segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Villa Lobos

(Rio de Janeiro/RJ, 5 de março de 1887 ******* Rio de Janeiro/RJ, 17 de novembro de 1959)

Filho da dona-de-casa Noêmia Villa-Lobos e do funcionário da Biblioteca Nacional e músico amador Raul Villa-Lobos, Heitor Villa-Lobos nasceu no bairro de Laranjeiras, Rio de Janeiro.

Além da cidade do Rio de Janeiro, Villa-Lobos residiu com a família em cidades do interior do estado do Rio de Janeiro (Sapucaia) e de Minas Gerais (Cataguazes e Bicas) durante os anos de 1892-1893. Nessas viagens, conheceu as modas caipiras e os tocadores de viola, que formam parte do folclore musical brasileiro e que, mais tarde, vieram a universalizar-se em suas obras.

Ao retornarem ao Rio de Janeiro, os Villa-Lobos transformaram sua casa num ponto de encontro de nomes respeitados da época, que ali se reuniam, todos os sábados, para tocar até altas horas da madrugada. Esse hábito, que durou anos, influiu decisivamente na formação musical de Villa-Lobos que, logo cedo, iniciou-se na música.

A partir dos seis anos de idade, aprendeu, com o pai, a tocar clarinete e violoncelo (este último em uma viola especialmente adaptada). Raul Villa-Lobos ainda lhe obrigou a exigentes exercícios de percepção musical que incluíam o reconhecimento de gênero, estilo, caráter e origem de músicas, de notas musicais e ruídos.

Foi também nessa época, e graças à sua tia Fifina (que lhe apresentou os prelúdios e fugas do "Cravo Bem Temperado"), que Tuhú (seu apelido de infância) fascinou-se pela obra de Johann Sebastian Bach, compositor que acabou por servir-lhe de fonte de inspiração para a criação de um de seus mais importantes ciclos, o das nove "Bachianas Brasileiras".

Ao voltar ao Rio de Janeiro, a música praticada nas ruas e praças da cidade também passou a exercer sobre ele um atrativo especial. É o "choro", composto e executado pelos "chorões", músicos que se reuniam regularmente para tocar por prazer e, ainda, em festas e durante o carnaval. Tal interesse levou-o a estudar violão escondido de seus pais, que não aprovavam sua aproximação com os autores daquele gênero, considerados marginais.

No início dos anos 20, como consequência desse envolvimento com o choro, começou a compor um ciclo de quatorze obras, para as mais diversas formações, intitulado "Choros"; nasceu aí uma nova forma musical, onde aquela música urbana se mescla a modernas técnicas de composição.

Com a morte de Raul Villa-Lobos, em 1899, Noêmia não conseguiu mais conter o filho. Em 1905, Villa-Lobos partiu em viagens pelo Brasil. Visitou os estados do Espírito Santo, Bahia e Pernambuco, passando temporadas em engenhos e fazendas do interior, em busca do folclore local.

Em 1908, chegou à cidade de Paranaguá, estado do Paraná, lá permanecendo por dois anos, tocando violoncelo para a alta sociedade local e violão para os jovens.

Entre os anos de 1911 e 1912 fez parte de uma excursão pelo interior dos estados do Norte e do Nordeste. Foi nesse momento que conheceu a Amazônia - fato ainda não comprovado - o que marcou, segundo ele, profundamente sua obra.

De volta ao Rio de Janeiro, conheceu aquela com quem se casou em 1913: Lucília Guimarães.

O ano de 1915 marcou o início da apresentação oficial de Villa-Lobos como compositor, com uma série de concertos no Rio de Janeiro. Na época, casado com a pianista Lucília Guimarães, ganhava a vida tocando violoncelo nas orquestras dos teatros e cinemas cariocas, ao mesmo tempo em que escrevia suas obras. Os jornais publicavam críticas contra a modernidade de sua música. Anos mais tarde, o compositor fez questão de explicar:
"Não escrevo dissonante para ser moderno. De maneira nenhuma. O que escrevo é consequência cósmica dos estudos que fiz, da síntese a que cheguei para espelhar uma natureza como a do Brasil. Quando procurei formar a minha cultura, guiado pelo meu próprio instinto e tirocínio, verifiquei que só poderia chegar a uma conclusão de saber consciente, pesquisando, estudando obras que, à primeira vista, nada tinham de musicais. Assim, o meu primeiro livro foi o mapa do Brasil, o Brasil que eu palmilhei, cidade por cidade, estado por estado, floresta por floresta, perscrutando a alma de uma terra. Depois, o caráter dos homens dessa terra. Depois, as maravilhas naturais dessa terra. Prossegui, confrontando esses meus estudos com obras estrangeiras, e procurei um ponto de apoio para firmar o personalismo e a inalterabilidade das minhas idéias".

No Brasil do início do século XX, a influência européia (mais especificamente, francesa) e a permanência do espírito conservador do fim do século XIX incomodavam a juventude, que começou a reagir a tudo isso. Surgiu, então, um movimento chamado Modernista que, em fevereiro de 1922, foi oficializado em São Paulo, através da Semana de Arte Moderna. Atividades de vários campos da arte são apresentadas no Theatro Municipal daquela cidade.
Convidado por Graça Aranha, Villa-Lobos aceitou participar dos três espetáculos da "Semana", apresentando, dentre outras obras, as "Danças Características Africanas".

