabou chegando ao diretor da Casa Edison do Rio de Janeiro, Fred Figner. Ele tentou não levar a situação muito a sério, afinal era conhecido de Chiquinha, e além de tudo nunca alguém tinha brigado por questões autorais no país. Mas ela não deixou por menos, foi aos jornais, deu entrevista e criou polêmica: com que direito utilizavam sua obra sem ao menos a avisar? Acabou vencendo o impasse e recebeu 15 contos de réis a título de indenização.
Chiquinha Gonzaga contribuiu para a formação do nosso nacionalismo musical, num tempo em que tudo vinha da Europa.Teve problemas com o governo, enfrentou muitas "opiniões" maldosas que a sociedade tinha a seu respeito e foi considerada subversiva. Tudo isso a custa de sua genialidade e de seu espírito libertário.
A consagrada maestrina brasileira, faleceu em 28 de fevereiro de 1935, no Rio de Janeiro, com 87 anos. Deixou uma obra volumosa e variada: 77 peças teatrais e cerca de 2 mil composições em diversos gêneros.
Fontes: Chiquinha Gonzaga (Samba e Choro) Divisão de Música - Acervo Virtual; O Leme - Biografias - O Carnaval de Chiquinha Gonzaga
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