Já bastante conhecido no meio musical brasileiro, alguns de seus amigos começaram a incentivá-lo a ir à Europa, e apresentaram à Câmara dos Deputados um projeto para financiar sua ida a Paris. Em meio a protestos que condenavam a iniciativa, a proposta foi aprovada e Villa-Lobos partiu, em 1923, para o que seria sua primeira viagem ao Velho Continente. Ao chegar, Debussy - uma de suas grandes inspirações - já não era mais vanguarda, e artistas e intelectuais da efervescente capital francesa voltaram seus olhos e ouvidos para os compositores russos, como Igor Stravinsky, que faziam música original, moderna e de caráter nacionalista.

Desconhecido, Villa-Lobos começou a entrar no ambiente artístico parisiense através de Tarsila do Amaral e de outros artistas plásticos brasileiros; Arthur Rubinstein - que já o conhecia do Brasil - e o soprano Vera Janacópulos divulgavam suas obras em recitais por vários países.

Em função de um drástico corte no orçamento inicial solicitado, e apesar do apoio financeiro de um grupo de amigos e mecenas, Villa-Lobos se viu, em 1924, forçado a voltar ao Rio de Janeiro. Em sua chegada ao Brasil, foi assim saudado pelo poeta Manuel Bandeira:

"Villa-Lobos acaba de chegar de Paris. Quem chega de Paris espera-se que chegue cheio de Paris. Entretanto, Villa-Lobos chegou cheio de Villa-Lobos. Todavia uma coisa o abalou perigosamente: a 'Sagração da Primavera', de Stravinsky. Foi, confessou-me ele, a maior emoção musical da sua vida.(...)".

Em 1927, o compositor retornou a Paris para uma temporada de três anos, desta vez em companhia de Lucília Villa-Lobos, para organizar concertos e publicar várias obras pela editora Max-Eschig, à qual foi apresentado quando de sua primeira ida à França. Fez mais amigos, e artistas como Magda Tagliaferro, Leopold Stokowski, Maurice Raskin, Edgar Varèse, Florent Schmitt e Arthur Honneger frequentavam sua casa e participavam das feijoadas dos domingos.

A partir dessa segunda temporada na capital francesa, ganhou prestígio internacional, apresentando suas composições em recitais e regendo orquestras nas principais capitais européias. Causou forte impressão no público e na crítica, ao mesmo tempo em que provocou reações por suas ousadias musicais.

No segundo semestre de 1930, Villa-Lobos - a convite - retornou ao Brasil, provisoriamente, para a realização de um concerto em São Paulo. Contudo, não previu que, neste seu retorno, estava inaugurando um novo capítulo em sua biografia.

Villa-Lobos preocupava-se com o descaso com que a música era tratada nas escolas brasileiras e acabou por apresentar um revolucionário plano de Educação Musical à Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. A aprovação do seu projeto levou-o a mudar-se definitivamente para o Brasil.

Em 1931, reunindo representações de todas as classes sociais paulistas, organizou uma concentração orfeônica chamada "Exortação Cívica", com a participação de cerca de 12 mil vozes.

Após dois anos de trabalho em São Paulo, Villa-Lobos foi convidado oficialmente por Anísio Teixeira, então Secretário de Educação do Estado do Rio de Janeiro, para organizar e dirigir a Superintendência de Educação Musical e Artística (SEMA), que introduziu o ensino da música e do canto coral nas escolas.

Como consequência do seu trabalho educativo, embarcou para a Europa, em 1936, como representante do Brasil no Congresso de Educação Musical em Praga. De retorno ao Brasil, ainda em 1936, uniu-se à sua secretária, Arminda Neves d'Almeida.

Com o apoio do então presidente da República, Getúlio Vargas, organizou concentrações orfeônicas grandiosas que chegaram a reunir, sob sua regência, até 40 mil escolares, e, em 1942, criou o Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, cujos objetivos eram: formar candidatos ao magistério orfeônico nas escolas primárias e secundárias; estudar e elaborar diretrizes para o ensino do canto orfeônico no Brasil; promover trabalhos de musicologia brasileira; realizar gravações de discos etc.

"Irei aos Estados Unidos somente quando os americanos quiserem me receber como eles recebem a um artista europeu, isto é, em razão das minhas próprias qualidades e não por considerações políticas...". Apesar dessa resistência inicial - era o momento da chamada "política da boa vizinhança" praticada pelos EUA com aliados na 2ª Guerra Mundial -, Villa-Lobos, convencido pelo maestro Leopold Stokowski, aceitou o convite do maestro norte-americano Werner Janssen para uma turnê pelos EUA, em 1944.

A partir daí, retornou àquele país várias vezes, onde regeu e gravou suas obras, recebeu homenagens e encomendas de novas partituras, além de estabelecer contato com grandes nomes da música norte-americana, fechando, assim, o ciclo de sua consagração internacional.

Dentre as composições de Villa Lobos destacam-se Tocata (O Trenzinho Caipira), Uirapuru e A Maré Encheu.

Villa-Lobos morreu de câncer, 1959, no Rio de Janeiro.

Fonte: Museu Villa Lobos.

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